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1 BASES PARA A COMPREENSÃO DO CONCEITO DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL

1.2 TURISMO, TRABALHO, EDUCAÇÃO E POLÍTICA

1.2.2 Elementos conceituais do trabalho

De forma simplificada, Silva (2014, p. 41) entende “o trabalho enquanto uma relação estabelecida entre homem e natureza. Seu processo se torna possível à medida que o homem interage, se apropria e transforma o meio que está inserido”. Nesta definição é possível destacar a atividade humana e o uso da natureza – dois dos elementos teorizados por Marx como componentes do trabalho. De acordo com o autor: “Os elementos simples de todo o trabalho são: 1º) a atividade pessoal do homem propriamente dito; 2º) o objeto em que se exerce o trabalho; 3º) o meio pelo qual se exerce” (MARX, 2010, p. 71). Especificamente o primeiro elemento aponta para a dimensão individual do trabalho, para o processo realizado pessoalmente por cada ser humano.

A atividade pessoal do homem é um gasto de forças, das quais seu corpo está dotado. O resultado dessa atividade existe, antes do gasto de força, no cérebro do homem, não sendo outra coisa que o propósito para cuja realização o homem aplica a sabedoria à sua vontade. A obra exige, enquanto dura, além do esforço dos órgãos em ação, uma atenção meticulosa que só pode resultar de um esforço constante de vontade, e o exige mais quando o trabalho lhe parece menos atrativo, pelo seu objeto e pelo seu modo de execução (MARX, 2010, p. 71).

Dentre os modos de organização social da produção, o trabalho, enquanto processo individual, é mais fácil de ser dissociado da dimensão social (somente para fins de análise, pois não o é por completo) nas chamadas economias de subsistência. Este modo caracteriza-se como “um sistema de produção de bens materiais voltado para satisfação de uma gama limitada e pouco cambiante de necessidade materiais e imateriais” (MANFREDI, 2016, p. 23) e dada sua restrição de escala da produção, o trabalho aparece mais voltado à dimensão individual do que em outras formas de organização social mais complexas.

Por outro lado, Marx, tratando de sociedades capitalistas, argumenta que, mesmo que as atividades de trabalho atendam a vontades individuais sem pretensão de contribuição para a

sociedade como um todo, “as diversas especialidades de trabalhos úteis manifestam-se como partes, que se complementam entre si, do trabalho geral destinado a satisfazer a soma de necessidades sociais” (MARX, 2010, p. 49). O autor define, ainda, que o trabalho é uma atividade social, tanto pela relação interpessoal que demanda sua execução, quanto pelo sistema de trocas que mede o valor de todas as atividades ante a um parâmetro comum:

Dessa maneira, trabalhando os homens uns para os outros, as suas obras privadas revestem, por essa única razão, um caráter social; porém, essas obras têm também um caráter social pela sua semelhança no conceito do trabalho humano em geral, não aparecendo essa semelhança mais que na troca, isto é, em uma relação social que os coloca frente a frente, sob uma base de equivalência, não obstante a sua diferença natural (MARX 2010, p. 50).

Fica clara, portanto, a relação dialógica entre as dimensões individual e social do trabalho: o trabalho não é apenas a atividade de um indivíduo para si ou dele para a sociedade, mas ambos. O valor individual e social do exercício do trabalho são concorrentes – quanto mais se trabalha para si, menos se trabalha para a sociedade e vice-versa – mas também são complementares – o trabalho da sociedade beneficia o indivíduo e o trabalho do indivíduo beneficia o restante da sociedade. Esta relação é também hologramática, na medida em que o trabalho de cada indivíduo compõe e supre as necessidades do social, ao mesmo tempo em que a categoria social trabalho só existe a partir das atividades individuais.

Uma definição que contempla a dialógica do conceito é dada por Manfredi (2016, p. 20): “Desde os tempos mais remotos na história das civilizações humanas, o trabalho é uma atividade social central para garantir a sobrevivência de homens e mulheres e para a organização e o funcionamento das sociedades”. Está presente nesta definição tanto a função do trabalho em nível individual – a sobrevivência – quanto em nível social – organização da sociedade.

