Os elementos condicionantes de natureza social podem ter papel significativo no processo de mudanças políticas justamente porque os agentes possuem pouco ou nenhum controle sobre eles. Esses elementos se referem ao conjunto da população em geral, e dos eleitores especificamente, que se relacionam com os agentes políticos como demandantes de políticas, programas e discursos, e pelos quais os agentes disputam os votos que garantem sua permanência e seu sucesso no campo. Devido a essa relação direta entre os políticos e seus eleitores, ou, melhor dizendo, entre os agentes políticos responsáveis pelas decisões e implementação de políticas e o conjunto da população da qual retiram votos e legitimidade por representá-los
politicamente, mudanças no perfil dessa população têm reflexos no campo político. Podemos pensar a população a partir das seguintes características: (I) sua dimensão, que diz respeito ao número absoluto de indivíduos que a compõem ou ao tamanho relativo do eleitorado (número de eleitores por cadeira); (II) sua distribuição espacial, que se refere a maneira como as pessoas estão distribuídas no território; (III) sua composição social, ou, dizendo de outro modo, as características sociais possuídas pelo conjunto dos indivíduos que compõem a população, tais como idade, gênero, etnia, religião, escolaridade, empregabilidade, entre outros.
A dimensão da população se refere basicamente ao número de indivíduos existentes. Uma população grande possui características distintas de uma população pequena, principalmente se pensarmos em termos do grau de coesão social e de sua diferenciação. Ao longo do tempo o número de habitantes de um determinado local se altera, geralmente para mais (embora o contrário também seja possível), que pode ser resultado tanto do crescimento vegetativo quanto dos movimentos migratórios. Outra questão referente à dimensão da população é o tamanho relativo do eleitorado, ou seja, da relação entre o número de eleitores existentes e o número de cadeiras disponíveis. As eleições tendem a ficar mais concorridas quanto maior for o número de votos necessários para se eleger. A dimensão da população, de modo geral, e do eleitorado, de modo particular, influi nas estratégias adotadas pelos agentes políticos no que tange aos recursos mobilizados e aos princípios de legitimação adotados. Espera-se que populações de tamanhos distintos produzam elites políticas com características distintas.
A maneira como a população se distribui pelo território é outra característica importante pois isso gera demandas distintas. O processo de urbanização dos municípios do interior paulista é o principal exemplo para explicar os impactos da distribuição espacial. Leal (1975) já antevia os impactos que a urbanização provocaria no poder dos grandes fazendeiros, e Kerbauy (2000, pp. 52-56) pontuava como um dos fatores que levaram à extinção dos coronéis. As bases de sustentação do poder coronelístico, atreladas ao mundo rural e às relações sociais e econômicas tradicionais, são alteradas pela nova feição urbana dos municípios, especialmente pelo desenvolvimento de novas atividades econômicas características do mundo urbano e da modernização das relações sociais e econômicas, sendo substituída a pessoalidade
do compadrio pela impessoalidade das relações entre patrão e empregado. O poder político dos fazendeiros agora passa a ser disputado também por agentes oriundos desse novo perfil populacional, significando que, além de um eleitorado de características novas, é também uma nova fonte para o recrutamento de elites. De fato, uma população urbana possui características distintas de uma população rural, seja em termos das formas das relações estabelecidas entre os indivíduos, das atividades econômicas realizadas (maior proeminência dos setores industrial e de serviços), e de suas demandas, especialmente no que se refere às necessidades de bens e serviços públicos para garantir o bem-estar das pessoas.
A terceira característica apontada refere-se, sobretudo, ao perfil social da população. Diferenças no que tange à idade, ao gênero, à etnia, à religião, à escolaridade e outros traços sociais, ensejam populações que se comportam de maneira distinta, e que possuem necessidades e demandas distintas. Quando analisamos uma pesquisa de opinião, com seus dados desmembrados, verificamos que geralmente as opiniões variam para cada grupo destacado, o que denota não haver homogeneidade entre os diferentes grupos. Nesse sentido, populações com características diferentes tendem a agir, politicamente, de maneira diferente, ou seja, a votar de maneira diferente. Assim, os agentes políticos precisam adotar estratégias e mobilizar recursos distintos para cada situação.
As três características, embora possamos tratá-las de maneira separada, estão inter-relacionadas e somente podemos compreendê-las em suas relações mútuas. A dimensão da população tem impacto na forma como ela se distribui no território e nas características sociais possuídas, e as mudanças em um fator produz efeitos nos demais. A dinâmica da urbanização dos municípios do interior demonstra isso: a redistribuição territorial da população acompanha simultaneamente uma mudança qualitativa do perfil dela, pois a natureza econômica e social do mundo urbano produz novos agentes econômicos e sociais que lhes são característicos, assim como o aumento do número de pessoas leva ao surgimento de clivagens distintas e variadas. Como a dinâmica das mudanças sociais não cessa, os elementos sociais condicionantes são constantemente atualizados, exigindo dos agentes constante atualização de seu capital político, para manterem sua posição ou conseguirem uma nova posição, ou, no pior das hipóteses, evitarem serem marginalizados no interior do
campo político.