4 ANÁLISES E DISCUSSÃO
4.2 EIXO 2: O CONSUMO DE CRACK E A INTERFACE COM GÊNERO E
Os relatos das jovens trazem o início de consumo do crack sempre ligado à influência de pares e familiares. Para elas, era comum em seus convívios assistirem a pessoas fazendo uso da droga. O início do consumo de substâncias psicoativas, por usuários de crack, é comumente através de drogas lícitas (álcool e tabaco) e, posteriormente, do uso da maconha (VAN DER MEER SANCHEZ e NAPPO, 2007). As nossas entrevistadas relatam que antes de iniciarem o consumo especificamente do crack elas já faziam uso de outras substâncias, citando o álcool, o tabaco, a maconha e o loló. Esse é um dado relevante para entendermos o contexto de vulnerabilidade em que essas jovens estão inseridas. Também é importante ressaltar que o uso de crack não aparece sem precedentes no que concerne ao uso. Um estudo qualitativo realizado com mulheres usuárias de crack constatou que todas iniciaram o consumo de álcool e cigarro precocemente (DANIULAITYTE et. al, 2007 apud RIBEIRO et. al, 2010). Com isso, percebemos que o crack não costuma ser a primeira droga utilizada pelas mulheres.
Priscila disse que experimentou o crack aos 14 anos em um episódio de comercialização da droga, mas nesse período seu vício era o loló. Como já dito, para ela era “normal” ver a mãe e o irmão usando “pó” (crack misturado com ácido bórico) em casa, queria provar, mas sua mãe não permitia. Apesar de haver certa regulação parental que pode ser demonstração de cuidado, o discurso de Priscila nos faz pensar que os contextos de uso de drogas em que ela já vivia e o de iniciação ao uso, constituem uma linha tênue e se misturam na sua história de início do uso dessa droga. Posteriormente, começou a consumir em seu ciclo de amizades, usando inicialmente o pó, depois o crack misturado com maconha (chamado popularmente de capeta) e passou a usar no cachimbo. A bibliografia sobre início do consumo de drogas em adolescentes e jovens mostra que estes sofrem grande influência
dos pares e grupos de amigos (MINAYO, 2005; CEBRID, 2006) e esse fator também não é diferente nos casos de nossas entrevistadas.
Mariana relata que, por curiosidade, iniciou o uso de crack aos 18 anos e complementa que desde os 13 anos fazia uso de maconha, álcool e tabaco. Sua primeira experiência de uso do crack foi com uma prima. Usou por quatro anos, parou por três e depois voltou a usar. Essa história será mais explorada adiante.
Também aos 18 anos, Beatriz viu pela primeira vez uma amiga usando crack, mas esta não permitiu que ela usasse. Posteriormente, Beatriz foi trabalhar e, consequentemente, morar em um cabaré onde via com frequência as pessoas usando em frente a esse local. Desse modo, o uso de crack fazia parte do seu convívio social e também do seu cotidiano nesse ambiente de trabalho, onde as mulheres usavam e ofereciam a Beatriz. Sua fala é bem ilustrativa:
Fica bem de frente assim do bar. Todo mundo lá usava. Quando não era isso, a pessoa acordava aí já vinha fulano ‘Bora!’ a gente começava logo de manhã, nem tomava café direito... isso era um, dois, três dias sem comer, virando bicho, vendo coisas, ficava falando sozinha, sempre pensa que tem alguém atrás de você, que tem alguém te olhando, você fica escutando vozes, zoada, um bocado de coisas. (Beatriz).
Como pudemos observar, algumas mulheres que trabalham como profissionais do sexo podem ter acesso fácil ao crack e iniciar o seu uso. Porém, é necessário fazer uma diferenciação entre as mulheres que realizam sexo para sobrevivência financeira e aquelas que usam o corpo em troca de droga ou de dinheiro para adquiri-la. Nappo (2004) destaca que as profissionais do sexo normalmente têm um número menor de parceiros, o que não acontece com as mulheres que trocam sexo por drogas. As profissionais também têm mais consciência em relação às IST/AIDS insistindo no uso do preservativo. Por esses fatores, o poder de negociação das prostitutas para que o sexo seja seguro é maior, o que praticamente não acontece com as usuárias de crack que estão sob abstinência e ansiosas pelo uso.
