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EIXO 2: EMOÇÕES NO CONTEXTO DA PSICOTERAPIA E DA PSIQUIATRIA

2 EMOÇÕES: UM RECORTE DA TEORIA E DAS PESQUISAS

2.2 EIXO 2: EMOÇÕES NO CONTEXTO DA PSICOTERAPIA E DA PSIQUIATRIA

Neste segundo eixo, serão abordadas contribuições teóricas de alguns autores clássicos e contemporâneos que lidaram e lidam com as emoções de seus pacientes, nos

contextos da Psicoterapia e da Psiquiatria, visando apresentar referências teórico-conceituais acerca da temática em questão.

Freud (1977) ao introduzir o método de tratamento catártico em 1893, com as histéricas, caracterizado pela ab-reação, que consiste na liberação da descarga emocional ligada à recordação de acontecimentos traumáticos, pode perceber que a lembrança de experiências traumáticas só tinha efeito curativo com a catarse das emoções.

O referido autor identificou, na prática da Psicanálise, vários quadros clínicos que compreendem algumas emoções. Foi assim que concebeu a neurose de angústia (FREUD, 1977), quando observou em seus pacientes os seguintes sintomas: irritabilidade geral, expectativa ansiosa, ataques súbitos de angústia, insônia, vertigens, distúrbios do trato digestivo e ataques de parestesia.

Ao longo da obra de Freud, pode-se observar um lugar de destaque para o estudo das emoções. Em Totem e tabu, o autor estuda em 1913, remorso, medo, culpa e vergonha, além da ambivalência das emoções humanas. Em 1925 angústia, inibições e ansiedade também são debatidas por Freud (1976).

Jung (2011, p. 423), outro autor clássico, oriundo da Psicologia analítica ou profunda, escreve em seu livro Tipos psicológicos, no capítulo em que trata das Definições, uma importante compreensão e distinção acerca das emoções, sensações e sentimentos. Define a emoção como sinônima de afeto. Entende que se trata de “[...] um estado de sentimento, caracterizado, de um lado, por inervações perceptíveis do corpo e, de outro, por uma perturbação peculiar do curso das ideias”.

Ele distingue sentimento de emoção, ainda que a transição de um para o outro tenha, segundo Jung, contornos vagos porque todo sentimento, a seu ver, ao atingir certo grau de força, liberta inervações corporais e se torna afeto, que é igual à emoção.

Na perspectiva junguiana, o sentimento é, em primeiro lugar, um processo que se realiza entre o eu e um dado conteúdo, um processo que atribui ao conteúdo um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição (“prazer” ou “desprazer”), mas também um processo que, abstraindo do conteúdo momentâneo da consciência ou de sensações momentâneas, pode aparecer como que isolado, como “disposição de ânimo” (humor).

Por isso, o sentimento é, primeiramente, um processo de todo subjetivo que pode independer, sob todos os aspectos, do estímulo exterior, ainda que se aproxime a cada emoção. O sentimento é, portanto, também uma espécie de julgamento, mas que se distingue do julgamento intelectual, por não visar ao estabelecimento de relações conceituais, mas a uma aceitação ou rejeição subjetivas.

Aumentando a intensidade, surge um afeto, isto é, um estado sentimental com inervações corporais sensíveis. O sentimento se distingue do afeto por não provocar inervações corporais sensíveis (JUNG, 2011, p. 483).

A seguir, será apresentada a Orgonoterapia em forma de síntese, desenvolvida pelo psiquiatra Reich (1998), outro importante teórico da área da Psicoterapia que se debruçou sobre o estudo da expressão corporal, das tensões musculares no corpo e dos sistemas de defesa construídos por pacientes neuróticos para se defenderem do mundo externo e do impacto de suas emoções.

