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2.2 AVANÇOS NO CONCEITO DE SECURITIZAÇÃO

2.2.3 Eixo Estrutural

Os autores repensam também a questão estrutural da teoria de securitização. Conforme visto anteriormente, ontologicamente a Escola de Copenhague é baseada no Estado e isso permanece nas publicações contemporâneas, porém, Waever se dedica a clarear melhor esse aspecto. Anteriormente os autores de Copenhague afirmavam que um tema se transformava em um problema de segurança ao ser encarado como uma ameaça à existência do Estado.

Em 2007, Waever afirma que esse desenvolvimento de um tema até tornar-se um problema de segurança ocorre quando a soberania e a independência do Estado são ameaçadas.

Essa ameaça exige a mobilização do máximo esforço. A determinação dessa necessidade de desenvolvimento de um tema para um problema de segurança é uma reivindicação do Estado que, em última instância, será sempre definida por este e por suas Elites.

É importante notar que nessa obra o autor chama atenção para as elites e o papel que elas têm no processo de securitização, pois segundo o autor:

Trying to press the kind of unwanted fundamental political change on a ruling elite is similar to playing a game in which one's opponent can change the rules at any time he likes. Power holders can always try to use the instrument of securitization of an issue to gain control over it53 (WÆVER, 2007, p.73).

Segundo o autor, as elites frequentemente apresentam seus interesses em segurança nacional, geralmente acompanhado por uma negação do direito das elites de fazê-lo. Suas ações são, então, rotuladas de outra forma, por exemplo, interesses de classe, o que parece implicar que a segurança autêntica é, de alguma forma, definida independente das elites, por referência direta ao povo ou à representação de classe.

Para Waever, a segurança é articulada apenas a partir de um lugar específico, de uma voz institucional: pelas elites. Tudo isso pode ser analisado, se simplesmente abandonarmos o pressuposto de que a segurança é, necessariamente, um fenômeno positivo.

53 “Tentar pressionar o tipo de mudança política indesejada em uma elite dominante é semelhante a um jogo em que o oponente pode mudar as regras a qualquer momento que quiser. Os detentores de poder sempre podem tentar usar o instrumento de securitização de um problema para obter controle sobre ele.” (Tradução livre)

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Dentro de aspectos estruturais, em 2011, Waever publica um importante texto para os avanços teóricos da securitização (WÆVER, 2011). Ao escrever no periódico Security Dialogue, o autor admite que muitas questões foram levantadas após o lançamento do livro Security: A New Framework for Analysis (BUZAN, BARRY; WAEVER, OLE; WILDE, 1998), entre eles a dúvida do conceito de política para os autores. Nesta publicação deixa claro que o conceito de política utilizado por ele é o conceito Arendtiano: “but in the present context it is probably more important to point out that the concept of politics is especially at this point Arendtian”54. (WÆVER, 2011, p.468)

Segundo o autor, entender política desta forma é perceber a política como produtiva, irredutível e acontecendo entre pessoas em uma cadeia imprevisível de ações. A política nunca toma forma de alguém capturando poder e produzindo um resultado planejado, é sempre uma ação que depende das ações dos outros antes de gerar algum resultado. Portanto, não é passível de ser prevista, conhecida de antemão: “The theory of securitization is a strictly focused theory with one key idea at its centre: securitization. Its theoretical content comes not from accumulating correlations, but from a tight conceptual core around the key concept”55 (WÆVER, 2011, p. 468).

O conceito de política de Hannah Arendt, segundo Waever, é suficiente para entender a teoria de securitização, porém, o autor admite que inúmeras foram as críticas sobre esse ponto em específico. Mesmo sem concordar inteiramente com essa afirmação, Waever admite a possibilidade do conceito de política empregado na teoria de securitização ser uma junção de Hannah Arendt e Carl Schmitt:

Thus, although it is wrong to claim, as numerous critics have done, that securitization theory involves a ‘Schmittian’ concept of politics – the theory has a Schmittian concept of security and an Arendtian concept of politics, if one wishes to use such types of slogans – it can have Schmittian effects nevertheless.”56 (WÆVER, 2011, p.

470).