Entre as profissionais do sexo, há um processo de socialização ligado ao ato de tornarem-se prostitutas, estabelecendo um vínculo que favorece a troca de informações com as profissionais mais antigas. Isso leva ao compartilhamento de técnicas de sobrevivência, como sexo seguro e escolha de parceiros. Além disso, em geral elas possuem pontos fixos de prostituição e, por vezes, clientes cativos. Desse modo, expõem-se menos ao desconhecido que as usuárias de crack, que trocam sexo por drogas. Outro ponto de diferenciação relevante é que as profissionais do sexo, em geral, não praticam sexo na rua, possuem local adequado
para tal atividade, portanto, sujeitam-se menos a situações de violência e risco em comparação às jovens usuárias de crack. Além disso, apresentam maior possibilidade de realização de higiene entre um programa e outro. Ainda de acordo com NAPPO (2004), muitas profissionais do sexo se integram a grupos e se beneficiam de troca de saberes com outras profissionais mais antigas. No caso da prostituição por droga, esse vínculo não foi identificado, ao contrário, elas se sentem ameaçadas em termo de concorrência entre si. Esses fatores colocam em maior risco as mulheres que trocam sexo por droga ou dinheiro para consegui-la do que as profissionais do sexo.
Se por um lado algumas mulheres acabam se tornando profissionais do sexo ou usando o corpo para financiarem o uso de crack, por outro lado algumas prostitutas, em decorrência da atividade que exercem, acabam aderindo ao uso de drogas como modo de escape das difíceis situações de vida e de trabalho. Um estudo realizado em Foz do Iguaçu com profissionais do sexo usuárias de crack em relação ao risco frente HIV/Aids, sugere que a vida das profissionais do sexo é complexa e estas desenvolvem um caótico estilo de vida (MALTA, et. al, 2008). Elas passam por situações de perigo no trabalho como detenções, intimidações por parte de clientes, tratamento de agenciadores e violência de seus parceiros regulares. Na vida pessoal, lidam com dificuldades financeiras, cuidado com os filhos e outros problemas do dia a dia o que faz com que elas achem suas vidas desinteressantes e depressivas. Assim, álcool e outras drogas são usados para lidar com essas situações. (MALTA, et. al, 2008).
Quando questionadas sobre se as mulheres estão em risco por fazerem uso de crack, todas dizem que sim e elencam quais tipos: de contraírem doenças, de morte e de serem presas. De acordo com o relato de Priscila, a mulher faz tudo para conseguir a droga, até mais
que o homem, para tanto elas se expõem e se submetem a situações arriscadas. Ela mesma
disse que já se expôs a situações que julgou perigosas, como podemos ver no recorte:
Chama a pessoa pra fumar, diz que vai dar tanto, que vai dar num sei o que, a pessoa vai com o efeito do crack, quando chega lá é um susto, ele mata, esfaqueia. Eu já fumei debaixo de um viaduto com um cara que eu nem conheço, altas horas da noite, acho que era umas 2, 3h da manhã, ele com uma peixeira. Depois eu vim me alertar: ‘Meu Deus do céu, e se fosse um tarado? Se fosse um assassino?’ (Priscila).
Para Mariana, o uso do corpo para conseguir droga está diretamente associado ao risco que as mulheres correm com o uso de crack. Complementa que a via mais comum para conseguir crack pelas mulheres é se prostituindo, com isso, quando estão sob efeito – ou
melhor, sob fissura – elas nem se lembram de usar o preservativo. Outro risco que Mariana cita é o de negociar, pegar a droga no momento em troca de sexo, mas ainda assumindo a dívida para pagar em dinheiro depois, colocando que dificilmente quando a mulher está com dinheiro ela paga. A dívida aumenta o risco de morte.
