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2 – OPOSIÇÃO E RESISTÊNCIA À DESONERAÇÃO E AO CONTROLE DO ESTADO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM NÍVEL SUPERIOR – A

2.2 Elaboração do Plano Estadual de Educação – 1984-

A elaboração do terceiro Plano de Educação de Santa Catarina constitui-se numa manifestação de luta e resistência ao controle que o Estado de SC, através dos aparelhos de Estado, tem exercido nos rumos da educação em Santa Catarina. Vejamos como.

No cenário anteriormente descrito, e ainda em 1983, a Secretaria de Educação do Estado convocou uma reunião preliminar na Secretaria da Educação com vistas à constituição e à organização dos trabalhos do PEE. Muitas entidades sentiram-se chamadas, a educação estava nos interesses de muitos segmentos organizados. As razões para atenderem a esse chamado não eram certamente as mesmas. Fizeram-se presentes, atendendo ao convite da própria Secretaria de Educação, representantes da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), a ACAFE, a Academia Catarinense de Letras (ACL), a UFSC, a Associação Catarinense de Escritores (ACEs), a Associação Catarinense de Professores Primários de Santa Catarina (ACP), a Associação de Orientadores Educacionais de Santa Catarina (AOESC), o Conselho Estadual de Cultura (CEC), o Sindicato dos Professores de Florianópolis (SINPRO), a Fundação Catarinense de

Educação Especial (FCCE), a ALISC, o CEE, a Associação dos Supervisores Escolares de Santa Catarina (AESC), a União Comunitária das Associações de Pais e Professores (UNICAPP), o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de Santa Catarina (SEEESC), a Associação de Educação Católica do Brasil (AEC) e a Secretaria de Educação (SE). A reunião foi aberta pelo titular da pasta da Educação, Moacir Tomazi. Seguido da professora Úrsula H. Mulbert, diretora da Unidade de Planejamento da SE, que discorreu sobre o sistema de planejamento e suas fases e sobre a elaboração de um plano de educação. Após, o professor Lauro Zimmer, reitor da Universidade para o Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina (UDESC) e representante da ACAFE, teceu considerações sobre o PEE do período 1980-1983, de cuja comissão de elaboração tinha sido presidente (AMORIM et al., 1986, p. 27). Da reunião não participaram representantes da Associação dos Professores da Universidade Federal de Santa Catarina (APUFSC) nem entidades estudantis em virtude de não terem recebido convite. Mesmo assim, foram feitas deliberações para a constituição da comissão de elaboração do PEE quanto à constituição, aos documentos a serem fornecidos pela secretaria e ao prazo para a entrega do plano que ficou definido para ser entregue em 120 dias.

Rapidamente a ALISC se organizou. Na cidade de Blumenau, no dia seguinte, 11 de maio de 1983, foram eleitos, em Assembléia Estadual de Professores, os representantes da ALISC para as comissões que elaborariam o PEE e para a do Estatuto do Magistério e Carreira. Em 30 de maio, por um ato governamental publicado no Diário Oficial de 1 de junho de 1983, era oficialmente constituída a comissão para a elaboração do PEE. Também o governo nomeou para a coordenação dos trabalhos e como presidente da comissão o reitor da UDESC, Lauro Ribas Zimmer, que por sua vez apresentou o vice-presidente, professor Waldir Berndt, membro do CEE e diretor da Unidade Operacional da SE. Já tivemos ocasião de ver que os conselheiros são nomeados pelo governador e freqüentemente ocupam funções múltiplas nos órgãos e aparelhos do Estado.