Com a descoberta da energia denominada orgone, Reich entendeu que ela funciona no organismo vivo como energia biológica específica e se expressa tanto nas emoções, quanto nos movimentos puramente biofísicos dos órgãos. A Orgonoterapia, ao contrário de todas as outras formas de terapia, tenta influenciar o organismo não por meio de linguagem humana e, sim, levando o paciente a se expressar através das suas emoções.

Definida literalmente, a palavra “emoção” significa “movimento para fora”, ou “expulsão”. Assim, não somente podemos como devemos usá-la no sentido literal para nos referirmos a sensações e movimentos (REICH, 1998, p. 330).

Reich (1998) retoma a teoria de Darwin (2009) que deduz a descendência do homem a partir dos vertebrados inferiores, com base na morfologia humana, a biofísica orgônica, a qual traça a origem das funções emocionais do homem a partir de um estágio muito mais primitivo, ou seja, as formas de movimento dos moluscos e dos protozoários.

As sensações orgânicas biologicamente importantes e as emoções de prazer, angústia e raiva derivam das funções segmentares do animal humano. Do mesmo modo, a expansão e a contração, como funções do prazer e da angústia, estavam presentes no organismo vivo desde a ameba até o homem (REICH, 1998, p. 363).

Lowen (1982) expandiu e desenvolveu o trabalho iniciado por Reich, de forma original, e fundou a Bioenergética, abordagem terapêutica que lida com fortes reações emocionais, apontando a capacidade que tem a emoção de mobilizar ou paralisar o corpo. Observou que, nos transtornos neuróticos, os bloqueios impedem o livre fluxo de sensações através do corpo, sendo o objetivo terapêutico superá-los e recuperar a fluência.

Segundo o autor referido a vida emocional de um indivíduo depende da motilidade do seu corpo que, por sua vez, é uma função do fluxo de excitação através dele. Os distúrbios nesse fluxo ocorrem sob forma de bloqueios, que se manifestam em áreas onde a motilidade do corpo é reduzida.

O que um indivíduo sente também pode ser definido pela expressão de seu corpo. As emoções são eventos corporais; literalmente, são movimentos ou impulsos dentro do corpo que geralmente resultam em alguma ação externa (LOWEN, 1982, p. 48).

A raiva, por exemplo, produz tensão e provoca uma carga na metade superior do corpo, onde estão localizados os principais veículos de ataque, ou seja, dentes e braços. Uma pessoa que está sentindo raiva tem seu rosto corado, punhos cerrados e pequenos ruídos emitidos pela boca. Segundo Lowen, em certos animais, o eriçamento de pelos ao longo de suas costas e pescoço é outro tipo de manifestação emocional. A afeição ou o amor suavizam todas as feições, tornando a pele e os olhos cálidos. A tristeza dá ao indivíduo uma aparência enternecedora, sugerindo sempre que a qualquer momento o choro será produzido.

A tristeza constitui uma espécie de constrangimento e, como tal, atesta que houve um mau encontro, uma decomposição de relações, uma espécie de envenenamento. A tristeza revela que houve uma diminuição ou um enfraquecimento da potência de agir do corpo e da alma, ou seja, um padecimento que produz na alma um conhecimento confuso e no corpo uma desagregação das relações corpóreas (LESSA, 2014).

Tristeza, raiva, medo e alegria podem ser chamados de emoções perceptuais, uma vez que elas são diretamente percebidas pelo ego e sem a coloração de valores ou julgamentos. No caso do medo, trata-se de uma emoção paralisante. Isto é especialmente verdadeiro quando o medo é muito grande, como no terror. Quando está aterrorizado, um organismo congela e não consegue se mover (LOWEN, 1979, 1982).

O autor diz que assim como o dia não existe sem a noite, nem a vida sem a morte, a tristeza não pode existir sem a alegria, apontando, dessa forma, a polaridade e a necessidade de integração entre as emoções, desafio este a ser enfrentado pelo ser humano.