Outra perspectiva que comporta a dialógica do conceito de trabalho é a que trata sobre a relação entre trabalho e emprego. Manfredi constata que o “termo ‘trabalho’ normalmente vem associado à ideia de emprego” (2016, p. 19), porém, de acordo com a autora: “Conceitualmente, existe uma diferença entre ‘trabalho’ e ‘emprego’” (2016, p. 34). Nascimento, por sua vez, expõe esta diferença ao indicar que tais conceitos representam “duas categorias diferentes, pois enquanto trabalho é uma condição inerente ao homem, o emprego é uma situação socialmente determinada que implica ter condições e direitos assegurados” (NASCIMENTO, 2015, p. 104). Assim, o conceito de emprego não diz respeito unilateralmente à atividade humana considerada trabalho, mas a estruturas sociais de regulação do uso da força de trabalho pelos indivíduos. Manfredi explicita as características do emprego assalariado:

No assalariamento, o trabalhador troca sua capacidade de trabalho por um salário, uma remuneração, cujos valores, em geral, são estipulados pelo mercado. O trabalho assalariado é regido por um contrato formal, que estipula o regime, a duração da jornada, o tempo de permanência, enfim, aqueles direitos e obrigações contratuais formalmente regulamentadas e legalmente estabelecidas (MANFREDI, 2016, p. 30).

O trabalho assalariado e o emprego (da força de trabalho), como se expressam atualmente, são constructos do sistema capitalista. De acordo com Manfredi (2016, p. 30): “Nas sociedades capitalistas contemporâneas, o trabalho assalariado é a modalidade corrente. Apesar disso, ainda persistem outras formas, como o doméstico e o trabalho por conta própria (ou autônomo)”. É preciso destacar que esta última concepção de trabalho autônomo diz respeito a uma categoria de formalidade de empregos dentro do sistema capitalista – diferente da concepção de trabalho autônomo que está ligada à independência do trabalhador frente ao sistema ou a outro ser humano.

Trabalho e emprego são, também, categorias dialógicas. Opõem-se, dado que o trabalho é toda a atividade humana, enquanto emprego é uma relação social datada de um período histórico. Porém, também se complementam: no contexto histórico-social atual, emprego é o exercício do trabalho e trabalho se manifesta, majoritariamente, através do emprego. A inter- relação entre ambas vai ser expressa, ainda, na ideia de mercado de trabalho – ao mesmo tempo espaço do exercício do trabalho da sociedade e palco da regulação político-social dos empregos. Em suas expressões individual e social, assumindo ou não a formatação histórica de emprego, o trabalho pode ser visto a partir dos significados e usos que lhe são atribuídos.

Nascimento (2015, p. 100) coloca que, em sua concepção geral, é o “trabalho concreto que possibilita ao homem a construção da sua sociabilidade, das suas condições materiais de existência, enquanto trabalho indissociável da condição humana”. Na medida em que apresenta o trabalho como aspecto sempre presente no ser humano, esta concepção o aponta como fator do próprio desenvolvimento humano. O trabalho, portanto, é entendido como uma atividade que permite ao ser humano sobreviver, se organizar em sociedade e se entender como humano. Marx aponta, por sua vez, o trabalho como forma de distinção do ser humano:

O engendrar prático de um mundo objetivo, a elaboração da natureza inorgânica é a prova do homem enquanto um ser genérico consciente, isto é, um ser que se relaciona com o gênero enquanto sua própria essência ou [se relaciona] consigo enquanto ser genérico. É verdade que também o animal produz. Constrói para si um ninho, habitações, como a abelha, castor, formiga etc. no entanto, produz apenas aquilo que necessita imediatamente para si ou

sua cria, produz unilateral[mente], enquanto o homem produz universal[mente]; o animal produz apenas sob o domínio da carência física imediata, enquanto o homem produz mesmo livre da carência física, e só produz, primeira e verdadeiramente, na [sua] liberdade [com relação] a ela; o animal só produz a si mesmo, enquanto o homem reproduz a natureza inteira; [no animal,] o seu produto pertence imediatamente ao seu corpo físico, enquanto o homem se defronta livre[mente] com o seu produto. O animal forma apenas segundo a medida e a carência da species à qual pertence, enquanto o homem sabe produzir segundo a medida de qualquer species, e sabe considerar, por toda a parte, a medida inerente ao objeto; o homem também forma, por isso, segundo as leis da beleza (MARX, 2008, p. 85, inserções do tradutor).