Após várias reuniões com apresentação e discussões de textos que abordavam velhas questões como: a do tecnicismo, a separação na educação do ato político e técnico, a questão do planejamento que agora deveria ser feito não pelas agências internacionais e

técnicos, mas por aqueles envolvidos na educação, o planejamento participativo, que uma vez garantido respaldaria o processo como democrático e também questões pontuais sobre a educação para o estado nos vários níveis, e modalidades, ficou claro que na comissão havia fortes divergências baseadas nas diferentes concepções de educação e de mundo e que se expressavam nessas e em outras decisões que precisavam ser tomadas, como: a manutenção ou não do Sistema de Avanços Progressivos (SAP), instituído com o primeiro PEE e que se tinha convertido em promoção automática com nefastas conseqüências para muitos estudantes catarinenses, ou ainda, deveria ser o ensino pago ou gratuito? Haveria ou não separação entre o político e o técnico administrativo em educação? Observe-se aqui que essas são questões em pauta nas discussões teóricas da época no seio dos educadores. Uma outra questão sobre a qual divergiam os membros da comissão era pensar em um ensino para um genérico homem do ano 2000 ou para o catarinense “aqui e agora”. Havia consenso que era necessário democratizar a educação. Mas o que isso significava? O que se entendia por democracia? O que era necessário fazer?

No geral predominava a idéia de explicação harmoniosa das sociedades e da educação, da negação do conflito (aos mais críticos, reservou-se a tradicional acusação de “comunistas”). Muito verbo foi gasto e resistências vencidas até se chegar à conclusão baseada no entendimento que para ser democrático o processo de elaboração do PEE tinha que contar com ampla participação de todos os envolvidos com a educação. Democracia significava participação. Havia experiência acumulada no estado que apontava que era necessário garantir representação fora do controle do governo, é que no ano de 1982, quando da candidatura de Esperidião Amin ao governo, tinha sido desenvolvido o “Programa de Integração”, e dentro o planejamento para a educação.

Efetivamente do Planejamento Participativo já havia alguma experiência no Estado de Santa Catarina, uma vez que tinha feito parte do “Programa de Integração”, desenvolvido durante a campanha da candidatura de Amin ao governo do estado para as eleições de 1982. Tratava-se de envolver “outros agentes” da educação no estado. Efetivamente agentes de todo o estado e para tal a estratégia de ação que a ACAFE, a UFSC e a Secretaria de Educação do Estado encontram foi a atuação desses agentes

conjuntamente com as Unidades de Coordenação Regional de Educação (UCRES) e as próprias fundações. Após as primeiras visitas a esse órgão da SE e às fundações educacionais, tinham-se constituído comissões regionais que, na maioria dos casos, eram montadas somente com representantes das UCRES e fundações. Essas comissões é que visitaram os municípios e que na maioria das vezes lideraram as discussões nas escolas. Ora, ao ser assim, ou seja: com a presença do aparelho do Estado e de pessoas que freqüentemente eram as mesmas que estavam nas fundações e nas UCRES, o planejamento não deixou de ser controlado pelo Estado. Essa era uma questão importante que se apresentou quando da elaboração, após as eleições, e sobre forte pressão do movimento dos educadores, do PEE e sobre a qual muitas falas foram feitas. Na verdade quis-se garantir uma diminuição do controle do Estado. O Programa de Integração realizado num período de campanha oficial (da candidatura Amin), já que o propalado era ouvir as comunidades em suas reivindicações, tinha trazido ensinamentos quanto à representatividade dos agentes no planejamento e na elaboração do Plano. E mais, tinha-se visto que os produtos de todas as discussões realizadas – os relatórios, compatibilizados em Florianópolis, em dezembro de 1982, com a presença de representantes regionais e finalmente entregues ao futuro governador (Amin), em janeiro de 1983, não tinham sido levados em conta. O governador fez do documento final pouco caso, conforme expressa o documento final do Planejamento Participativo, é que:

Como não se organizou nenhum mecanismo que pressionasse o novo Governo que se implantava a considerar os problemas educacionais apontados, os resultados deste trabalho não foram levados em conta em nenhum momento pela administração Amin, embora este, como expediente de campanha, tenha proclamado a necessidade da participação popular na definição das políticas governamentais. E o próprio Amin, enquanto candidato, usou um mecanismo de consulta, A Carta aos Catarinenses, destinado a colher subsídios para seu futuro governo. (AMORIM et al., 1986, p. 20).