Também na fala de Mariana, se a mulher for companheira do traficante, possivelmente, se a “boca de fumo” for descoberta, ela terá que assumir a culpa, pois se delatar pode ser morta.
A gente vai na boca, compra fiado. “Não, tal dia eu te dou pra pagar”, ai pega o dinheiro pra pagar, mas como tem que usar, não paga, usa. Sai, às vezes se envolve com traficante, às vezes quando a casa cai, que nem a gente diz, a casa cai a mulé do cara sai, sai com o bagulho, fica a mulher lá sozinha com as drogas ai ela vai ter que assumir, se ela der com a mão e disser que não é dela, é do cara, e entregar o cara, o cara vai mandar matar. Eu acho que o risco pra mulher que usa é essa. (Mariana).
As mulheres que são companheiras de traficantes servem como fator de proteção ao homem e reafirmam o papel histórico de submissão da mulher à figura masculina, já que nessa situação não há saída: se admite que a droga é dela, é presa e se delata que é do companheiro, é morta. Nessa condição de submissão, em que há uma doação de si em prol do outro, “[...] se as mulheres estão à disposição dos homens para doação, elas não estão em posição de dispor de si mesmas para se dar.” (RUBIN, 1993, P. 09).
Na fala de Beatriz também está presente o não uso do preservativo e a negociação do
crack por sexo. Ela também cita outro ponto que é o fato da mulher se sentir mais confiante
ao fazer uso e querer roubar.
Fica claro que, de acordo com o relato das nossas entrevistadas, para a mulher é mais fácil conseguir o crack porque elas podem acessar o corpo como moeda de troca para negociação. Elas não negam que os homens também o fazem, mas relatam que estes não formam um grupo de quantidade relevante, restando a eles as atividades de roubo e tráfico para ter acesso a dinheiro e droga.
De acordo com Lima (2012), nós vivemos em uma sociedade em que moralmente o homem deve enfrentar riscos. A construção de identidades masculinas está atravessada por uma cultura que prioriza a virilidade, que nas comunidades pobres está perpassada pelo uso, abuso e tráfico de drogas. Lima (2012) traz em sua pesquisa sobre gênero, masculinidades, juventude e uso de drogas relatos de jovens que dizem fazer uso de drogas para sentirem-se
empoderados através de ações de violência, como roubar carros ou motos só para ter como sair e se divertir. É necessário compreender que vivemos em uma sociedade que valoriza a cultura de violência e agressividade como símbolo de reconhecimento e esse pode ser um viés para compreender as questões de gênero que incidem nas diferentes atividades desempenhadas por homens e mulheres para terem acesso a drogas.
Rubin (1993) trabalha bem no texto “O tráfego de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo” a temática da circulação de mulheres como moeda de troca em um sistema patriarcal. Ela traz uma teorização pautada em Mauss e Lévi-Strauss sobre o significado da doação de um presente como um vínculo social entre os parceiros da troca. A doação de um presente confere uma relação especial de confiança, solidariedade e ajuda mútua. Uma relação de amizade pode ser solicitada através da oferta de um presente em que a aceitação implica a vontade de retribuir o presente e a confirmação da relação.
Nessa mesma linha também podemos pensar sobre a relação que se estabelece com a troca de sexo por droga. A partir dessa troca, estabelece-se um meio de comércio social (RUBIN, 1993), onde o crack e o corpo são tidos como mercadorias. Para Mauss, de acordo com Rubin (1993), os presentes são como fios do discurso social sendo o meio pelo qual tais sociedades mantinham-se unidas na ausência de instituições governamentais especializadas. Na ausência da proteção proveniente do poder público, para as usuárias de crack, o uso do corpo como moeda para estabelecer uma relação comercial em que interesses estão mutuamente sendo satisfeitos, torna-se plausível.