A adoção do conceito de política vinculado a Hannah Arendt não se limita ao artigo de 2011. Em 2015, Waever retorna a esse tema no artigo The theory act: Responsibility and

54 “mas no contexto atual, é provavelmente mais importante salientar que o conceito de política é Arendtiano, especialmente neste ponto.” (Tradução livre)

55 “A teoria da securitização é uma teoria estritamente focada com uma idéia-chave em seu centro: securitização. Seu conteúdo teórico não vem da acumulação de correlações, mas de um núcleo conceitual rígido em torno do conceito-chave.” (tradução livre)

56 “Assim, embora seja errado afirmar, como muitos críticos fizeram, a teoria da securitização envolve um conceito 'schmittiano' de política - a teoria tem um conceito schmittiano de segurança e um conceito arendtiano de política - se alguém quiser usar esse tipo de slogans, eu posso ter efeitos schmittianos, em última instância.” (Tradução livre)

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exactitude as seen from securitization, publicado na revista International Relations. O artigo de 2015 tem por objetivo esclarecer dois pontos da teoria de securitização. Primeiro, que tipo de teoria pode fazer justiça à natureza política do objeto analítico e do papel social dos estudos de segurança; segundo, qual é o papel da teoria na pesquisa. Para o autor, isso corresponde às duas distinções pelas quais a palavra teoria é usualmente construída: teoria em relação à prática / ação e teoria em relação à pesquisa empírica (WAEVER, 2015, p.121).

Para o primeiro ponto, a natureza política do objeto analítico, o autor recorre ao conceito de política de Arendt. A política exige a aposta da ação com efeitos, às vezes, imprevisíveis e se a ação foi boa ou não, isso será estabelecido apenas mais tarde por quem contar a história.

A teoria deve ser vista como uma ação similar. Não é suficiente elaborar meta-posições seguras e progressivas, da mesma forma que não é suficiente que cada pesquisador apenas realize o ato de adicionar essa teoria a um estudo: “Given that a theorist cannot know every specific case in advance, the main responsibility of the theorist is to design the theory structurally so that a truly political understanding becomes unavoidable”57 (WAEVER, 2015, p.122).

Segundo Waever, não é evidente como uma agenda de pesquisa empírica sobre securitização poderia ser construída com a premissa de que a teoria tem um desenho estrutural e, por esse motivo, a teoria de securitização necessita do ato de fala. A teoria da securitização foi construída desde o início na teoria dos atos de fala, porque é um método operacional que pode ser projetado para proteger a política no sentido de Arendt. A concepção política da teoria da securitização é inspirada em Arendt e implementada por meio da teoria do ato da fala (Idem, p.122).

É importante notar que a Teoria de Securitização foi além do proposto pelo construtivismo. A securitização propõe não só a análise de discurso como também do ato de fala. Com isso, eventos políticos podem ser estudados empiricamente como fenômenos sociais.

Os eventos políticos são investigados como uma coprodução entre atores: não são produzidos individualmente e nem socialmente determinados. Mas o ato de fala não é incorporado em sua totalidade na teoria. O foco é analisar a securitização como um ato ilocucionário e não perlocucionário. Segundo o autor: “My ‘illocution focused’ version of securitization theory claims it can integrate causal explanations, social mechanisms, hypothesis testing and political

57 “Dado que um teórico não pode conhecer todos os casos específicos de antemão, a principal responsabilidade do teórico é projetar a teoria estruturalmente de modo que uma compreensão verdadeiramente política se torne inevitável.” (Tradução livre)

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theory, by systematically organizing the different parts around securitization as specific kind of political event”58 (WAEVER, 2015, p.123).

O objetivo é organizar a teoria em torno do evento constitutivo e transformador de atores, reconfigurando a relação de direitos e deveres em vez de ver uma relação de causa e efeito entre fala e resultados.

So, what kind of theory is securitization? It is a theory of something political – security – that is structured around a core concept designed to preserve a truly open, political, constitutive space of human inter-/co-action (specifically handled through a specific version of speech act theory of collective illocutionary acts) with other forms of research ordered into designated roles around this center: causal and philosophical analysis as well as discourse and conceptual analysis 59(WAEVER, 2015, p. 124).

Ainda nesse artigo, Waever posiciona sua teoria frente a outra crítica estrutural.

Segundo o dinamarquês, a teoria de securitização foi criticada por acoplar elementos de variadas correntes teóricas das Relações Internacionais60. Para ele essa crítica é refutável, pois não é necessário isolar correntes teóricas. Por fim, o autor conclui que a teoria é um modelo que não explica por si só, mas forma um sistema coerente em que é possível comparar instâncias e formular hipóteses específicas (WAEVER, 2015, p.125).