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Teoria da Relatividade

1- O mito Einstein

Uma fotomontagem feita pela publicidade italiana para a Carlsberg beer no início da década de 1980 coloca Einstein e um macaco lado a lado. O macaco segura uma caneca com cerveja e sob ele está escrito: l' instito pede birra. Einstein, ocupando a outra metade do cartaz, tem em sua mão direita outra caneca, mas esta com a inscrição da logomarca da cerveja; logo abaixo há a legenda: “la ragione dice

Carlsberg”. Simbolizando o ponto culminante da evolução racional, Einstein é

tomado como modelo publicitário.

Os resultados previstos pela Relatividade sobre o desvio de raios luminosos ao passarem próximos ao Sol foram confirmados pela observação, o que gerou, por um lado, euforia, e, por outro, entre os que duvidavam da veracidade da teoria, reações contrárias; no entanto, o entusiasmo prevaleceu sobre os protestos. A comprovação da teoria da Relatividade Geral pelas expedições organizadas pelo britânico Arthur Eddington em 1919 é parte também do processo de construção de uma espécie de personagem heróico chamado Einstein. Este “mito” se desenvolve alimentado pelo prestígio pessoal de Einstein, pelo seu caráter pacifista e pela pouca resistência que encontrou no próprio Einstein. O ex-funcionário público do serviço de patentes de Berna tornou-se largamente conhecido como estrela internacional após a Primeira Grande Guerra e, por volta de 1920, quando as relações internacionais eram tensas, desempenhou conscientemente o papel de embaixador, visitando países próximos à Alemanha (como França e Inglaterra) e outros mais distantes (como Japão e Estados Unidos).

As novas teorias eram vistas com otimismo pelo senso comum e impressionavam por seu caráter abstrato. Além disso, durante a primeira metade do século, no momento em que a ciência - sobretudo a física - passa do estado artesanal do cientista solitário ao estado industrial do pesquisador que trabalha em equipe, no momento em que a ciência se institucionaliza e se hierarquiza ligada cada vez mais aos poderes político-econômicos e militares, ela se vê simbolizada em um homem que representa as características que está em vias de perder: “Sua figura torna-se

então representativa daquela, doravante ilusória, imagem do sábio desaparecido e sua lenda contribuirá, não pouco, durante a primeira metade do século, para obscurecer a natureza social efetiva da ciência contemporânea.” (LÉVY-LEBLOND, 1981: 165)23.

Lévy-Leblond ainda nos chama a atenção para o outro lado deste mito: após a Segunda Grande Guerra, o pacifista Einstein será lembrado também como o pai da bomba atômica. A famosa equação, E = m.c², ao mesmo tempo em que simboliza a genialidade de Einstein, está implicitamente colada à imagem do cogumelo produzido na atmosfera pela explosão da bomba. A Relatividade manifestada na potência nuclear convence o senso comum, pelo argumento da força destruidora, sobre a veracidade das novas concepções de matéria e de energia, de tempo e de espaço.

A partir do complexo cenário sócio-político da Segunda Guerra, este revés no mito do herói propagou-se pelas décadas seguintes. Um panfleto de 1977 que divulgava um documentário sobre os perigos da manipulação genética é bastante ilustrativo, pois mostra a imagem do rosto de Einstein triplicada e sobre a frase: “If

cloning could produce several Einsteins, would you approve to use?” (in

FRIEDMAN e DONLEY, 1990: 188).

O mito oscila no contraste entre a paternidade da bomba nuclear e o comportamento simplório, pacifista e genial, entre o vilão e o herói, mas é para o lado do segundo que pende a balança.

Muitos tendem a considerar que o fardo de vilão que pesa sobre os ombros de Einstein é uma injustiça da qual ele foi vítima. Para Lévy-Leblond, “nem a genialidade científica, nem a estatura moral de Einstein, são suficientes para explicar o mito no qual ele foi e continua sendo o herói e, sem dúvida, a vítima também.” (LÉVY-LEBLOND, 1981: 162)24. No entanto, é preciso levar em conta que, se por um lado Einstein teve medo de que Hitler construísse a bomba, se por um lado ele lutava contra os horrores dos campos de concentração, por outro sua contribuição para o genocídio cometido em Hiroshima e Nagasaki é inegável: ele escreveu a Roosevelt em 02 de agosto de 1939 alertando o presidente dos Estados Unidos sobre

23 Minha tradução.

as implicações militares da energia atômica e sobre a iminência do domínio desta energia pelos alemães, o que acelerou a construção e o uso da bomba pelos norte- americanos nas cidades japonesas.

