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EIxO I DO DIgITAl COMO PROBLEMA POLÍTICO.

No documento [Download Integral] (páginas 37-40)

EIxOS DO REAL: TECNOLOgIAS | INTEgRAçãO| PARTICIPAçãO | DEMOCRACIA

1.1. EIxO I DO DIgITAl COMO PROBLEMA POLÍTICO.

Em tudo o que é do digital há sempre um manto que paira, um não‑dito, um implícito que remete para uma mitologia da promessa, para os mitos antigos da Idade do Ouro, mitos que prometiam o futuro radioso para lá do cataclismo escatológico. Mitos que surgem transmutados, no nosso tem‑ po, das modernas mitologias do Progresso. No digital está sempre contida uma promessa de futuro, um futuro em que tudo se resolve e simplifica, em que tudo o que é da experiência de um quotidiano

digitalizado, contém em si a potência da velocidade e da própria aceleração da época, a potência do

instantâneo e do direto, do aqui e agora, a potência do ubíquo, do que se encontra em todo o lugar e em nenhum, ao mesmo tempo. A potência e a simultaneidade de uma presença‑ausente e de uma ausência‑presente.

O digital, esse poderoso e fascinante signo técnico do nosso tempo, fala‑nos, então, de um futu‑ ro simples e intensamente luminoso, um futuro de usos e consumos imediatos, dados, que não colocam à quotidianidade a necessidade da questão. O digital é resposta alfanumérica, apenas se questiona a partir da sua aparente ausência de limites: nunca se sabe até onde poderá ir, até onde pode fazer‑nos viajar - na verdade, digitalizados, tal como nos diz Virilio, somos apenas destino, e, dizemos nós, como destino, podemos ser o destino que quisermos.

Não nos devemos surpreender, por isso, que, tantas vezes, tenhamos como pontos de partida analíticos conceitos como fragmentação, para descrever a forma como, num mundo da vida digi‑

tal, as narrativas explodem em míriades de si e se oferecem à reconstrução que cada um de nós,

individual(izada)mente, delas, há-de fazer. O trabalho do consumidor contemporâneo é esse: dis‑ pondo de uma suposta liberdade de escolha, a partir da miríade fragmentária, vai pegar nas peças e compor a sua própria narrativa.

Quando, em 2005, para descrever um conjunto de dúvidas que já tinha sobre essa individualização exacerbada da (re)construção do sentido do mundo, a especialista norte‑americana em Bioética, Christine Rosen, nos propunha, por contraposição à lógica da comunicação de massas, a lógica do “egocasting”, estava de facto a identificar um problema político: na verdade, numa experiência téc‑ nica de imersão consumista que possa ter como efeito o isolamento político do indivíduo (lançado, pela consumação do desejo, no risco de passar a interessar‑se, apenas, pelas mensagens e conte‑ údos com os quais se identifica, e, no limite, com os quais está de acordo, isto é, conteúdos e men‑ sagens que apenas servirão para se confirmar no mundo aquilo que quer que o mundo seja para si), ou seja, um trabalho de composição profundamente individualizada das narrativas do mundo, pode significar a possibilidade de, a partir dessa (re)composição, se perder o comum como horizonte. Assim, para a autora, o estabelecimento de um regime de “egocasting”, com a concomitante morte do “broadcasting”, poderiam constituir‑se em perigos reais para a democracia.

Trata‑se de uma visão céptica, eventualmente radical, da qual, naturalmente, nem todos partilham. Há, igualmente, quem descreva os tempos em que vivemos como a época em que triunfa a cultura

da convergência, no seio da qual subsistem, em simultâneo, horizontes individuais e políticos para

a (re)construção das narrativas do mundo. Um dos mais citados tecnólogos do nosso tempo, Henry Jenkins, teoriza a convergência como a cultura do “transmedia storytelling”, das narrativas transme‑

diáticas. A cultura da convergência será, precisamente, o caldo contemporâneo, permitido e formu‑

lado pelo acesso, disseminação e assimilação cultural das possibilidades da informática computa‑ cional e comunicacional. Neste caldo cultural, as narrativas do mundo já não são dadas como estado finalizado, antes emergem dos processos individualizados de reconstrução de sentido, a partir dos fragmentos colocados em circulação no visível. Daí que uma das promessas da cultura da conver‑

gência radique na possibilidade de cada um se poder tornar produtor e realizador. Mas, também,

cada um, consumidor. Passamos a encontrar‑nos preferencialmente em relações de “um para um” que, na formulação de Jenkins e de uma linhagem de otimistas digitais (a expressão é nossa, mas não apenas), são relações que contêm em si o potencial de renovação das condições para a elabo‑ ração de um sujeito político contemporâneo.

Independentemente da situação do observador, dos pontos de vista ou de partida, das controvér‑ sias, debates e antagonismos argumentativos, torna‑se evidente que a contemporânea produção discursiva em torno do digital recomenda vigilância crítica.

