CAPÍTULO III METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO
3.4. Métodos, técnicas e instrumentos de recolha de dados
3.4.4. Elaboração do Diário de Campo e uso do Roteiro de Observação
Numa pesquisa de cunho qualitativo o investigador sempre deve ter em mãos ao menos papel e caneta, para registrar as suas percepções do campo da pesquisa, principalmente quando nela estiver presente a observação simples ou participante, como método de recolha de dados. Desta forma, o pesquisador pode registrar ideias, estratégias e reflexões emergentes das observações do campo, ou seja, tudo que pode perceber através dos seus sentidos de visão, audição, tato, olfato e ainda suas experiências vividas (Bogdan & Biklen, 1994; Ludke & André, 2013).
O resultado bem-sucedido de um estudo de observação participante em particular, mas também de outras formas de investigação qualitativa, baseia-se em notas de campo detalhadas, precisas e extensivas. Nos estudos de observação participante todos os dados são considerados notas de campo; este termo refere-se coletivamente a todos os dados recolhidos durante o estudo, incluindo as notas de campo, transcrições de entrevistas, documentos oficiais, estatísticas oficiais, imagens e outros materiais. (Bogdan & Biklen, 1994, p. 150)
O diário de campo pode ser oriundo da organização sistemática das notas de campo, obtidas através do registro organizado e processual do investigador no acompanhamento da pesquisa que desenvolve, onde o mesmo pode analisar “[...]como é que o plano de investigação foi afetado pelos dados recolhidos, e a tornar-se consciente de como ele ou ela foram influenciados pelos dados” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 151). Porém, deve-se destacar que, ao conter o registro das observações colhidas durante a investigação, os diários são importantes até mesmo como complemento de outros métodos, para favorecer um enriquecimento contextual do objeto em
estudo, numa pesquisa qualitativa (Bogdan & Biklen, 1994; Flick, 2009). O diário de campo é segundo Neto (2004):
[...] um “amigo silencioso” que não pode ser subestimado quanto à sua importância. Nele diariamente podemos colocar nossas percepções, angústias, questionamentos e informações que não são obtidas através da utilização de outras técnicas. O diário de campo é pessoal e intransferível (grifos do autor) (p.63).
No entanto, para não se perder elementos importantes e inserir artificialidade nas observações, que serão usadas na análise dos dados, o registro das anotações de campo devem ocorrer tão logo quanto possível. “Especialmente na pesquisa-ação, quando os pesquisadores participam dos eventos no campo e não simplesmente os observam, torna-se mais difícil para eles conservarem essa liberdade” (Lofland & Lofland, 1984, citado por Flick, 2009, p. 267). Desta forma, esses autores sugerem que as notas de campo devem ser registradas imediatamente após a ação observada, de forma sistemática e organizada. Deve-se ainda levar em consideração que o texto escrito, com resultado final da pesquisa, tem uma influência muito forte das notas de campo, pois lá estão as percepções e visão seletiva do pesquisador.
Para evitar uma percepção unilateral na pesquisa, onde o pesquisador leve em consideração somente o que descreveu em suas notas de campo, o mesmo deve atrelar o que escreveu em suas notas com os registros elaborados pelos participantes da pesquisa, levando-se em consideração outros instrumetos de recolha de dados. Sendo assim, as percepções dos sujeitos envolvidos na investigação podem ser analisadas e contrastadas com as observações registradas nas notas do investigador (Flick, 2009).
Desta forma, como corroborado por Bogdan e Biklen (1994) e Flick (2009), durante todo o momento em que a investigadora esteve em contato direto com os estagiários, nas oficinas de formação, no planejamento da ação didática e observações no âmbito da escola, houve o uso de um “diário de campo”, onde a mesma anotava todas as suas percepções, acerca do que observava durante o desenvolvimento das atividades propostas. As anotações eram realizadas imediatamente após as observações de campo e registradas em um caderno. Assim sendo, foi elaborado o Diário de Campo e dividido em 4 partes para melhor sistematização e análise dos dados obtidos, a saber:
Parte I: Percepções sobre a elaboração e apresentação das ações de formação – registros
realizados durante o planejamento e apresentação das oficinas formativas;
Parte II: Percepções sobre o planejamento da ação didática antes da regência – registros
realizados depois das ações de formação e antes do início da regência;
Parte III: Percepções sobre a atuação dos estagiários na regência – registros realizados
Parte IV: Avaliação final do desempenho dos estagiários pós regência – registros realizados
ao terem finalizado a regência, em encontros reservados com a professora orientadora.
Para balizar as observações e registro dos dados obtidos durante a elaboração da parte III do Diário de Campo, a investigadora utilizou um Roteiro de Observação das Ações do Estágio (Anexo VIII). Para a elaboração do referido roteiro foram elencadas uma série de critérios inerentes aos elementos que não poderiam deixar de compor a ação didática dos estagiários, quando em ação durante o planejamento da ação pedagógica e na regência. Assim sendo, o roteiro foi dividido em três partes, a saber: 1. Pré-observação – corresponde a análise da fase de planejamento da ação didática, após as oficinas formativas e antes da regência; 2. Observação – diz respeito a observação da ação didática no campo do estágio, durante as aulas na regência e 3. Pós-
observação – relaciona-se com a fase em que ocorreram as reuniões com os estagiários, após
as ações da regência, para fins avaliativos no contexto do seu desempenho frente as aulas ministradas.
Desta forma, foram realizadas e registradas observações do tipo formal que, de acordo com Reis (2011), são realizadas após planejamento prévio, que no caso, fora realizado para elaborar o supracitado roteiro e acordar com os professores regentes os dias e horários que ocorreriam as visitas para a observação dos estagiários. Para tanto, de acordo com o referido autor, antes do observador adentrar no local onde serão realizadas a observação formal, deve existir uma fase preparatória, que incorra em estabelecimento de “[...] regras para a realização das observações e, sempre que estas tenham um caráter mais formal, a análise e discussão do plano de aula construído pelo professor (p. 21).”
Assim sendo, de posse das notas de campo, posteriormente a investigadora elaborou registros digitais (Anexo II), em que sistematizou suas percepções acerca do que foi observado e anotado em seu Diário de Campo. Esses registros foram utilizados como dados a serem discutidos e analisados no escopo da tese e, também, impressos e entregues aos estagiários para discutir com os mesmos como fora o seu rendimento frente as ações do estágio.