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Ela desejava muito ser “comissário” de voo Já buscava um

“Quando tiver dinheiro vou ser travesti completa, aí ninguém me segura”

Cena 11: Ela desejava muito ser “comissário” de voo Já buscava um

curso para fazer depois que terminasse o último ano do ensino médio. Queria viajar o mundo em um avião e, por isso, não queria apressar sua transformação, pois achava que seria muito mais fácil tornar-se comissário como homem e não como travesti “aí sim, depois que eu tiver meu dinheiro e meu emprego vou poder virar o que eu quiser, uma travesti toda turbinada, desses mulherões sabe? Aí minha mãe não vai poder falar nada e tenho certeza de que na rua vão me respeitar mais quando eu estiver uma mulher completa”.

Como mencionei na seção anterior, seja por um motivo ou por outro, a travestilidade é sempre associada à pista até mesmo entre as próprias travestis que não escolheram o mercado do sexo como sua profissão. Por isso, entre as novatas conhecer ou saber de alguma travesti que não se prostitui desperta muito interesse, por mais que algumas relatem gostar de se prostituir e não queiram abandonar a atividade.

Em uma tomada geral, posso dizer que conheci nesta pesquisa poucas travestis iniciantes que se prostituem. Embora todas as que residiam na única casa em que visitei batalhem na pista, nos outros contatos que mantive (um pessoal e mais de trinta virtuais) durante todo o ano de 2011 e início de 2012, o sustento mencionado pelas jovens travestis distribuíam-se em variadas atividades. Outro dado é de que um número expressivo destas novatas residem com a mãe ou, pelo menos, é a mãe o familiar mais citado entre as pessoas com quem moram.

A maioria das novatas com menos de 16 anos de quem sou “amiga” virtual no facebook frequenta a escola e cursa o ensino médio. Aquelas que já estão com mais de 18 anos trabalham em diferentes funções como cabeleireiras, maquiadoras, como atendente de telemarketing, dançarina de banda de forró, atendente do MacDonald’s,

performer em shows de travestis, hostess72 de boate GLS, vendedora de

loja, teleoperadora de empresa de comunicações, DJ, entre outras73. Vejo que, mesmo que um número significativo de travestis continue exercendo funções pouco remuneradas quando comparadas ao que algumas travestis dizem receber fazendo programas dentro e principalmente fora do Brasil, consigo visualizar um crescente número de locais que estão começando a empregar travestis, especialmente as mais jovens, que estão frequentando ou terminando o ensino médio.

Acredito que diferentes questões políticas e econômicas tem favorecido esta gradativa abertura de vagas de trabalho, como o engajamento da militância de travestis e transexuais em inserir um maior número de pessoas trans no mercado de trabalho e o crescente interesse de ONGs em oferecer cursos profissionalizantes, para que as travestis tenham outras formas de sustento além da pista. Também é importante mencionar os projetos do Ministério da Saúde, que têm contratado travestis como agentes de saúde e educadoras sociais. E, claro, o aumento de interesse por parte das travestis em atividades remuneradas que não apenas a prostituição.

Essas são algumas condições de possibilidade que tem girado em torno das novas travestilidades e que se mostraram durante minha trajetória de pesquisa com travestis (desde 2008 a 2012) como novas preocupações políticas, econômicas, de saúde, de educação e de direitos humanos em relação a elas, ainda que seus efeitos sejam muito lentos e graduais.

Entretanto, chamo a atenção para dois efeitos que podem estar se produzindo e se alastrando à custa da atenção à vida profissional das pessoas do universo trans. Refiro-me a rede normalista e normativa, que pode estar envolvida no discurso da “necessidade de melhores oportunidades às travestis”. Levanto esta questão ao entender a importância e a urgência de que novas oportunidades de trabalho façam parte das pautas de políticas para a população trans. No entanto, percebo

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Segundo as travestis a hostess é a recepcionista da boate é quem apresenta o evento, a festa ou a “casa” ao cliente que chega ao local.

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Informações que obtive em conversas instantâneas pelo MSN e por meio das informações contidas na categoria “Trabalha em” no perfil do facebook das travestis iniciantes que me adicionaram como “amiga” nessa rede social. Nos perfis pesquisados constavam informações de acesso público sobre o nível de escolaridade, local de nascimento e de moradia, data de nascimento, gênero (masculino ou feminino), interesse por homens ou mulheres e interesses musicais, literários, etc.

também como efeito desta preocupação, a produção de um discurso cada vez mais discriminatório em relação ao mercado do sexo. Muitas travestis que não se prostituem ou se posicionam em classes sociais “mais elevadas” costumam discriminar as travestis que fazem pista, e por meio do discurso político “precisamos tirá-las desta vida” algumas alas da militância LGBTTT também parecem comungar da mesma ideia. Assim, saliento a sutileza com que as normas regulatórias se fazem presentes em alguns discursos, os quais posiciona a prostituição, muito mais do que um antigo problema, ligada à marginalidade, mais como uma falha de conduta e de moral a ser rechaçada do que uma profissão que, somada às outras atividades, pode se constituir como um amplo campo de oportunidades e opções às travestis.

O segundo efeito que julgo muito importante salientar, tem relação com a crescente busca das travestis iniciantes por profissões que não são ligadas ao mercado do sexo. Motivadas por este interesse observei que muitas jovens estão permanecendo por mais tempo na escola, concluindo o ensino médio e tentando desviar dos altos índices de evasão escolar que ainda recaem sobre a população de travestis.

No entanto, o interesse por outras profissões, muitas vezes, também abre possibilidades para uma visão idealizada e libertadora entre as iniciantes, como aquela que aparece no trecho extraído do diário de campo que descrevi no início desta seção74. No trecho, a jovem travesti imaginava que estar em um “bom emprego”, o de comissário de voo

como homem, iria garantir-lhe a independência financeira, permitindo

não apenas uma transformação corporal, respeito e legitimidade frente às outras travestis e à família, mas também a ideia libertadora de que ficaria livre da violência e da discriminação. No decorrer da conversa menciona, que somente depois que alcançasse a estabilidade financeira

as pessoas na rua vão respeitar mais, assim poderia andar na rua

tranquilamente com seu marido e adotar filhos.

Embora eu tenha trazido a discussão da profissão das travestis sob diferentes ângulos, permito-me afirmar que se por um lado as travestis que se prostituem, ou mesmo as que não estão na pista continuam vítimas da violência e da discriminação, por outro, a crescente luta por outras formas de acesso ao trabalho tem trazido às iniciantes novas modos de existência e de pensar sobre si. Digo isso ao rememorar a conversa que tive com uma novata de 20 anos, que planeja sua aposentadoria da pista conforme trecho extraído do diário de campo:

Cena 12:

Eu estava quase indo embora da