A análise dos elementos que informam a presença do Ensino da Filosofia nos anos iniciais do Ensino Fundamental em Curitiba toma como referência os estudos realizados pelas pesquisas das professoras: Naldemir Maria Mendes (2006) e Fabiana Muranaka (2007).
A investigação realizada pela professora Naldemir Maria Mendes (2006), “A Filosofia no Ensino Fundamental na Perspectiva das Pesquisas Discentes”, busca compreender o sentido do Ensino da Filosofia, nas escolas do Ensino Fundamental, a
27 Walter Omar Kohan é professor da UNB, junto com colaboradores, tais como Vera Wasksman, da Universidade de Buenos Aires e La Plata, (Argentina) e David Kennedy, professor de Filosofia para Crianças na MontClair State University, coordena o projeto “Filosofia na Escola” desenvolvido com professores e alunos de escolas públicas do DF.
partir da análise realizada em diversas pesquisas discentes, produzidas nos Programas de Pós-Graduação em Educação nas Universidades Públicas e Privadas da região Sul do Brasil. Seu trabalho permite delimitar o contexto e a especificidade da Filosofia enquanto disciplina escolar, no qual procura distinguir elementos categorizadores dessa disciplina.
Discute os conceitos de “Código Disciplinar”, “disciplina escolar” e “didatização”
na perspectiva do ensino da Filosofia, enquanto disciplina escolar no Ensino Fundamental. A partir da teoria da Transposição Didática, reflete sobre o tratamento dado ao conhecimento enquanto conteúdo de ensino na Filosofia. Sua constatação situa a necessidade de assegurar um “lugar para a Filosofia no sistema de ensino”.
A contribuição da pesquisa realizada por Mendes na construção da trajetória do Ensino da Filosofia na rede de ensino de Curitiba torna-se fundamental, na medida em que elenca categorias e estabelece os elementos constitutivos do código disciplinar para o Ensino da Filosofia. A partir da identificação desses códigos, é possível reconhecer a presença da Filosofia enquanto conhecimento e, por aproximação, tenta definir a forma, ou formas, como vem sendo organizado e estruturado nos currículos das escolas que se propõem ao trabalho sistemático com a Filosofia.
A pesquisa de Muranaka (2007), “Mas, o que se faz numa sala de Filosofia?!!!”
Uma Análise do Eixo Educação pela Filosofia das Diretrizes Curriculares da Secretaria Municipal de Curitiba, tem como objetivo analisar o processo de inclusão da Filosofia no currículo do ensino fundamental, envolta a diferentes embates teóricos, metodológicos, culturais, sociais e políticos que ocorrem no interior das escolas.
Constata, de um lado, a opção teórica e metodológica, sua implicação social e, por outro, a ausência de aportes oficiais da legislação educacional, com vistas à inclusão desse ensino nos anos iniciais da escolarização dos alunos.
A análise realizada por Muranaka, além de tecer considerações acerca da ausência de políticas públicas de incentivo à inclusão do Ensino da Filosofia, contribui para a compreensão da natureza e da especificidade desta disciplina no currículo do Ensino Fundamental. As indagações partem da análise realizada, assentada nos textos documentais das “Diretrizes Curriculares” em Discussão (2000) e em Construção (2004)28” da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba e da última versão Curricular implantada em 2006.
28 Esta versão curricular foi substituída pelas atuais Diretrizes Curriculares para o Ensino de Curitiba, implantada a partir de 2006 e implementada para todos os professores da sua Rede de Ensino em 2007.
De acordo com Muranaka, os documentos oficiais reconhecem a importância da inclusão desse ensino e oferta oficialmente na forma de Educação pela Filosofia, no entanto, constata-se a ausência, ou melhor, a insuficiência teórica para se estabelecer uma concepção clara acerca desse ensino no que diz respeito ao método e ás formas de ensinar e de aprender Filosofia e ainda no que se refere à clareza do conceito de infância, a quem o ensino será destinado.
Na análise do conteúdo do texto documental, Muranaka discorre sobre a insuficiência de indicativos que apontam a presença da Filosofia na grade curricular dessas escolas e, tão pouco, aponta referenciais teórico-metodológicos objetivos para uma possível educação mediada pela Filosofia. A análise, por outro lado, identifica que o mundo adulto permanece como a principal referência e objetivo para o mundo da criança em relação à Filosofia.
A Filosofia com seu caráter de rigor procura a ordem das coisas, dos fenômenos e eventos penetrando-os na sua raiz. É no nível das raízes, dos fundamentos, que a interrogação, própria da Filosofia, faz sentido e adquire importância. A relação entre Filosofia e educação que, no passado, tendia a se fundir, assume, na contemporaneidade, que o educar e o filosofar se identificam na medida em que a ambos se imputa o papel de esclarecer, justificar, interpretar e refletir as questões do pensamento e da ação nas práticas educativas.
Nesse sentido, a Filosofia na perspectiva da prática escolar, trabalhada com alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental, por ser recente, na medida em que foi a partir de meados da década de 80, que se constata sua inclusão nas escolas de Ensino Fundamental do Brasil e mais recente ainda nas escolas de Curitiba, dado sua inclusão a partir de meados da década de noventa com o Programa de Mathew Lipman (1990).
O Programa ‘Filosofia para Crianças’ de Matthew Lipman foi trazido ao Brasil, por iniciativa de sua colaboradora, a professora Catherine Young, que acaba por fundar em São Paulo o “Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças” (CBFC) em janeiro de 1985, com o objetivo de disseminar a diversas cidades e regiões, inclusive Curitiba, esta forma de ensino, marca o início da discussão sobre a temática.
As aulas de Filosofia surgem na RMEC ao final da década de 90, momento que muitos professores são capacitados para desenvolver a proposta nos moldes das
“Novelas Filosóficas” que compunham o referido programa e, de forma experimental,
introduzem os módulos temáticos do Programa de Filosofia para Crianças de Matthew Lipman.
A partir de então, a filosofia passa a compor os debates e discussões que resultam no texto das Diretrizes Curriculares nas versões de 2000 e 2004, quando assumem o caráter de Ensino da Filosofia, o qual é reiterado na versão curricular de 2006, que registra: “a prática filosófica [...] permanece como fundamento básico da ação educacional da Rede Municipal de Ensino de Curitiba (RME) para aprimoramento dos processos pedagógicos das escolas, com vistas à melhoria da qualidade do ensino” (SME/CURITIBA, 2006, p. 23).
Desse modo, a Filosofia se configura como conhecimento necessário a formação integral do aluno que se percebe “não somente como objeto ou sujeito, mas também como agente da história” (SME/CURITIBA, 2006, p. 36) e se inclui aos currículos escolares na forma de ‘Princípio Educativo’.