Já indiciamos nesta reflexão o facto de o digital se apresentar invariavelmente como promessa de futuro. É, contudo, nessa formulação híbrida, que mistura finais ficcionais com os desejos do real, que o digital também emerge como profundamente técnico, reduzido a um absolutismo do numé‑ rico e, aí, profundamente moderno, mas, simultaneamente, quase impenetrável de tão cifrado, co‑ dificado. E o que é a cifra? O absolutismo do numérico? O código? Um exame sumário às condições contemporâneas da produção discursiva dir‑nos‑á que, nas sociedades dominadas pelo discurso do número, no número reside sempre a resposta que dispensa a questão. Daí que, operando as tecnologias da informação e da comunicação, a magia mítica do desaparecimento técnico da ques‑ tão, tudo se torna simples, tudo nos aparece como definitivo, como inquestionável. Num quotidiano digital, tudo devém resposta. E toda a questão é técnica.

Quando pensamos, por exemplo, na força discursiva que a estatística tem nas nossas sociedades, percebemos melhor esta força incomensurável da redução técnica de tudo ao número. A estatística é também uma técnica de transformação do social num conjunto inquestionável de respostas. Tudo nos é dado, nada nos é perguntado, para além, claro, dos números que somos e dos números em que nos transformamos. Nada nos é perguntado a partir da operação que nos digitaliza. No digital reside, assim, a promessa constantemente repetida de um futuro no qual toda a simplificação é sempre o resultado apresentado em estado final. Sucede, contudo, que essa simplicidade aparen‑ temente incontestável e incontestada é também o resultado de uma complexidade, de um conjunto vasto de operações de codificação, de cifra. Só que, no inquestionável estado final em que o digital se apresenta, a complexidade já não precisa de ser compreendida, já não parece exigir o trabalho crítico. Discursivamente, dispensa‑o mesmo.

A complexidade da técnica torna‑se, então, um campo específico, altamente codificado, impenetrá‑ vel ao comum. Num quotidiano mobilizado e acelerado, a complexidade da técnica, o conhecimento, que em condições absolutas será todo o conhecimento, passa a ser um campo reservado aos gurus tecnológicos, aos estatísticos, aos financeiros, aos engenheiros, a todas as espécies de sacerdotes contemporâneos e especialistas do fascínio técnico e da impenetrabilidade críptica da encriptação, que constantemente surgem nos ecrãs para nos conceder o acesso ritual, obviamente já reduzido à simplicidade imediata do produto acabado (sempre, a resposta), às renovadas maravilhas das tec‑ nologias sempre novas, sempre brilhantes, às bio-tecnociências ou aos números finalizados que

nos sintetizam como anónimos numa massa (a)social e (a)política no seio da qual interessamos apenas como número.

Desde a alvorada moderna, com os seus preparativos renascentistas, que aprendemos a conhecer o poder da luz óptica sobre os corpos terrestres. Os modernos começaram por negar a luz como exclusivo do divino, trouxeram‑na para o seu meio, para onde as coisas se veem, de facto. Ver é crer.

Ver é conhecer.

A ciência, e o primado da observação e da sua consequente verificação, constituem a prova desse poder massivo da luz óptica na modernidade. Foi a luz que iluminou os corpos (terrestres e celes‑ tes) e, neles, começou a revelar a sua mathesis universal, o seu rigor, numa relação das formas com as fórmulas, afinal, o conteúdo matemático da vida que se constituirá como nova relação mí(s)tica. Recuperaram-se os espetáculos antigos, renasceu o teatro, e a luz, sempre, em todo o lado, ilu‑ minando cada vez mais a Cidade. A alvorada moderna fez passado das trevas medievas e lançou o mundo na promessa radiosa de um dia interminável.

Parece óbvio que, com a revelação óptica da luz, só podia seguir-se mesmo o movimento. Prometi‑ do, primeiro, como liberdade, como revolução, como cidadania e, finalmente, democracia realizada, universal, plena. O livre movimento dos corpos, permitido nesse intenso iluminismo dos tempos: a razão universal do indivisível indivíduo emancipado. Concretizado, contudo, como confinamen‑ to dissimulado pela intensificação infinita do movimento, isto é, como inapercebido controlo, razão

técnica imediata que se apresenta ao movimento acelerado dos corpos finalmente modernos que

tudo veem mas já nada compreendem. Razão técnica que há‑de ser sempre uma, uma nova e ines‑ perada, na miríade das razões técnicas. Razão técnica que se autorreferencia, dispensando a ques‑ tão onde esta desencadeia a denúncia da inacessibilidade e da encriptação.