A alegria pertence ao reino das sensações corporais positivas; não é uma atitude mental. Não se pode decidir ser alegre. As sensações corporais positivas começam partindo de uma linha de origem que pode ser descrita como “boa”. O seu oposto é sentir-se “mal”, o que significa que, em vez de uma excitação positiva, há uma excitação negativa de medo, desespero ou culpa. Se o medo ou desespero for muito grande, a pessoa reprimirá todo sentimento, caso em que o corpo se torna insensível ou sem vida (LOWEN, 1997, p. 20).

Ainda com relação à alegria, Lessa (2014) nos diz que essa emoção trata de um afeto que aumenta a potência de agir do corpo, revelando que foi feita uma composição com outro corpo, trazendo-se repercussões de ampliação e expansão, além de favorecer o entendimento do pensamento com maior clareza.

Compor com o outro corpo significa associar-se, cooperar com ele, unir forças. Quando fazemos uma composição com o outro, nossa potência é aumentada, experimentamos o afeto da alegria e o conhecimento fica favorecido (LESSA, 2014, p. 6).

Além do trabalho terapêutico desenvolvido com seus pacientes, Lowen enfatiza a necessidade de uma educação da qual se espera que seja efetiva para preparar o ser humano para a vida e que deve levar em consideração o desenvolvimento emocional, tanto quanto o mental.

Na sequência, serão dissertadas algumas ideias acerca do pensamento de Boadella (1992) que, seguindo os caminhos de Reich, criou a Biossíntese, traduzida por integração da vida. O autor coloca como ponto de partida a necessidade de o paciente se comunicar através das referências não verbais, ou seja, ressalta a importância da expressão das emoções nos segmentos corporais.

A emoção é definida, quase literalmente, como um “movimento para fora”. Nesse sentido, é uma expressão fundamental a todas as formas de vida. Mesmo animais unicelulares mostram uma simples função de expansão e contração do protoplasma em resposta a estímulos (BOADELLA, 1992, p. 16).

Ao trabalhar com seus pacientes em Psicoterapia, verificou que os estados de tensão e a hiperatividade do sistema nervoso simpático que os mantêm se tornaram crônicos. Observa, ainda, que os processos normais – internos e autorreguladores – pararam de funcionar, de modo que a ajuda ou os estímulos externos se fazem necessários. Passou, então, a buscar dissolver os bloqueios que impedem o livre fluxo dos movimentos visando a uma melhor relação dos pacientes consigo próprio, com os outros e com o ambiente de uma maneira mais saudável.

Assim como Reich (1998), Boadella (1992) entende que a recuperação de lembranças traumáticas não é essencial para o progresso do paciente em psicoterapia e, sim, o que é essencial é liberar a emoção presa nas tensões que bloqueiam a livre expressão.

Em continuação, Federico Navarro (1996), médico de formação, apresenta uma metodologia denominada Vegetoterapia Caractero-analítica que consiste em considerar o funcionamento do ser vivo para chegar ao caráter maduro, o caráter genital. É, portanto, uma vivência de práxis emocional, que permite ao indivíduo mudar a relação e a valoração do mundo por meio de uma visão e de um sentir naturais e, com isso, chegar a um “ser com” em vez de um “ser para”.

Navarro (1996) nos fala que a característica de todo ser vivo (planta ou animal) é a sensibilidade. Dessa forma, ela é responsável pelo sentimento, que, por sua vez se manifesta como afeto ou como emoção. O sentimento, de acordo com o autor, é um “sentir” bem distinto da cognição e da volição; é um estado afetivo indeterminado, que provoca um estado de necessidade: é a tradução subjetiva da quantidade de energia pulsional, que pode sofrer conversão, deslocamento, transformação, pois determina um estado de necessidade.

Mais adiante, no eixo de número três, será feita uma distinção entre os termos emoção e sentimento, segundo a concepção do neurocientista Damásio (2011), que ajudará na compreensão do pensamento acerca da diferenciação entre os termos.