Essa maneira de fazer de conta, promover, ao mesmo tempo em que controlava o ouvir e não levar em conta o que era, assim mesmo falado, tem sido característica do regime oligárquico catarinense.

E o governador concordaria, agora, depois de ter tomado posse, com o deslanchar de um amplo processo que englobaria amplos setores e, sobretudo, as escolas nos vários níveis? Ele mesmo que recorria a estratégias para desbaratar o movimento dos educadores como acusar as suas lideranças comprometidas com outros interesses que não os da educação, ele mesmo que com amplo amparo da imprensa promovia a cizânia no seio do movimento de forma que desbaratasse os professores mais tímidos ou inseguros, ele mesmo representante dos interesses oligárquicos que através dos diretores de escola – cargos de confiança – ameaçava os mais frágeis, como ia concordar? Em contrapartida, como não aceitar a maior participação já que no seu programa de governo amplamente divulgado, “A Carta dos catarinenses“, anunciava seu objetivo de “prioridade aos pequenos”? Tendia ele a um relacionamento abstrato e tênue com os setores populacionais “pequenos” da sociedade catarinense? O próprio contexto histórico de fim do Regime Militar e o movimento de educadores não lhe possibilitaram refugiar-se na ambigüidade e no protelamento da decisão, mas resistiu quanto ao aumento salarial defendido pelo movimento grevista. Amin cedia na participação política e resguardava os aparelhos do Estado ao controle de interesses outros que não os dos pequenos. Senão como garantir a transferência de recursos do Estado às empresas? E cujos mecanismos para tal objetivo foram as isenções de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), juntamente com a ação direcionada do Sistema Financeiro Estadual. No período de governo em análise, os créditos à iniciativa privada totalizaram 1 bilhão de dólares (MICHELS, 1998, p. 200).

No interior da própria comissão, constituída para a elaboração do plano, houve resistências à idéia de ampliação da discussão. Alguns discordavam uma vez que o Planejamento Participativo já tinha sido feito. Referiam-se os que assim se posicionavam às ações desencadeadas pela ACAFE, pela SE e pela UFSC que resultaram do Programa de Integração entre as Fundações Educacionais e o Ensino de 1o e 2o Graus, do qual fazia parte o Planejamento Participativo. Entretanto, entendia a comissão que “ao momento presente interessa menos o produto acabado, elaborado por um grupo, por mais representativo que seja, do que um processo participado por todos” (AMORIM et al., 1986).

A partir de 1980 e no contexto da abertura política do regime ditatorial, o MEC, para a elaboração do III Plano Setorial de Educação, Cultura e Desporto (1980-1985), promoveu seminários com a participação das secretarias de educação e de outros órgãos ligados à educação dos diversos estados da federação. O que se colocava no momento era o perigo de se elaborar um planejamento que fosse “uma fabricação estranha, elaborada friamente nos laboratórios e nos gabinetes de Brasília” (pronunciamento do senhor ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portella, na abertura do Seminário sobre Política e Planejamento da Educação e Cultura, apud AMORIM et al., 1986, p. 17). Na verdade, o Planejamento Participativo era uma nova estratégia de envolvimento de pessoas e órgãos na política do MEC. “Tratava-se de ampliar os espaços de participação e de co- responsabilidade. Se na década de 1960 ele era feito com a assessoria de técnicos, agora esta assessoria era dispensável. Pretendia-se, então, ouvir os estados para que estes pudessem descrever a sua realidade, iniciando-se assim um processo de descentralização do planejamento”. O que se pregava era que “esse enfoque participativo de descentralizador buscava inaugurar uma nova linha de planejamento do MEC com o processo de formulação e execução de planos, programas e projetos também nas mãos dos estados, municípios e comunidades” (Ministério da Educação e Cultura apud AMORIM et al., 1986, p. 180).

Foi nesse cenário que o terceiro Plano de Educação de Santa Catarina foi organizado e nele os professores defenderam a oneração do Estado para a sua formação.