Diferente da circulação das mulheres nas famílias patriarcais, as mulheres entrevistadas nesta pesquisa negociam a troca do próprio corpo por droga. Porém, negociar o corpo com quem possui o que elas desejam – o crack, com quem está em situação de poder, que muitas vezes é o traficante, coloca-as em posição de não aproveitar os benefícios de sua própria circulação. Assim, elas desenvolvem uma relação de submissão pautada por dívidas, já que, legitimamente, no mundo do tráfico, droga pode ser negociada por sexo, mas não quer dizer que foi paga. Em algumas negociações a relação sexual é um mecanismo de sedução para conseguir o crack sem ter dinheiro e assumir a dívida, que dificilmente é paga, como podemos perceber no trecho já colocado acima: “A gente vai na boca, compra fiado. “Não, tal dia eu te dou pra pagar, ai pega o dinheiro pra pagar, mas como tem que usar, não paga, usa” (Mariana).
Nossas três participantes disseram já terem se prostituído para conseguir crack. Quanto a isso, disseram não terem sentido prazer, estavam só pensando em terminar logo o ato para conseguirem o que queriam, como podemos perceber nas falas:
[...] eu não senti vontade nenhuma, porque realmente assim as drogas ela tira a sua concentração de tudo, entendeu? E ali pra mim foi nada. Eu tava pensando mais nela [crack] do que em mim mesma. (Beatriz).
Quando eu fiz, eu não senti nenhum prazer nem nada, fiquei com ansiedade pra terminar logo pra eu poder ter o que queria nas mãos. E depois eu me sentia mal, olhava pra mim mesmo e dizia: “que ponto cheguei!” mas depois voltava a usar de novo e aquilo acabava. (Priscila).
Eu me sentia... na hora eu não sentia nada não porque eu tava sobre o efeito dela. Mas depois, no outro dia que o efeito passava eu fazia “porra, me trocar por uma pedra”. Ficava aquele ressentimento de culpa, remorso. Me sentia mal! Porque nunca tinha feito isso e acabei fazendo. Ai eu me sentia com uma culpa, um remorso, um nojo de mim mesma, eu sentia, na hora. [...] na hora eu não sentia nada, era só por conta da droga mesmo. Que eu ficava logo, “olha, vai logo, termina logo, vai ligeiro” por conta de já pegar a droga e usar. E era só no efeito que eu fazia isso, porque se não fosse no efeito eu não fazia não. (Mariana).
Percebemos também que após o ato sexual elas sentem remorso, culpa e decepção. As jovens não relatam o uso do corpo como uma situação traumática, mas muito desconfortável e triste, superada pelo dinheiro ou droga que conseguiram. Vale ressaltar que quando elas mencionam que estavam sob efeito de droga, como na fala de Mariana (acima), na verdade, pelo efeito efêmero do crack, elas estavam sob fissura. É o efeito da fissura que faz as usuárias buscarem mais drogas para consumo.
A fala dessas mulheres nos remete como já vimos, a aspectos de submissão histórica do seus corpos como moeda de troca e circulação entre homens diante de uma estrutura social patriarcal. Esses relatos nos chamam atenção para o lugar da mulher e os signos relacionados à sexualidade feminina na nossa sociedade: dar prazer. A mulher “boa” para uma relação estável ou o matrimônio é aquela que cuida da casa, da comida, dos filhos, dos problemas e da sexualidade submetida ao prazer sexual masculino. De acordo com Parker (1991), o âmbito do privado, da casa, está ligado ao conjunto de noções relacionadas à feminilidade e aos limites apropriados da sexualidade feminina. Sendo o âmbito doméstico permeado por uma forma de autoridade tradicional e patriarcal, a sexualidade feminina domesticada é adequadamente reprodutora.
Em contrapartida, a rua – lugar de domínio das mulheres aqui estudadas – representa um campo mais impessoal de trabalho e luta, sendo o meio povoado pelo masculino. Para as mulheres usuárias de crack, a luta pode ser pela sobrevivência da violência da rua, a busca por
alimentos, por dinheiro, por drogas e por prazer em meio ao sofrimento. A rua também oferece liberdade individual, a preço de tentações e perigos (PARKER, 1991).