Navarro (1996), também, retoma a teoria de Darwin (2009), enfatizando que no desenvolvimento e expressão emotiva é fundamental o princípio de oposição e de antítese. Uma emoção, obviamente, não pode ser neutra, diz ele; será então agradável ou desagradável, positiva ou negativa. Segundo o autor, as emoções primárias, positivas ou negativas, são o prazer ou o medo, que são expressos fisiologicamente nas funções neurovegetativas do sistema parassimpático e do simpático.

Atualmente, no campo da Psiquiatria, trabalha-se com a observação dos fenômenos e dos sintomas para estabelecer diagnósticos e, dentro dessa perspectiva, tem-se a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID – 10, 2000). Em seu capítulo V, destinado aos Transtornos mentais e comportamentais (F00-F99), e, em se tratando da temática referente às emoções, verifica-se a existência de um tópico dedicado aos Transtornos do Comportamento e Transtornos Emocionais que Aparecem Habitualmente durante a Infância ou na Adolescência (F90 – F98).

Em continuação, serão enfocados, em consonância com o objeto de estudo da presente pesquisa, os itens que se referem direta ou indiretamente às emoções universais ligadas a raiva, medo e tristeza, uma vez que, segundo a Classificação do CID-10, citada anteriormente, e, de acordo com a frequência, podem ser consideradas patológicas. Vale salientar, aqui, que a alegria não fará parte dessa análise, tendo em vista não ser classificada como um transtorno de comportamento e/ou emocional.

– Transtornos mistos de conduta e das emoções (F92): grupo de transtornos caracterizados pela presença de um comportamento agressivo, dissocial ou provocador, associado a sinais patentes e marcantes de depressão, ansiedade ou outros transtornos emocionais.

– Distúrbio depressivo de conduta (F92.0): transtorno caracterizado pela presença de um transtorno de conduta, associado a um humor depressivo marcante e persistente, traduzindo-se por sintomas tais como tristeza profunda, perda de interesse e de prazer para as atividades usuais, sentimento de culpa e perda de esperança. O transtorno pode se acompanhar de uma perturbação do sono ou do apetite.

– Outros transtornos mistos da conduta e das emoções (F92.8): grupo de transtornos caracterizados pela presença de um transtorno de conduta associado a perturbações emocionais persistentes e marcantes, por exemplo ansiedade, medo, obsessões ou compulsões, despersonalização ou desrealização, fobias ou hipocondria.

– Transtornos emocionais com início especificamente na infância (F93): grupo de transtornos que constituem uma exacerbação de manifestações normais de desenvolvimento, mais do que um fenômeno qualitativamente anormal por si próprio. É essencialmente sobre essa característica que repousa a diferenciação entre os transtornos emocionais que aparecem especificamente na infância e os transtornos neuróticos observados nos adultos.

- Outros transtornos comportamentais e emocionais com início habitualmente durante a infância ou na adolescência (F98): grupo heterogêneo de transtornos, ocorrendo durante a infância, mas que difere, por outro lado, em numerosos pontos. Algumas dessas afecções constituem síndromes bem definidas, enquanto as outras são simples associações de sintomas; estas últimas devem, contudo, ser incluídas, por um lado, em função de sua frequência e de sua associação com uma alteração do funcionamento psicossocial e, por outro, porque não podem ser incluídas em outras síndromes.

Observa-se, então, que na área da Psiquiatria, como mostrado anteriormente, as emoções são apresentadas e associadas a transtornos comportamentais, dentro de uma abordagem considerada patológica, em nível de manifestação de sintomas. Tal visão é confrontada por Accioly e Athayde (1996, p. 22), que apontam a confusão do conceito de emoção com instinto, tendências, gênio, carácter, impulsos, sentimentos, personalidade e doenças. Para esses autores as emoções são tratadas como particularidade geral dos seres vivos, cuja existência depende inflexivelmente delas, tanto no que diz respeito à qualidade, quanto à duração.