Parte 1. Enquadramento teórico
2. O contexto
2.1 eLearning
O eLearning ou ensino online pode ser encarado como uma evolução ou uma abordagem mais atual da Educação/Ensino a distância (EaD), também designado por ensino aberto, onde professor e alunos não partilham o mesmo espaço físico e temporal (Wedemeyer, 1981). Vários autores, entre os quais Garrison (1985) e Bates (1991) apontam para uma constante evolução da EaD. Outros autores como Aretio, Corbella & Figaredo (2007) e Garrison e Anderson (2003) descrevem quatro gerações da EaD e Taylor (2001) identifica a quinta geração desta modalidade de ensino. Não existindo consenso relativo à evolução da Ead, temos como factos os veículos ou tecnologias que deram forma à EaD, desde a transmissão por radio frequência, à correspondência, transmissão por TV e num formato mais atual com recurso à internet designado de eLearning.
Se não existe consenso quanto à origem da EaD e à caracterização da sua evolução (Yang, 2002) e das respetivas gerações, o mesmo se passa com a terminologia, tal como é referido por Ally (2004, p.4):
“Different terminologies have been used for online learning, a fact that makes it difficult to develop a generic definition. Terms that are commonly used include e-learning, Internet learning, distributed learning, networked learning, tele-learning, virtual learning, computer- assisted learning, Web-based learning, and distance learning. All of these terms imply that the learner is at a distance from the tutor or instructor, that the learner uses some form of technology (usually a computer) to access the learning materials, that the learner uses technology to interact with the tutor or instructor and other learners, and that some form of support is provided to learners”.
Seja qual for a terminologia utilizada, o e-learning ou eLearning, onde o ‘e’ significa electronic, é uma modalidade de ensino a distância ou complemento ao ensino presencial, que utiliza a tecnologia como plataforma de aprendizagem, onde
são disponibilizados conteúdos digitais e desencadeadas interações recorrendo a diferentes meios, conforme referem Laurillard (2008, 2002) e McGreal & Elliott (2004). Recorrendo a ferramentas de comunicação e interação assíncrona como o Fórum ou outras ferramentas colaborativas, a comunidade de estudantes e instrutor interagem em momentos diferentes não sendo necessário simultaneidade temporal, possibilitando a cada um participar ao seu ritmo e conforme a sua disponibilidade, de acordo com prazos pré-estabelecidos. Por outro lado, poderão também ocorrer momentos de comunicação síncrona com recurso a chat, webconferência, audioconferência ou vídeoconferência, estabelecendo um contacto em tempo real entre os vários elementos da comunidade. Tal exige simultaneidade temporal na interação e comunicação escrita, oral ou visual, perdendo, por isso, a flexibilidade característica da interação e comunicação assíncrona.
Estes diferentes modos de interação e comunicação mediada por computador (CMC) potenciam diferentes momentos de aprendizagem; contudo, e de acordo com Laurillard (2002), a comunicação assíncrona permite uma maior reflexão e assimilação da informação. Também o instrutor pode tirar partido da tecnologia e dos diferentes modos de comunicação para planear atividades estimulantes e que envolvam os estudantes na aprendizagem e na aquisição de conhecimento com significado (Bonk & Reynolds, 1997). Estas atividades podem ser de carácter individual ou colaborativo ou cooperativo, dependendo do contexto e do próprio modelo pedagógico adotado: se de autoformação baseado em conteúdos ou objetos de aprendizagem (Kay, 2009; Wiley, 2000) ou se colaborativo com enfoque na comunidade de aprendizagem (Garrison, Anderson & Archer, 2000; Mason & Rennie, 2008).
Os diferentes modelos pedagógicos associados às teorias da educação e às diferentes tecnologias dão origem a diferentes abordagens ao eLearning, das quais se destacam:
b-learning (blended learning) (Dziuban, Hartman & Moskal, 2004; Garnham 2005; Bonk, Kim & Zeng, 2006) ou h-learning (hybrid learning) como referem Garnham & Kaleta (2002), El-Gayar & Dennis (2005), é um ensino misto que contempla sessões presenciais interligadas com o online. É por isso também designado de ensino híbrido;
m-learning (mobile learning) é um conceito utilizado por autores como Naismith et al. (2005), Sharples (2006) e está relacionado com a tecnologia móvel para além do uso da plataforma LMS (learning management system), sendo disponibilizados formatos de conteúdos específicos para a tecnologia móvel;
u-learning (ubiquitous learning), como refere Li et al. (2004), Rogers (2005) ou Casey (2005) caracteriza-se essencialmente por disponibilizar conteúdos para as tecnologias: TV, PC e Móvel. Pode ainda contemplar sessões presenciais. Esta abordagem é mais recente pelo que ainda não se encontram muitos estudos e documentação sobre a mesma.
e-learning 2.0, proposto por Downes (2005) que refere uma abordagem fundamentalmente colaborativa. Este conceito surge associado à web 2.0, onde a tónica está na componente social, isto é, na comunidade, e na partilha do conhecimento.
No entanto, nas diferentes gerações apontadas, assim como nas diferentes abordagens ao eLearning, está sempre presente a dicotomia entre tecnologia e pedagogia a que Anderson (2009) designou como sendo uma “dança” onde “The technology sets the beat and the timing. The pedagogy defines the moves” (ibid., p.2). Este autor considera que existem 3 gerações de eLearning onde a “dança” assume formas e ritmos diferentes: a primeira geração marcada por uma dança individual onde o estudante é livre de interpretar os conteúdos, maioritariamente impressos, à sua maneira e no tempo que deseja com contactos pouco frequentes e por correspondência com o instrutor; numa segunda geração e dada a massificação dos media, nomeadamente a televisão, a que Anderson designa por “orquestra”, o estudante tem ao dispor novas formas e formatos de transmissão dos conteúdos mas continua a ser um aprendente passivo; na terceira geração com as tecnologias que suportam a interação síncrona e assíncrona, os estudantes passam a ter um papel ativo, interagindo com os diferentes formatos de conteúdos e com todos os elementos da comunidade de aprendizagem de forma a construírem o seu próprio conhecimento.
