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5. PROCESSO CRIATIVO

5.3 Elementos Cênicos e material gráfico

um momento de relação direta com o público, incluindo-o também na cena através das intenções e expressividade dos gestos dos personagens.105

Por fim, a última cena do espetáculo foi construída a partir de laboratórios de improvisação com a música composta106. Representa a construção de novas relações entre os personagens, a superação dos conflitos de relacionamento com o outro. As mãos que outrora doaram, esvaziaram-se ou atacaram, agora descobrem relações mais suaves, como o toque, o abraço, o acolher. Um reconhecimento dos outros como parceiros e não como inimigos ou causa de sofrimento e dor.

Foto 45: acolher o público, por Rodrigo Faria (2016).

Foto 46: suavizando relações, por Rodrigo Faria (2016).

105 Ver vídeo 57 (informações nas páginas 178 a 180).

106 Ver vídeo 58 (informações nas páginas 178 a 180). Foram realizados diversos laboratórios para esta

Figura 38: desenho de Diego (anjo 2 de Klee). Figura 39: desenho de Érica (anjo 2 de Klee).

Figura 40: desenho de Eliana (anjo 2 de Klee). Figura 41: desenho de Pâmela (anjo 2 de Klee).

Estrutura das cenas107

O espetáculo foi concebido a partir de pares de oposição, sinalizando duas partes dicotômicas que representam as duas imagens de anjo de Klee: conflito /solução, tensão /relaxamento, peso /leveza, doar /compartilhar, descontrole /controle, perder de si /centralizar,

escuro /claro, ruído /som. Assim é possível identificar dois blocos distintos, identificados pela troca de figurino do elenco e pela mudança na expressividade e características da movimentação.

O bloco 1 é constituído por quatro partes ou cenas: a primeira com a performance externa, em seguida o cortejo (transição do espaço externo para o interno), solo da personagem 1 (com interferência do restante do elenco no final, “ a bolha”), duos dos personagens 2 e 3, e trio dos personagens 4, 5 e 6.

O bloco 2 é constituído por 2 pequenas cenas (uma individual e outra coletiva): solo da personagem 1 com novo figurino (com inclusão do elenco no final) e cena coletiva com todo o elenco (com novo figurino). O espetáculo totaliza 40 minutos.

Bloco 1

Cena 1: performance externa (duração 12 minutos) sem música. Espaço aberto,

público livre no espaço. Luz ambiente. Apresentação dos seis personagens, relação com objetos (bacia, água, tecido, tinta, copos e garrafa, mesa e cadeira, cobertor, livro) e espaço. Momento anterior ao conflito.

Cena 2: transição (o cortejo de entrada dos personagens no espaço da

apresentação) com música 1 (6 minutos). Síntese de gestos e movimentos de identificação dos personagens. A massa amorfa sem relações internas, em deslocamento contínuo horizontal.

Cena 3: solo da personagem 1 (mulher vestida de preto com as mãos e parte

interna dos braços tingidos de vermelho) e “a bolha” coletiva da opressão (interferência do elenco na cena e retirada da personagem). Exposição do conflito. Música 2 (5 minutos).

Cena 4: duos dos personagens 2 e 3 (mulher de calça e blusa azul e mulher com

figurino de tiras roxas de tecido amarradas pelo corpo) e trio dos personagens 4, 5 e 6 (mulher de roupa social cinza, personagem com roupa preta e pena na cabeça / pulsos e homem de calça e camisa social marrom escuro). Exposição dos conflitos e dificuldades de superação. Personagem 1 realiza cena entre as cortinas do cenário e troca de figurino (sombra chinesa). Música 3 (6 minutos).

Foto 47: cena 4 duo, por Rodrigo Faria (2016).

Foto 48: cena 4 trio, por Rodrigo Faria (2016).

Bloco 2

Cena 5: solo da personagem 1 (mulher de vestido bege). A superação, recolhendo as

memórias e os “cacos”. Os outros personagens realizam a troca de figurino atrás das cortinas do cenário (sombra chinesa). “Acolhimento” das memórias e do grupo. Superação. Música 4 (3 minutos).

Cena 6: improvisação individual de todos com os temas: silenciar, interiorização,

simplicidade, leveza. Improvisação estruturada: acolher / compartilhar. O toque, o afeto. Música 5 (5 minutos).

