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Por Cássio Caetano Gusson Schiavi em 10/10/2006 (...)

Falta de tato

Em sua coluna, o ombudsman Marcelo Beraba expôs muito bem as falhas da Folha, que descumpriu inclusive normas de seu Manual de Redação, mas toda a mídia impressa cometeu os mesmos erros, prestando, de certa forma, um desserviço à opinião púbica nesta eleição.

Elogiáveis nos jornais as entrevistas, os artigos e as sabatinas, que colaboraram para a formação de opinião sobre os candidatos, mas um fato não anula o outro.

As revistas de grande circulação, ditas “formadoras de opinião”, há muito já se tornaram mero entretenimento, sem nenhuma credibilidade. Pautadas pelo mercado e publicando aquilo que as torna mais vendáveis – cujo conteúdo é discutível, seja pela falta de aprofundamento na discussão dos temas, seja pela parcialidade adotada nos textos – seguem modelo de jornalismo que em nada difere do papa das artes Assis Chateaubriand, como dizia Glauber Rocha, que usava sua máquina comunicacional como instrumento de favorecimento pessoal e manipulação de opinião, fazendo um jornalismo totalmente isento de responsabilidade social.

É lamentável que uma destas revistas esteja envolvida no esquema do “dossiê”, exacerbando assim a mediocridade que vem assolando o meio.

Quanto à mídia televisiva, a TV Globo mais uma vez mostrou sua total falta de tato no que se refere à política e à necessária isenção nessa área. O último debate na emissora mostrou que o “Padrão Globo de Jornalismo” é contestável e partidário. Assistimos a uma reprise mesquinha do documentário Muito além do Cidadão Kane. Como veículo de comunicação sério e de maior público, a Globo não poderia ter adotado a posição do último debate.

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(Ano 11, ed. Nº 402, 10/10/2006. Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br>)

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ELEIÇÕES 2006

Relações mais do que intrincadas Por Selma Tronco em 10/10/2006

Na Grécia Antiga, o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) chegou à conclusão de que para o exercício da política era necessário bom domínio de outra área do conhecimento humano: a comunicação. Desde então, ninguém ousou criticar essa afirmação. É inegável, porém, que a partir do surgimento e do crescimento dos mass media ocorreu alguma modificação nesse paradigma: na virada do século 20 para o 21, a comunicação se sobrepôs à política.

Uma das razões para a concretização dessa mudança relaciona-se à expansão da sociedade e a constatação de que os feitos só existem no momento em que são comunicados. Com isso, a divulgação de ideologias, atos políticos e candidatos deve passar, necessariamente, por algum veículo de comunicação de massa – que pertence a um dono. Essa pessoa tem total liberdade para selecionar o tipo de informação que deseja transmitir, bem como o modo de se fazer isso.

Um exemplo simples dessa manipulação de consciências é a prática de evidenciar os aspectos positivos de um candidato e noticiar os fatos que prejudicariam a imagem de outro. Esse cenário se enraizou de forma profunda no Brasil a medida em que a maioria dos donos de empresas de comunicação exercem, direta ou indiretamente, alguma atividade política.

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(Ano 11, ed. Nº 402, 10/10/2006. Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br>)

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ELEIÇÕES 2006

Debate da Band, E o vento levou (II) Por Deonísio da Silva em 10/10/2006

Seja qual for o resultado das eleições presidenciais, é bom que os brasileiros releiam o livro E o vento levou, de Margareth Mitchell. Ou dêem um jeito de assistir ao DVD do filme homônimo, pois o debate havido entre Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (8/9) mostrou os dois Brasis de que tanto falam conhecidos sociólogos. Com uma diferença: agora o conflito está posto!

Até agora, um dos Brasis submetia-se ou era submetido ao outro, com leves intervalos de governos interessados no que se convencionou chamar de nacional.

Naturalmente o presidente Lula exagerou ao dizer no debate, dirigindo-se a Alckmin,

“vocês governam este país há 400 anos”, e ouvir do oponente que o PSDB não existe há tanto tempo. Mas o que ele tem em mente quando diz e repete seus sofismas é que representa um presidente diferente de todos quantos governaram o Brasil, por se achar o que mais deu atenção aos pobres. Esquece-se de Getúlio Vargas, de João Goulart, de Juscelino Kubitscheck e até da ditadura militar, que complicou a Previdência ao criar aposentadorias para quem jamais contribuiu.

Esquece-se também de que algumas redes de proteção social que manteve e aperfeiçoou foram criadas pelo antecessor, um verdadeiro carma do atual presidente, uma alma penada que está sempre sendo invocada para ser detratada nas comparações. Lula não parece que disputa com Alckmin, e, sim, com FHC.

(...) Debates, sempre

As massas querem entrar para a universidade? Sejam- lhe dados os cursos, de preferência entrando sem vestibular que examine méritos, competências específicas e vocações. No lugar de tais seleções, um maço de quotas de todos os tipos, de preferência aquelas quotas que não podem ser discutidas sem se resvalar para o perigoso caminho da desagregação nacional, instilando ódio racial, ódio de quem estuda e quer ascender socialmente por méritos, ódio a tudo que não seja benesse. Mas, enfim, conquistado o diploma de algum tipo de curso superior, não serão mais do que desempregados com curso superior.

Enfim, não houve debate. Houve troca de acusações para se dizer que cada um tem tais e quais defeitos. Provavelmente os dois lados estavam certos.

Mas o problema do eleitor é outro: quem é o mais capaz para fazer com que o Brasil deixe de ser dividido em dois, entre aqueles que cada vez pagam mais impostos e os outros que precisam de favores do Estado, pagos com os recursos angariados com a carga tributária?

O governo do Brasil, como todos os governos do mundo, não produz nada. Reparte apenas.

Está repartindo mal há muitos séculos.

Tudo indica que não será ainda desta vez que a distorção será corrigida, mas uma coisa é certa: se continuar assim, vai piorar de tal modo que daqui a pouco ninguém mais suportará.

Mas quando será este dia? É triste constatar que a democracia não está resolvendo os problemas que prometeu resolver. E este é um tema perigoso demais para ser discutido em debates de televisão, com tantas restrições.

Um diz que vai vender um avião da presidência da República para com os recursos construir hospitais. A metáfora pode ser simbólica e exemplificar outro modo de gerir, mas os verdadeiros recursos para as reformas de que o Brasil tanto precisa estão em poder do pequeno estamento que vive dos juros da chamada dívida pública.

154 O vice-presidente de Lula de vez em quando bordeja o problema central do Brasil – os juros – mas certamente é aconselhado a calar-se, pois mais silencia do que revela que, como empresário, sabe bem onde aperta o sapato.

Mas de debate em debate o povo aprende. E aprendem também aqueles que debatem. É preciso multiplicá-los e realizar debates sempre, não apenas em época de eleições.

(Ano 11, ed. Nº 402, 10/10/2006. Disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br>)

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