Nestas 3 gerações apontadas por Anderson estão implícitas as diferentes teorias de aprendizagem conforme é apontado por Anderson e Dron (2011) - Cognitivismo-Behaviourismo mais marcante numa era pré-web; Socio- Construtivismo que floresceu na era da web 1.0; Conectivismo como resultado da web 2.0. Estes autores consideram que estas teorias de aprendizagem definem no mínimo 3 gerações de pedagogia do ensino a distância, referindo que uma nova geração está a emergir desencadeada por preocupações com a privacidade e qualidade da informação, desenvolvimento da inteligência artificial como a prospeção de dados (data mining) e análise de dados (analitycs) assim como a sustentabilidade na “nuvem” (cloud).
No que respeita à inclusão e acessibilidade no eLearning, parte-se do prossuposto apontado pelo “pai” da web que o grande potencial da internet é a sua universalidade (Berners-Lee, 1997), pelo que o seu acesso não deve estar vedado a nenhum cidadão, qualquer que seja a sua incapacidade. Com base nesta premissa encontramos várias abordagens ao eLearning acessível que poderão estar dependentes do modelo pedagógico utilizado e dos próprios conceitos de inclusão e de acessibilidade assumidos pela instituição de ensino. Alguns autores como Lee, Kumar & Barker (2010), Musamba, Oboko & Nyongesa (2013) defendem um modelo centrado no utilizador - onde o interface da plataforma e os conteúdos são apresentados conforme as definições aplicadas no perfil do utilizador. Esta abordagem poderá ser particularmente interessante quando o modelo pedagógico adotado for o de autoformação.
Uma outra abordagem, que pode estar associada ao eLearning acessível ou inclusivo, assenta nas premissas de um modelo de aprendizagem pluralista defendido por alguns autores como Berner (2012) e Giselbrecht (2009). Este modelo, centrado no estudante, aposta na diversidade: desde os variados aspetos culturais aos diferentes estilos de aprendizagem. O paradigma do modelo pluralista aplicado ao eLearning assenta na diversidade dos conteúdos, diversidade de estratégias pedagógicas, diversidade de estudantes e diversidade de tecnologias. Esta abordagem poderá ser particularmente interessante quando aplicado um modelo pedagógico colaborativo ou corporativo.
Contudo, Brown & Mirri (2013) consideram que a maioria da investigação em torno do eLearning acessível se debruça essencialmente no perfil do estudante, na sua interação com os conteúdos e na forma como adquire conhecimento, com a plataforma que veicula o processo de ensino-aprendizagem e a sua operabilidade com os produtos de apoio ou outras tecnologias, assim como questões relacionadas com a comunicação e interação com a comunidade. Estes autores levantam questões relativamente ao perfil do professor que apresenta necessidades específicas ou utiliza produtos de apoio e as dificuldades que surgem na interação com as diferentes funcionalidades das plataformas LMS, na produção de conteúdos em diferentes formatos que respondam às variadas necessidades dos estudantes ou, até na comunicação e interação com os estudantes, seja em modo síncrono ou assíncrono.
Estes temas que envolvem o eLearning acessível deram recentemente origem à norma ISO/IEC 20016 (2014) que apresenta um modelo estrutural para a interoperabilidade semântica para aplicações EaD.
Partindo destas diferentes abordagens, Francisco et al. (2014) apresentam uma proposta esquemática de um modelo de eLearning inclusivo e acessível, de acordo com a Figura 3.
Figura 3: Fatores e variáveis a considerar no modelo proposto10.
Os autores consideram as plataformas institucionais de gestão do ensino- aprendizagem, os conteúdos e a comunicação e interação entre os conteúdos e a comunidade como sendo fatores estruturais do eLearning. No entanto, para que o eLearning seja mais inclusivo e mais acessível estes fatores estruturais estão dependentes das seguintes variáreis: equipa envolvida, normas de acessibilidade e modelo pedagógico adotado.
Existem, sem dúvida, muitos conceitos, abordagens e modelos em torno do eLearning. Por não existir consenso e por alguns termos colocarem a tónica na tecnologia e não na pedagogia, utilizo o termo eLearning, com a supressão do hífen
10 Fonte: (Francisco et al, 2014)
e capitalização da letra L, para especificar esta modalidade de ensino onde o prefixo “e” significa o contexto de aprendizagem ou o veículo que recorre à tecnologia para criar um ambiente virtual e formal de aprendizagem, veiculado pela Internet, e onde o enfoque está no “L” de Learning, ou seja, na aprendizagem.
Desta forma, e no âmbito deste trabalho, considera-se que o eLearning é uma modalidade de aprendizagem cujo processo é veiculado por meios eletrónicos, sendo flexível por não requerer simultaneidade de espaço e tempo dos participantes (estudantes e professor). Considerando esta flexibilidade de tempo e espaço, a diversidade de tecnologias e ferramentas disponíveis para esta modalidade de ensino, assim como as estratégias pedagógicas que apelam à diversidade dos elementos da comunidade para a construção do conhecimento, pode-se considerar que o eLearning dispõe de todas as condições para ser inclusivo e acessível.