A questão é polêmica e não é nossa intenção resolvê-la aqui, mas corremos o risco de sermos simplistas demais ao isentarmos Einstein de toda e qualquer responsabilidade na forma de extermínio em massa criada pelo potencial de destruição da bomba atômica. Segundo Heiner Müller, “por causa de Hitler, o mal existia para Einstein. [...] Se um mal existe, então um bem deve também existir. Simplesmente a bomba atômica não é o bem, mas outro mal.” (MÜLLER, 1991: 193- 94).

As teorias científicas do início do século XX exigem uma transcendência da percepção para serem compreendidas. Esta transcendência para um plano distante dos dados mais imediatos da nossa sensibilidade nos remete ao que Keith Ansell Pearson chama de ciência do complexo: assim, “a aceitação da teoria da relatividade aparece como uma rendição do humano ao trans-humano.” (PEARSON, 1999:31). O comentário de e.e. cummings sobre seu poema, Space being (don’t forget to

remember) curved, é bastante ilustrativo: “physical concepts have, in effect, reduced

man’s humanity.”25

A transcendência é encarnada no próprio Einstein: leigos e cientistas cultivam uma curiosidade especulativa em torno do seu corpo (especialmente do seu cérebro) e de seu caráter, na busca de diferenças que confirmassem seu diferencial sobre- humano. “Médicos americanos colocam-no numa cama cobrindo sua cabeça com detectores e ordenam: pense na Relatividade, como ordenamos diga a, como se a Relatividade fosse objeto de um sexto sentido, de uma visão beatificada [...]” (MERLEAU-PONTY, 1960: 245).26

25Minha tradução: “os conceitos físicos, com efeito, reduziram a humanidade do homem.” 26 Minha tradução.

A difícil compreensão da Relatividade foi fundamental na construção do mito. O semanário The Illustrated Weekly of India, de março de 1978, traz em destaque a frase com que Bertrand Russell inicia seu livro, The A B C of Relativity: “Todos

sabem que Einstein fez algo espantoso, mas poucas pessoas sabem exatamente o que ele fez. Após setenta e cinco anos desde a publicação da teoria da relatividade restrita

de Einstein, a observação de Russell continua válida.” (in FRIEDMAN e DONLEY, 1990: 185)27. O prestígio de Einstein perante o senso comum foi suficiente para dar credibilidade à sua obra, fruto de uma inteligência extraordinária. As pessoas acreditam na veracidade de suas teorias sem sentirem-se, para tanto, obrigadas a compreendê-las.

A mídia alimentava o mito fazendo sensacionalismo e consultando o gênio sobre questões estranhas ao seu domínio. Na imprensa da outra extremidade do mundo, as apreciações soviéticas sobre a obra de Einstein realçam também o ocultismo: “Condenar como ‘idealista’ ou ‘burguesa’ uma física na qual não se encontra nenhuma incoerência, nenhum desacordo com os fatos é supor um gênio maligno errante nas infra-estruturas do capitalismo e que ‘sopra’ para Einstein pensamentos suspeitos” (MERLEAU-PONTY, 1960: 245)28.

A divulgação da figura legendária de Einstein transborda nos jornais e revistas (científicas e populares) e logo atingiu a publicidade. Em 1977, para convencer o público da simplicidade das faturas de eletricidade da Allied Chemical Corporation, um panfleto mostra uma caricatura de Einstein segurando uma dessa faturas bem próxima dos seus olhos; a legenda diz: “Você não precisa ser um físico nuclear para entender uma conta de energia elétrica”29.

Os publicitários apropriam-se da credibilidade de Einstein associando sua imagem aos produtos que pretendem promover. Uma propaganda de 1975 da Data

General mostra a foto de um doublé de Einstein voltado de costas e escrevendo num

quadro negro repleto de fórmulas; a foto é acompanhada da seguinte legenda: Com

27 Idem.

28 Idem. 29 Idem.

Array Processing Minis, Albert teria descoberto a Relatividade e ainda teria tempo de explicá-la. 30

Hoje, ainda há campanhas publicitárias com o mesmo apelo das anteriormente citadas e não é difícil constatar o prestígio de que Einstein goza junto à opinião pública que desconhece o conteúdo de sua obra, mas avaliza suas idéias. Einstein é lembrado sempre que buscamos um exemplo de pessoa muito inteligente, sempre que precisamos nos referir a um expoente da humanidade, a um gênio, ou à imagem de um cientista. Estes agenciamentos atuais se efetuam na máquina-abstrata-Einstein31 em diferentes graus de tensão do mito.