3. Que tutela para o assistente no contexto da aplicação da medida de coacção?
3.3. A necessidade de tutela do assistente no contexto da aplicação de medidas de
3.4.3. Elemento literal – redacção do número 1 do artigo 219.º do CPP
Tanto quanto nos parece, o impedimento mais evidente à posição defendida resultaria da redacção do artigo 219.º, número 1 do CPP. Efectivamente, a letra do mencionado preceito refere apenas o arguido e o Ministério Público a propósito do recurso da decisão que aplica medidas de coacção. Em concreto, a disposição determina que: “da decisão que aplicar, substituir ou mantiver as medidas previstas no presente título, cabe recurso a interpor pelo arguido ou pelo Ministério Público, a julgar no prazo máximo de 30 dias a contar do momento em que os autos forem recebidos” (sublinhado nosso). Perante esta redacção, têm a doutrina e a jurisprudência concluído, sem mais, pela ilegitimidade do assistente para recorrer desta decisão. No entanto, estamos em crer que a norma identificada não impõe este entendimento, admitindo interpretações que se coadunem com os valores constitucionais e legais expressos na CRP e no CPP.
127 Para começar, não poderemos negligenciar os dados históricos de que dispomos acerca deste preceito. Conforme vimos(276), o artigo 219.º do CPP conheceu, desde 1987,
três versões distintas. Nesse contexto, sublinhámos que a alteração mais significativa ocorreu em 2007, pela circunstância de se ter decidido, expressamente, encarar o recurso das medidas de coacção como um mecanismo de tutela da posição do arguido. Em consequência, o MP só podia recorrer em benefício do arguido, e as decisões que redundassem na não aplicação de uma medida de coacção deixaram de ser recorríveis (cfr. ponto 3.2.2, supra). Concomitantemente, o legislador decidiu identificar claramente os sujeitos que poderiam exercer este direito ao recurso. Assim, não restam dúvidas de que a menção expressa ao arguido e ao MP pretendia reflectir a nova configuração atribuída a este momento processual, clarificando que este recurso passaria a funcionar apenas no interesse da defesa. Esse era o seu único propósito e a sua única razão de ser.
Tratava-se, por isso, de um recurso sujeito a ditames específicos, ancorados na opção assumida pelo legislador de lhe atribuir um propósito bem determinado. Atendendo a estas particularidades, o artigo 219.º do CPP pretendia regulamentar, de forma exaustiva, o regime do recurso das medidas de coacção. Com efeito, declarado o intuito de sujeitar este recurso a premissas próprias, não se compreenderia que o legislador se limitasse a remeter para as normas gerais do CPP acerca desta matéria. Dessa forma, esta disposição passou a abordar, nos seus diversos números, os vários pressupostos que haveria a observar. Em concreto, o número 1 ocupava-se da questão da legitimidade e do âmbito do recurso, limitando-o ao arguido e ao MP, em benefício do arguido; o número 2 referia- se aos efeitos da interposição deste recurso relativamente à providência de habeas corpus; o número 3 estabelecia a irrecorribilidade das decisões que indeferiam a aplicação, revogavam ou declaravam extintas as medidas previstas nesse título, excepcionando assim o regime consagrado no artigo 399.º do CPP; e o número 4, por seu turno, fixava o prazo de apreciação do recurso em 30 dias. Como se vê, esta disposição assumia uma clara pretensão holística, procurando regulamentar, na totalidade, a matéria relativa ao recurso das medidas de coacção.
Todavia, a Lei n.º26/2010 de 30 de Agosto(277) procurou distanciar-se desta opção
legislativa que concebia o recurso da decisão sobre medidas de coacção como um instrumento de protecção do arguido. Por esse motivo, eliminou a restrição imposta ao direito ao recurso do MP prevista no número 1, e restabeleceu a recorribilidade das
(276) Cfr. ponto 3.2, supra.
128 decisões que culminavam na não aplicação de medidas de coacção (anterior número 3)(278). Desta maneira, o legislador manifestou inequivocamente a sua intenção de
reconduzir o recurso sobre medidas de coacção à figura genérica dos recursos em processo penal, eliminando a sua pretérita vinculação aos interesses do arguido.
Resulta, assim, óbvio, que a actual redacção do artigo 219.º número 1 do CPP, na parte em que alude exclusivamente ao arguido e ao MP, constitui um mero resquício da versão anterior, nos termos da qual se justificava a alusão expressa a estes sujeitos. De facto, esse era um dos elementos que permitia ao intérprete concluir que o recurso de decisões sobre medidas de coacção estava vinculado a uma finalidade própria. Perante a alteração de 2010, esta menção não assume qualquer conteúdo útil já que, ao contrário do que acontecia em 2007, o artigo 219.º do CPP não mais procura regular cabalmente esta problemática. Ao invés, reclama articulação com os artigos 399.º e ss. do Código, uma vez que a mencionada disposição deixou de ser auto-suficiente. Consequentemente, a verificação dos pressupostos processuais será feita a partir das normas genéricas sobre recursos.
Em rigor, a aferição da legitimidade do arguido e do MP para recorrer da decisão que aplica uma medida de coacção será baseada nos artigos 401.º, número 1, alínea a) e b) e número 2 do CPP. O preenchimento deste requisito não se basta, por isso, com uma mera referência ao artigo 219.º, número 1 do CPP(279), diferentemente do que acontecia na
versão anterior. Nos termos descritos, a redacção de 2007 consubstanciava um regime excepcional, vinculado a objectivos específicos e que, por esse motivo, carecia de uma regulamentação própria. Nesse contexto, afastava-se o artigo 401.º, número 1 do CPP como critério de aferição da legitimidade, substituindo-o pela previsão do número 1 do artigo 219.º. Isso implicava, para o MP, uma restrição do direito de interpor recurso “de todas as decisões”, e para o arguido, uma desoneração da obrigação de demonstrar que a decisão tinha sido proferida contra ele (o que, no caso da aplicação de medidas de coacção não seria muito difícil). Até certo ponto, será viável estabelecer um paralelismo entre a evolução dos números 1 e 3 deste artigo: da mesma maneira que o anterior número 3
(278) Sobre a recorribilidade das decisões que indeferem a aplicação, revogam ou declaram extintas medidas
de coacção, à luz da alteração introduzida pela Lei n.º26/2010 de 30 de Agosto, o STJ proferiu o Acórdão Uniformizador número 16/2014 de 20 de Novembro, escrutinado em 3.2.3, supra.
(279) Prova de que o direito ao recurso destes sujeitos se encontra sujeito aos crivos da legitimidade e
interesse em agir previstos no artigo 401.º do CPP, é a circunstância de o STJ ter concluído, no Acórdão Uniformizador número 2/2011 de 16 de Dezembro de 2010 pela falta de interesse em agir do MP para recorrer de decisões concordantes com uma posição por si anteriormente manifestada no processo – cfr. nota de rodapé número 264, supra.
129 comportava, em 2007, uma excepção ao artigo 399.º do CPP e, traduz, actualmente, uma mera concretização desse preceito(280), o pretérito número 1 excepcionava, quanto à
legitimidade, o artigo 401.º, número 1 do CPP, e representa, nos nossos dias, um simples reforço dessa disposição.
Em conclusão, entende-se que a redacção do número 1 do artigo 219.º do CPP não impõe a interpretação segundo a qual o assistente se acharia, em absoluto, impossibilitado de recorrer da decisão que aplica, substitui ou mantém medida de coacção.