Roberto de Sousa Causo
112– ela exclamou
– Eles foram cuidadosos em não formular expli-citamente qualquer suspeita – ele disse. – Mas não ocorreu a você que possamos ter sido infiltrados por uma terceira parte, e inadvertidamente trazido o assassino para cá?
Consuelo parecia mais chocada com essa pos-sibilidade, do que com um escândalo diplomático.
Mello respondeu com um meio sorriso tranquiliza-dor, embora ele mesmo não estivesse em nada satis-feito com o beco sem saída em que se encontrava.
***
No quinto dia, diante do longo crepúsculo de Yukon, Vieira de Mello e Dennis Jackson tiveram outra conversa em torno de canecas de uma termo-garrafa de café mineiro. A lancha de comando Mi-nuteman estava conectada à Manuel Piar por meio de uma passagem sanfonada, e Jackson vestia ape-nas o fardamento de campo, bem mais leve. Desta vez estavam sozinhos na copa, acompanhados ape-nas de café e sanduíches, livres da atenção zelosa dos seus suboficiais e auxiliares.
– O senhor vai gostar de saber que não desco-brimos nada com os scans, Embaixador – Jackson disse. – Seu pessoal está limpo, nenhum deles é o assassino de Traviss ou foi seu cúmplice. Lamenta-mos o inconveniente.
– O senhor manterá o compromisso de destruir todos os registros?
– Quando o processo estiver terminado, o se-nhor e a sese-nhorita Canclini vão poder testemunhar o momento em que os dados serão deletados – Ja-ckson asseverou. – Mas eu quis de ter esta conversa antes.
“Quando o processo estiver terminado...” Mello ecoou mentalmente.
– Há outros procedimentos aos quais quer nos submeter? – inquiriu, com certa impaciência. – Eu não consigo imaginar o que mais pode ser feito...
Jackson fez um gesto apaziguador.
– Mais um pouco e vocês estarão livres para par-tir – asseverou. – O assassino não está nesta nave, nem pode passar pela vigilância que montamos em torno dela. Se ainda estiver vivo e na superfície de Yukon, nossos robôs irão descobri-lo. Ele não pode durar muito tempo nestas condições climáticas, sem se denunciar.
– Quanto tempo mais teremos de esperar, Ge-neral? – Mello perguntou. – Meu relatório de ansí-vel para a Chancelaria da Diáspora Estelar Latina já está atrasado, e eu receio que se ele demorar mais, esta situação pode se transformar num incidente internacional.
– Que o senhor tem tentado evitar, eu reconheço – Jackson disse. – Só mais um Terradia. Eu também tenho a quem responder em Appalachia... e além, se o senhor me entende.
– Acha que o matador será capturado em só mais um dia?
– Não se trata disso, Embaixador. – Jackson sor-riu. – É uma desculpa para dizer aos nossos supe-riores que estamos analisando os dados colhidos e buscando alternativas. Eu não vejo nenhuma, mas coloquei o meu time de especialistas para trabalhar.
Não creio que eles imaginem algo razoável, nesse prazo. Mas é também uma desculpa para o senhor e eu conversarmos mais um pouco.
– Sobre que assunto, General?
– O Capitão Jonas Peregrino.
Silvano Vieira de Mello recuou na cadeira. Dian-te dele, o MinuDian-teman sorriu e deu de ombros, anDian-tes de esconder o sorriso atrás da caneca de café. Jack-son disse:
– Os sistemas de vigilância de comunicações que usamos para a filtragem dos scans de memória pos-suem, digamos, um interesse pelo Capitão Peregri-no. Ele realizou muito na Esfera, e parece ter uma...
resistência incomum. Temos curiosidade profissio-nal a respeito dele.
– Eu imagino – Mello disse, lacônico.
– Daí os computadores terem filtrado a ocor-rência de Peregrino, na análise das suas lembranças recentes. Parece que o senhor tem pensado muito
A Extração Roberto de Sousa Causo
113 nele, nos últimos dias. Na verdade, desde o ataque a Traviss.