A luz forte que ilumina o movimento e a mobilização dos corpos tornou o visível contemporâ‑ neo insuportável, ofuscante. Paul Virilio tem‑no descrito como um campo de batalha e tem razão. A questão é que é do mais perigoso e traiçoeiro dos campos de batalha que se trata. O campo de

batalha do visível faz da visibilidade a mais valiosa das suas mercadorias. Quem não aparece, es‑

quece. Contudo, o “aparecer”, hoje, só se torna possível para corpos em movimento intenso e é aí que reside a sua armadilha. A sobrevivência, na guerra contemporânea está, mais do que nun‑ ca, relacionada não com o movimento em si, mas com a dissimulação. O “aparecer”, para o com‑ batente, pode ser fatal se for um “aparecer congelado”, se se contiver numa imobilização. Por isso, esconde‑se no avião furtivo, desaparece do radar comum usando o artifício e o artefacto técnico. O que “aparece” são apenas os seus efeitos. Quando ataca, já não está lá. A sobrevivência está, as‑ sim, relacionada com a capacidade rara de aparecer sem ser visto, sem ser detectado, a capacidade que cada combatente tiver de atacar sem nunca se deixar imobilizar30. Parar é morrer. Assim, o “apa‑

recer” é, hoje, um ato bélico, de um contra os outros. Ganha a guerra quem detiver a exclusiva chave da encriptação, quem possuir o restrito código de acesso, quem se souber esquivar para lá da cortina

técnica. E o visível, já não será mais que um perigoso campo de batalha: intensamente iluminado,

ofuscante e potencialmente paralisante. No campo de batalha, já ninguém é livre, e todo o movimen‑ to dos corpos é perseguido, controlado, rastreado e, potencialmente, tecnicamente anulado.

30 Leia‑se, a este propósito, a entrevista do consultor de comunicação Fernando Moreira de Sá à revista Visão (edição de 14/11/2013),

no qual, a partir da sua tese de mestrado e da sua experiência pessoal, descreve todas as operações de intensa dissimulação de que se têm revestido os processos de promoção e de combate pela visibilidade mediática (através da construção precisa de uma imagem), de políticos e organizações.

Percebe‑se, pois, a importância de aprendermos a perscrutar o escuro da nossa contemporaneidade, tal como Giorgio Agamben tem escrito nas suas obras mais recentes. Afinal, é nesse imenso espaço, onde o visível óptico não consegue chegar, que as estratégias de ataque realmente se desenham. Não surpreenderá, pois, que a contemporânea dissimulação das tecnologias se funde na sua im‑ penetrável codificação técnica e que esta efetiva barreira informacional se venha elaborando dis‑ cursivamente como um eufemístico manto luminoso, que, através do que promete de novo, pa‑ rece tudo dar a ver, imediatamente, de um modo acessível a todos. Desde logo, porque se oculta nesse brilho ofuscante o simples facto de as tecnologias terem igualmente mergulhado no quo‑ tidiano visando, aí, transformar‑se em objetos de desejo, objetos de renovadas necessidades, logo, objetos de consumo.

O digital emerge, então, como concretização do sonho da modernidade, mas sendo elaborado no seio de esquemas de mitificação, necessita que operemos a sua des‑mitificação. Porque nos fala de um mundo achatado. Digitalizado, o mundo torna-se rede, rede de coordenadas, e a nossa so‑ ciedade torna‑se, como Manuel Castells descreveu, “sociedade em rede”. Ao achatar o mundo, o digital promete‑nos um futuro em que nos encontramos todos no mesmo plano. A promes‑ sa até pode parecer virtuosa, e tem sido inúmeras vezes apresentada como a democracia global

finalmente levada a todos, a democracia tornada universalmente acessível. Mas, na verdade, ela

encerra em si lógicas perversas como a da vigilância global. Hoje estamos colocados perante este problema. O mundo técnico, efetivamente achatado, reduz-nos a todos ao número: o número do cartão do cidadão, o número de contribuinte, o número da segurança social, o número do cartão de crédito, o número de identificação bancária. Giorgio Agamben tem descrito esta operação como “a vida nua”, a vida em que perdemos tudo o que nos reveste. Na verdade, reduzidos ao número, estamos identificáveis em qualquer lugar, tornamo‑nos um ponto sempre visível na rede de coor‑ denadas do quotidiano digital.

É certo que se têm observado, aqui, algumas lógicas de resistência. Tornados visíveis a qualquer hora e lugar, parecemos querer resistir à visibilidade total, procurando manter uma reserva como

anónimos. Mas aí, furtivos à identificação, denunciamos a crise do cidadão moderno, no que se pode

vir a revelar uma das tendências da investigação futura do espaço público. Veja‑se o exemplo re‑ cente, extraordinariamente simples, dos muitos contribuintes portugueses que decidiram glosar e gozar a obrigatoriedade de pedir factura em atos de consumo, fornecendo os números de contri‑ buinte errados, os números de contribuinte do primeiro‑ministro, do ministro das finanças ou do ministro dos assuntos parlamentares, ou seja, situando‑se em protesto, nessa rede de coordena‑ das, de forma a criticá‑la e, eventualmente, sabotá‑la.

Às ciências sociais, torna‑se, assim, necessária a crítica do achatamento do mundo que se obser‑ va no quotidiano, através da sua digitalização. Que é também um complexo e permanente pro‑ cesso de codificação. Por isso, podendo viver o quotidiano nesse mundo achatado, porque é essa a realidade e não outra, aos cientistas sociais cabe a tarefa de não deixar fugir a compreensão dos códigos que o constituem.

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