5.3 Elementos cênicos e material gráfico

Trilha sonora

Estrutura da música 01 (Cortejo – Érica Alves): 06:10 minutos

parte 1 – marcações de batidas / pulso até o corte (neutro, quase sem movimentos)

parte 2 – apresentação do tema até o inicio da parte melódica (mudanças de direção e níveis) parte 3 – parte melódica (movimentação interna, maior amplitude e velocidade)

Figura 42: estrutura música 01.

Estrutura da música 02 (Apelo – Baden Powell / arranjos Yo-Yo Ma / edição Érica Alves): 4:55 minutos

parte 1 (Tema A) – torções mãos e costas

parte 2 melódica (Tema B1) – nível baixo e médio

parte 3 melódica (Tema B2) – nível alto com final (entrada do grupo) parte 4 bossa nova (Tema C) – a “bolha”, interações de opressão final – saída do cortejo

Figura 43: estrutura música 02.

Carneiro/ arranjos Yo-Yo Ma / edição Érica Alves): 6:26 minutos

Parte A – piano (duo Renata e Pâmela)

Parte B – melódica (entrada Eliana na queda do duo, entrada de Érica na saída de Pâmela) Parte C – altos e baixos (entrada Diego, construindo relação com Eliana)

Parte B1 – encontro Érica e Diego no chão Parte A1 – continuidade das cenas do trio

Parte B2 – saída de Eliana, em seguida de Érica. No final da cena de Diego, entrada de Juliana

Figura 44: estrutura música 03.

Estrutura da música 04 (A lenda do caboclo – Villa-lobos / arranjos Yo-Yo Ma / edição Érica Alves): 03:11 minutos

introdução – limpeza das mãos e braços

melodia 1 (Tema A) – carinho no cabelo / desnudamento do rosto cordas (Tema B e C) – improvisação livre pelo espaço

parte rápida (Tema D) – improvisação

lento (Tema E) – ida para o chão/ relação carinho com o cabelo

melodia 2 (Tema B1) – pegar as lembranças em todas as direções / acolher o grupo / recolher os cacos

final (Tema A1) – recolher, trazer para si

Figura 45: estrutura música 04.

Estrutura da música 05 (Anjo novo 1 – Érica Alves): 04:55

Introdução (Tema A, A1 e A2) – improvisação individual sem deslocamentos Acordes (Tema B) – improvisação individual com deslocamentos

Dedilhados (Tema C) – corredor sagital com gestos dos personagens resignificados (compartilhar com público)

Graves (Tema D) – formação do bloco Final - toque / acolher / afeto

Figura 46: estrutura música 05.

Figurinos

A proposta dos figurinos se apresenta como dois blocos opostos: o primeiro, com figurinos compostos por uma única cor para cada um dos integrantes, com cores escuras, como por exemplo, preto, cinza, marrom, azul, roxo. Cada personagem foi definido com seu figurino próprio, relacionando de alguma maneira às movimentações e expressividade dos intérpretes e com os desenhos elaborados por eles a partir da primeira obra de Klee. 108

Foto 49: figurinos do espetáculo, por Juliana Passos (2016).

Foto 50: figurino, por Renata Volpato (2016).

A personagem feminina de cabelos soltos e longos criada por Juliana Passos se apresenta com um vestido preto longo, frente única, com as costas descobertas porque toda a cena inicial de seu solo ocorre de costas e há um trabalho expressivo com as mãos nas costas que precisava ser destacado109. A personagem de Érica Alves surge como uma punk com bota e blusa de renda e meias. Há a presença de penas amarradas no pulso como uma referência à movimentação em cena e a ponta da asa do anjo de Klee, escolhida pela intérprete-criadora para seu processo criativo.

