1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.3. Descrição do processo sequencial de ensino orientado usado na PES
1.3.3. As atividades dramáticas
1.3.3.1. Elementos constituintes das atividades dramáticas
Os elementos essenciais constituintes das atividades dramáticas provêm do teatro. Rute Miguel, no E-Dicionário de termos literários (doravante EDTL), sobre a noção de
espetáculo teatral em si dentro da entrada para Teatro, enumera-os: “(…) Esta última
noção de teatro implica alguns elementos fundamentais, tais como: um espaço cénico, actores, acção dramática e um público que entra no jogo desta realidade ilusória, ou de uma ilusão real, na qual o seu papel passivo é muita vezes a razão activa da existência do jogo entre fantasia e realidade. (…)” (Miguel, EDTL).
O espaço cénico é a área de atuação e influencia, simultaneamente, o ator e o espetador. Pode ser pormenorizado, figurando o espaço em detalhe, ou minimalista e simbólico, sugerindo espaços. Na história do teatro, começa por ser um espaço redondo onde se realizavam rituais sagrados em honra de Dionísio: os ditirambos, hinos cantados em uníssono. Carlos Ceia apresenta uma descrição do termo Ditirambo no EDTL: “(…) Forma de lírica coral popularizada na Grécia arcaica, de inspiração dionisíaca, e própria de ocasiões festivas. O ditirambo precede as comédias e as tragédias gregas. Poetas como Píndaro tornaram-se especialistas neste tipo de lírica. (…)” (Ceia, EDTL).O círculo, que representa o todo, a perfeição, o divino, o movimento, a expansão, funcionava como um espaço sagrado, por isso é a forma ideal de um palco. O espaço cénico permite repetir, em cada atuação, essa primordial ligação ao sagrado. Tem uma duração efémera o que confere segurança ao ator e ao espetador que sabem que aquela situação não se repetirá eternamente. É um lugar imaginário, mesmo quando representa detalhadamente o real (cenários naturalistas), que possibilita o transporte do ator e do espetador para a ação. Usa uma linguagem icónica e plurissignificativa que apela ao sentido da visão e à memória referencial dos significados. É o lugar de partilha onde ator e espetador se encontram, unindo-se num “sacramento”. Numa sala de aula com escassez de recursos, o espaço cénico, que inclui os adereços, é minimalista, aproveitando, por exemplo, o quadro para desenhar um cenário, ou pregando com alfinetes folhas com desenhos que simbolizem as personagens.
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Os atores representam as personagens e usam dois instrumentos de representação: a voz e o corpo. Nas atividades dramáticas, usam-se esses dois instrumentos nas simulações e nas leituras em grupo, com deslocação no espaço; ou só a voz, durante as leituras individuais ou em pares que são feitas desde o lugar habitual do aluno. Pela importância que a voz adquire como recurso fundamental para o desempenho do aluno neste tipo de atividades, a sua exercitação é uma atividade auxiliar sempre realizada antes de uma leitura ou simulação. A voz é um meio essencial usado pelo ator e reflete o estado físico e psicológico da personagem. Acusticamente, define-se como “(…) conjunto de ondas sonoras produzidas na laringe sob a pressão do ar saído dos pulmões, pela vibração das cordas vocais, modificadas em intensidade e timbre pelos diversos ressoadores até à saída da boca. (…)” (Gallisson & Coste, 1983:742). Na produção de voz estão envolvidos dois sistemas biológicos: o fonador e o respiratório. Estes sistemas são ambos treinados durante os exercícios de voz que incluem, primeiramente, respirações rítmicas. Os exercícios de respiração e voz servem para melhorar a produção da voz porque preparam a eficácia do seu funcionamento. O corpo do ator é outro instrumento fundamental na representação porque caracteriza fisicamente uma personagem. É com o corpo que um ator pode representar personagens com particularidades físicas (deficiências, tiques, posturas, gestos). Na PES que se realizou, a linguagem corporal foi pouco exercitada devido à constrição do espaço e do tempo e da menor importância que adquire face à voz numa aula de língua. A linguagem corporal foi sublinhada em ocasiões pontuais, devido à sua pertinência nessas situações (e.g. simulação de uma entrevista de trabalho).
A ação dramática é definida, sinteticamente a partir do contributo de autores como Aristóteles, Dryden e Hegel, numa frase de Luiz Paulo Vasconcellos, relativa ao termo
Ação, no seu Dicionário de Teatro: “(…) Assim, podemos dizer que ação é o movimento
dos acontecimentos determinados pela vontade humana em conflito. (…)”. (Vasconcellos, 1977: Ação). No caso das atividades dramáticas, esta ação somente se verifica quando se trata de um texto dramático, ou de um ato comunicativo de interlocução simultânea cujo discurso se baseia no diálogo. Os textos narrativos não assentam o seu discurso no diálogo, forma discursiva que permite exprimir a vontade e o conflito humano através da relação entre personagens, diretamente, sem a mediação do narrador, portanto não apresentam uma ação dramática. Os textos líricos podem evidenciar o conflito interior do sujeito enunciador, mas a ausência de um interlocutor simultâneo inibe a existência de um conflito exterior e, consequentemente, do diálogo.
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O público é o recetor imediato da representação. A função da tragédia clássica era proporcionar ao espetador uma compreensão das ações grandiosas do herói através da identificação do espectador com a personagem, com o objetivo de moralizar. No teatro do absurdo o que se pretende é justamente o contrário: uma dissociação entre o espetador e as personagens, com o objetivo de fazer refletir sobre a condição humana. Como refere Hélder Gomes no artigo incluído no EDTL, na entrada referente ao Teatro do absurdo: “(…) Assim, e não obedecendo a mecanismos de identificação com as personagens, o espectador mais facilmente abre caminho à critica e reflexão. Desta reflexão nasce uma gradual consciencialização da condição humana. (…)” (Gomes, EDTL). No caso do espetador/aluno, pretende-se que ele se identifique com o ator/aluno e pode, ou não identificar-se com a personagem, mas o objetivo principal é, como no teatro do absurdo, que reflita sobre as suas ações (artísticas, académicas, sociais e culturais). Nas aulas de língua os papéis invertem-se e o ator torna-se espectador e vice-versa. Esta alternância proporciona ao aluno duas perspetivas diferentes e complementares que aumentam a sua consciência da atividade: como artista em dizer um texto ou em simular, participante interno da ação artística (emissor), e como apreciador dessa arte, participante externo da ação artística (recetor).