O “papel feminino” no Brasil, a partir de uma ótica da norma hegemônica, apesar de muitas mudanças, ainda está ligado ao cuidado que remete ao simbolismo de alimento e nutrição. Assim, seja como mãe que provê através do seio, seja pelos talentos culinários no papel de esposa, a questão alimentar e a preparação da comida estão estritamente ligados ao papel feminino. A cozinha, depois dos cuidados com os filhos, é de domínio das mulheres. Como os prazeres do paladar relacionados simbolicamente aos prazeres eróticos, como nos refere Parker (1991), o simbolismo de gênero também se transforma na linguagem do erótico: a mulher é comida. Nesse sentido, a mulher ocupa um lugar de passividade com o desempenho da tarefa de satisfazer o outro, dar prazer e não ter prazer. Podemos entender que, colocadas nessa posição social em que sentir prazer sexual é questionável, as mulheres usuárias de crack partem para a vivência de tal prazer vital através das sensações que a droga proporciona.
A partir dos discursos acima, ainda podemos observar que o uso da droga tanto potencializa quanto despontecializa alguns efeitos e sentimentos. O uso do crack faz com que o mal-estar presente na condição humana, com as peculiaridades de cada sujeito, seja postergado. Pinçando um recorte, quando Priscila diz que se sentia mal ao usar o corpo para conseguir droga “mas depois voltava a usar de novo e aquilo acabava” ela adia a reflexão sobre sua condição de vida, os riscos, os efeitos, os prejuízos, dentre outros pontos. Como já comentou Freud (1930/1996a) em O mal-estar na civilização:
O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício que tanto indivíduos como povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de dependência do mundo externo, pois sabe-se que com o auxílio desse “amortecedor de preocupações” é possível, em qualquer ocasião, afastar-se de uma pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade (p. 86).
Em relação às Infecções Sexualmente Transmissíveis, percebemos nos discursos que as jovens têm informações sobre o tema. Elas sabem que existem muitas doenças, mas citam apenas a sífilis, a gonorreia e, mais comumente, a AIDS. Citam como modo de transmissão: transar sem preservativo, podendo ser também por sexo oral e anal, usar roupas íntimas de outras pessoas e compartilhar lâmina de barbear.
Os meios pelos quais acessaram as informações foram diversos: amigos, posto de saúde da comunidade, reunião de profissionais do sexo e esse programa para usuários de drogas em que estão inseridas agora. Observamos também que, apesar das jovens não terem uma grande quantidade de informações sobre prevenção, o conhecimento que elas possuem é suficiente para acessarem estratégias de cuidado. Então, resta-nos o questionamento: por que as jovens usuárias de crack não conseguem colocar em prática as informações de que dispõem? Decerto não teremos uma resposta completa e precisa para esse questionamento, mas suscitaremos a análise de alguns pontos relevantes sobre o tema.
Um dos pontos para reflexão é que a aprendizagem da sexualidade estrutura um território próprio dos jovens, onde eles buscam afirmar uma identidade de gênero (HEILBORN e BRANDÃO, 2006). No relacionamento a dois, seja ele fixo ou ocasional, requer-se o domínio de regras de negociação que são pautadas pela lógica de gênero. Como a interiorização das normas contraceptivas e de prevenção podem não estar dominadas pelos/as jovens, nesse percurso pode acontecer gravidez indesejada ou infecções por IST/HIV.
Com isso, o aprendizado e o domínio da contracepção e da prevenção de IST/HIV acontecem gradualmente, a partir da iniciação sexual e suas vivências. Entretanto, lançar mão das tecnologias para prevenção está ligado a condições de convencimento, seja para usar preservativo ou para evoluir para uma relação desprotegida que esteja ligada à confiança entre o casal (HEILBORN e BRANDÃO, 2006; QUADROS, ADRIÃO e XAVIER, 2011).
Considerando as trajetórias sexuais das jovens usuárias de crack, quando elas estão negociando o corpo por droga, o não uso do preservativo pode ser um componente de convencimento para que a troca aconteça. Desse modo, as mulheres acabam se submetendo ao