Essa concepção de Marx carrega, ainda, a visão de exercício autônomo do trabalho pelo ser humano – independentemente do instinto animal e do subjugo de outros humanos. Dessa forma, nesta primeira visão o trabalho possui significados associados a autonomia e desenvolvimento dos seres humanos.

Em contrapartida, Manfredi – entendendo que as expressões do trabalho “vão se construindo e reconstruindo ao longo da história das sociedades humanas, variando de acordo com os modos de organização da produção e de distribuição de riqueza e poder” (MANFREDI, 2016, p. 21) – aponta como as tais características do trabalho perdem relativa relevância:

Transformações importantes vão ocorrer nas sociedades humanas e nas formas de organização do trabalho quando da produção de subsistência se passa para a produção para a troca, para os mercados. [...] Nesse momento histórico ocorre um processo de metamorfose e do trabalho que, de autônomo e independente passa a ser assalariado, dependente e sob o controle do capital. São as grandes transformações econômicas e técnicas que surgem com a gênese e o desenvolvimento do capitalismo, como modo de produção e distribuição de riquezas, por volta dos séculos XV e XVI, na Europa (MANFREDI, 2016, p. 25)

A autonomia do trabalho dá lugar, assim, à dependência – tanto da inserção no sistema capitalista quanto de outro ser humano, o capitalista. Tratando da percepção negativa do trabalho pelo trabalhador, associada a sofrimento e restrição de liberdade, Marx conclui que:

O seu trabalho não é portanto voluntário, mas forçado, trabalho obrigatório. O trabalho não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio para satisfazer necessidades fora dele. [...] Finalmente, a externalidade (Äusserlichkeit) do trabalho aparece para o trabalhador como se [o trabalho] não fosse seu próprio, mas de um outro, como se [o trabalho] não lhe pertencesse, como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro (MARX, 2008, p. 83, grifo do autor, inserções do tradutor).

O autor aponta também como característica do trabalho, a partir do sistema capitalista, o estranhamento. De acordo com Marx (2008, p. 80, grifo do autor): “O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral”. Este processo de conversão do trabalhador e sua atividade, em si, em mercadorias se dá através do estranhamento do trabalho. O exercício do indivíduo e seu resultado são dissociados de significado para si e para a sociedade.

Examinamos o ato do estranhamento da atividade humana prática, o trabalho, sob dois aspectos. 1) A relação do trabalhador com o produto do trabalho como objeto estranho e poderoso sobre ele. Esta relação é ao mesmo tempo a relação com o mundo exterior sensível, como os objetos da natureza como um mundo alheio que se lhe defronta hostilmente. 2) A relação do trabalho com

ato da produção no interior do trabalho. Esta relação é a relação do

trabalhador com sua própria atividade como uma [atividade] estranha não pertencente a ele, a atividade como miséria, a força como impotência; a procriação como castração (MARX, 2008, p. 83, grifo do autor, inserções do tradutor).

Desta forma, trabalho autônomo e para o desenvolvimento humano contrapõe o trabalho obrigatório e estranhado. Dialogicamente, tais visões coexistem, opostas e complementares. O trabalho estranhado permite desenvolvimento humano – ainda que não o ideal – e o trabalho obrigatório não é capaz de suprimir toda autonomia do indivíduo. Dereymez aponta três aspectos do trabalho que contemplam tal relação dialógica: primeiro, fundamenta a economia e promove inserção social, mesmo em um sistema de trabalho obrigatório; segundo, determina relações entre os atores sociais, sejam elas de cooperação e solidariedade ou de competição e conflito; terceiro, é objeto de políticas públicas, que podem tanto visar o desenvolvimento humano quanto os interesses de atores específicos (DEREYMEZ, 1995 apud MANFREDI, 2016).

Portanto, na presente pesquisa, o trabalho é entendido como: atividade ao mesmo tempo individual e social, relacionadas a todo exercício humano de transformação da natureza e, atualmente, formatado pela instituição do emprego, podendo se expressar como meio de desenvolvimento humano ou de alienação para o trabalhador.

A qualificação profissional, para alcançar o campo do trabalho, precisa passar pelo campo educativo. Por isto, a seguir serão apresentadas as perspectivas relacionadas ao conceito de educação.