– Uma coincidência suspeita em sua opinião, General Jackson?
– Uma coincidência que estimula ainda mais a nossa curiosidade sobre Peregrino – Jackson devol-veu, sem piscar.
Mello suspirou.
– Eu me perguntava o que ele faria numa situa-ção como esta, que minha equipe e eu vivemos em Yukon.
– Uma solução militar, para uma situação diplo-mática, Embaixador?
– O senhor não é um diplomata, General – Mello respondeu, com um meio-sorriso. – Tanto a situa-ção que vivi com Peregrino, quanto esta, parecem becos sem saída dos quais nenhum resultado posi-tivo poderia advir.
– Mas a missão de escolta diplomática da jun-ta milijun-tar de sKrtleal terminou da melhor maneira possível – Jackson observou. – Dadas as circunstân-cias.
– Exatamente, General – Mello disse, olhando firme nos olhos do Minuteman. – Parece que esse é o talento do Capitão Peregrino. Ele é um grande planejador, é claro. Mas falo de sua capacidade de ler e antecipar situações desesperadas, e tirar delas uma saída redentora. Eu certamente só estou aqui, vivo e no exercício das minhas funções, por causa dele. Daí me lembrar de Peregrino neste momento.
O senhor talvez veja isso com suspeita, mas esta é a verdade: eu gostaria de saber como Peregrino en-frentaria este impasse aqui em Yukon.
– Não há impasse algum, Embaixador. Mais um dia, e vocês estarão livres para partir.
– Mas neste dia se exige que eu revele algo sobre um oficial da Latinoamérica a quem sou particular-mente grato.
– Não acredito que o senhor venha a revelar um segredo militar ou diplomático, e não é o que o que eu peço – Jackson asseverou, num tom que sugeria interesse verdadeiro. – Uma análise de caráter, tal-vez? Algo que vá além do retrospecto da carreira de
Peregrino ou da propaganda em torno dele?
Vieira de Mello meditou, curvado sobre a sua ca-neca de café.
– Desde o início, fomos alvo de sabotagens, trai-ções e emboscadas – disse, em voz baixa. – Isso pe-sou sobre Peregrino, especialmente as perdas entre o seu pessoal. Em alguns momentos ele pareceu desorientado, desesperado, prestes a se voltar con-tra os membros da junta e concon-tra mim. Mais tarde, porém, eu vim a acreditar que ele forçava a mão de modo calculado, ou talvez intuitivo, para obrigar os generais de sKrtleal a agir eles próprios de modo desorientado e desesperado. Quando eles me toma-ram como refém, foi o que Peregrino precisava para agir e salvar os nossos pescoços.
– Eu não compreendo...
– O tempo todo ele lia a situação e antecipava o que os membros da junta fariam – disse Mello.
– Nós não conseguiríamos escapar do fracasso da escolta, não com a sabotagem que sofremos. Mas Peregrino intuiu um modo de transformar o fra-casso em vitória. E uma vez tendo aberto uma via de escape, ele agiu imediatamente e com toda a for-ça necessária, sem um momento de hesitação. Era como se estivesse preparado para aquilo, durante o tempo todo.
Jackson havia endireitado o corpo. E estreitado os olhos. Mello deu de ombros.
– Talvez essa capacidade seja algo comum en-tre comandantes de combate – o embaixador ob-servou. – Mas é claro, já estive em muitas áreas de conflito, e essa experiência me faz supor que nem sempre é assim.
O Minuteman voltou a sorrir.
– Na minha também – ele disse. – Mas é curio-so o senhor usar a palavra “intuição”. – Ele tocou rapidamente a cinta de interface em sua testa, e en-tão levantou-se. – Nestes dias em que somos meio máquinas, conceitos como esse não são muito vi-sitados. Mas eu acredito no senhor. Acredito que intuição, instinto ou sorte podem guiar um soldado pelos caminhos tortuosos das fricções do combate.
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3.
Dennis Jackson cumpriu a sua palavra. Livre, a Manuel Piar vencia o puxão gravitacional de Yukon.