A personagem feminina de Eliana Mônaco é identificada como uma executiva de salto alto e roupa social cinza escuro (saia e camisa) e de Diego Alexandre como um homem de calça social e camisa marrom escuro. A personagem de Pâmela Raizia utiliza um tecido roxo retorcido e amarrado em seu corpo, como uma referência à movimentação sinuosa e tensa e aos desenhos circulares elaborados pela intérprete-criadora. Já a de Renata Volpato utiliza a cor azul royal com uma calça indiana (com as laterais abertas como “asas”) e uma camiseta com transparência.110

O segundo bloco é composto por figurinos de cores claras, como bege ou creme, com leveza (vestidos, camisolas, camisas, etc). É importante para as cenas a exposição da pele dos intérpretes-criadores, devido à própria proposta de encenação. A oposição temática dos dois blocos é refletida no contraste dos figurinos claros e escuros. Optou-se também por

109 Ver foto 50 na página 144 e fotos 37 e 38 na página 120. 110 Ver fotos 42 a 44, 47 e 48, nas páginas 133 a 140.

rendas e bordados em todos os dois blocos de figurinos para criar uma ligação entre eles.111

Foto 51: figurinos, por Diego Alexandre (2016).

Cenário e objetos cênicos

Estabeleceu-se uma parceria com uma artista convidada para criação e confecção do cenário do espetáculo112: cinco cortinas brancas transparentes, dispostas no fundo do palco, com figuras pintadas a partir dos desenhos do grupo inspirados na primeira obra de Klee, além das próprias obras de Klee e do material gráfico do espetáculo.

Estas cortinas são utilizadas também para a troca de figurino e efeito de sombra chinesa no momento de transição entre o bloco 1 e 2 do espetáculo. Há também, no bloco 2 uma “chuva” de papéis dourados picados que simbolizam a libertação das amarras e ao mesmo tempo são metáforas para as lembranças e para o ato de “recolher os cacos e recomeçar”.

Na cena inicial, composta pela performance externa, há também a utilização de objetos cênicos que se relacionam com o processo de criação e vivências pessoais dos intérpretes-criadores, e que identificam a história de cada personagem como, por exemplo, o espelho e a tinta vermelha (representando a perda da identidade e o sofrimento gerado pelo ato de se doar), tecidos e água (representando as amarras, as tensões), mesa, cadeira e utensílios de jantar (cenário para a cena de espera cujo convidado não aparece), entre outros objetos.

111 Ver fotos 45 e 46 nas páginas 137 e foto 51 na página 145.

Figura 47: croqui do cenário, por Roberta Santana (2016).

Mapa de palco (cenário e objetos cênicos)

Mapa de Iluminação

Roteiro de luz / som / contra regragem

CENA 1 (cortejo) Abre portão, solta MÚSICA 1 e acende CORREDOR 1 e PLATÉIA (após

público entrar, fechar o portão).

Quando o cortejo virar para esquerda: acende CORREDOR 2 e apaga o CORREDOR 1. Quando o cortejo virar pra direita novamente: mantêm o CORREDOR 2 e apaga PLATÉIA. No final, quando o cortejo for saindo: fade out CORREDOR 2 e fade in FOCO CENTRAL P.

CENA 2 (solo juliana) Mantêm FOCO CENTRAL P (MÚSICA 2)

Após puxar cabelo pra cima e começar a cair para os lados: trocar para FOCO CENTRAL G (entrada do restante do elenco).

Quando desmancha a bolha: fade out do FOCO CENTRAL G e fade in dos CORREDORES 1 e 2

CENA 3 (solos) Acender um pouco de CONTRA BRANCO e GERAL ÂMBAR (fraco).

Mantêm os CORREDORES 1 e 2.

CENA 4 (solo juliana) Limpando a tinta dos braços (MÚSICA 3).

Mantêm CONTRA BRANCO e CORREDORES, apaga GERAL AMBAR, acende um pouco GERAL BRANCA (fraco)

Quando acariciar o cabelo e mostrar o rosto: CHUVA de papéis (central). Quando inicia o deslocamento pelo espaço, acende as 5 SOMBRAS CHINESAS.

À medida que for tirando as pessoas de trás das cortinas, ir apagando as SOMBRAS CHINESAS e CHUVA de papeis total.

Quando todos estiverem fora da cortina: apagar CORREDORES e aumentar GERAL BRANCA e CONTRA BRANCO.

CENA 5 (final) (MUSICA 4) Mantêm GERAL BRANCA E CONTRA BRANCO.

No final quando todos estiverem no centro: fade out música e da luz.

Acender GERAL BRANCA para agradecimentos e depois LUZ SERVIÇO (abrir portão para saída da plateia).

Material gráfico

Figura 50: cartaz 1, por Diego Alexandre de Souza (2016).