O planeta apareceu nas vigias do passadiço como uma bola de neve suja e amassada, e rapidamente ficou para trás. As vigias deram lugar ao espaço es-curo e salpicado de estrelas. A espaçonave rumava para o espaço profundo. Por um instante, porém, Silvano Vieira de Mello guardou a imagem gélida do planeta, e um verso muito antigo lhe ocorreu: “É agora o inverno do nosso descontentamento.”
Ele então se dirigiu ao comandante da Manuel Piar, Omar Federico Avilés.
– Não tenha pressa em nos conduzir pela Zona de Simetria Rompida, Omar.
Consuelo Canclini estava ao lado de Mello, quando ele fez a solicitação.
– O que tem em mente, Silvano? – ela perguntou.
Todos os membros da sua equipe diplomática o tra-tavam pelo primeiro nome.
Consuelo ainda estava incomodada com a inva-são representada pelo scan a que os Minutemen os tinham forçado. Mello podia sentir a irritação em sua voz.
– Apenas que devemos ser cautelosos. Verificar todos os sistemas, antes do tunelamento. – Pensa-tivo, ele fez uma pausa, seus olhos indo de Avilés a Consuelo. – Me ocorreu que os Minutemen fize-ram mil averiguações nesta nave, e nós, nenhuma.
Chame o Sargento Fuentes e os seus analistas de sis-temas, Consuelo. Enquanto seguimos para a ZSR, vamos procurar grampos, vírus e sinalizadores que eles possam ter deixado nos sistemas ou nas insta-lações da Manuel Piar.
– Eu e meu pessoal estivemos com eles o tempo todo, enquanto eles verificavam os computadores da nave – Consuelo disse.
– Os Minutemen teriam muitas maneiras de contornar essa providência – Mello apontou.
– Vou reunir o pessoal – ela aquiesceu.
– Quero dar uma olhada no que eles estão fa-zendo na órbita de Yukon – o embaixador pediu a Avilés, depois que Consuelo deixou o passadiço.
– Se fizermos uma varredura muito intensa com os sensores, eles vão desconfiar de alguma coisa.
Mello refletiu. Avilés tinha razão.
– Qual é o alcance efetivo máximo, para uma varredura discreta? – perguntou.
– Nossos sensores não têm competência militar, então eu diria três unidades astronômicas, Embai-xador. Ou cerca de duas horas de voo, se o senhor realmente quer ir devagar.
– Já temos um plano então, Omar. Vou sair para falar com Fuentes e Consuelo. Me avise quando ti-ver um registro, ou se aparecer alguma novidade.
***
Diego Fuentes e o pessoal de Consuelo percor-riam a nave, enquanto o engenheiro de bordo, Ber-nardo Alverdi, verificava os sistemas à caça de um vírus troiano ou algo parecido.
Vieira de Mello fizera uma refeição frugal e ha-via se recolhido ao seu camarote. Estava deitado de costas, observando distraidamente luzes que piscavam no painel de climatização fixado no teto baixo acima do catre. Ele comandou seu implante mnemônico para repassar uma conversa que tivera, pouco antes da Manuel Piar ser liberada para deixar Yukon. Não aquela com o General Dennis Jackson, porém. Com a conversa tida com a Sargento Laura Dobbs.
Dobbs o procurara no seu camarote. Livre do termotraje protetor, da máscara multitática e de qualquer armamento, não parecia em nada ameaça-dora. Vestia apenas o uniforme Minuteman de ser-viço, este sim revelador de suas formas femininas e membros robustos. Parecia embaraçada, com difi-culdade para dizer do que tratava a sua visita. Mello sorriu para animá-la, e então, como cabia a uma militar, ela respirou fundo e foi direto ao assunto.
– Eu lamento pelo ocorrido, Embaixador – disse.
– O scan de memória foi excessivo. Uma violação dos seus direitos individuais, da sua privacidade e da sua equipe. Não é assim que gente de Appalachia devia se portar.
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