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Elementos Constitutivos

No documento O CÔMICO NO BUMBA-MEU-BOI (páginas 84-97)

Foto 30 – Boneca Nhá Nhá com nova careta

3. ETNOGRAFIA DA FESTA

3.1. Elementos Constitutivos

S o p r e i a p i t o / d e p o i s q u e d e u u m a r a j a d a / A v i s a n d o a v a q u e i r a d a / q u e o b o m t e m p o c h e g o u / e s s e s q u e g o s t a m d a f e s t a / d e s t e n o s s o p r o t e t o r / f a ç a o f a v o r d e o u v i r / e s s e c o n s e l h o q u e e u d o u / e u a t é f i z u m a j u r a d e n u n c a m a i s c o n s e l h a r / s ó p o r c a u s a d o c o n s e l h o / q u e e u d e i p r a R i b a m a r / e a r e s p o s t a q u e e l e d e u / d e u p r a m i m e x e m p l a r / m a s é q u e é m i n h a t u r m a / e e u t e n h o q u e c o n s e l h a r / L o g o o p r i m e i r o p e d i d o / P r o b a i a n t e d o c o r d ã o / E u n ã o q u e r o v e r c h a p é u / d e v o c ê s d e m ã o e m m ã o / p o r q u e s e i s s o a c o n t e c e / s ó d á v e z p r a c o n f u s ã o / E t a m b é m p r o s z a b u m b e i r o u m p e d i d o e u v o u f a z e r / a r r e i a a c a i x a n o c h ã o / n a h o r a d e a b o r r e c e r / m a i s s e u m p o s t e r i o r p e d i r / a t é p o r f a v o r n ã o d ê / E t a m b é m o s p a n d e i r i s t a s / e u t e n h o q u e a v i s a r / n ã o d á p a n d e i r o p r a o u t r o / p r a e v i t a r d e f u r a r / p o r q u e t e m m u i t o s q u e p e d e / s ó p r a f e s t a n ã o p r e s t a r / e o q u a r t o p e d i d o q u e e u f a ç o / p a r a a m i n h a v a q u e i r a d a / e u q u e r o m u i t o s i l ê n c i o / q u a n d o e u c a n t a r a t o a d a / q u e é p r a n o f i n a l d a f e s t a / n ã o s e r v i r d e c a ç o a d a . ( T o a d a d o b u m b a - m e u - b o i “ C a p r i c h o d e U n i ã o ” / 2 0 0 6 )

A bateria do boi de zabumba Capricho de União é composta pelos intrumentos: zabumba, pandeirinho, maracá, apito e ritinta.

Foto 8: Ribau, tocador mirim na ritinta Foto 9: Seu Lourenço no pandeirinho

O sucesso da festa depende em grande parte do acerto da bateria, cada qual é responsável pelo seu instrumento: zabumbeiros com suas zabumbas, pandeirista com os pandeirinhos, cabeceiras soprando apito e soltando a voz, cada qual com a sua função, com a sua responsabilidade, “que é pra no final da festa não servir de caçoada”. A bateria deve seguir a cadência certa e tocadores devem agir com seriedade, sempre orientados pelo canto do cabeceira e balanço do maracá.

Para a confecção do tambor zabumba, Seu Lorenço utiliza tonél de óleo e couro de boi. No ano de 2006, ele trocou alguns tambores com cobertura de couro de bicho pelos chamados tambores de arroucho. Para Dona Romilda, esposa de seu Lourenço, “é caro pra comprar, mas economiza depois, com couro de bicho que tem que esquentar, gasta muito couro, cada noite tinha que cobrir de novo, assim não precisa esquentar o couro” (Romilda 17/09/2006). Diz ainda, “Lourenço não tem pena de gastar, fica com fome pra comprar uma pele de cobra pra cobrir tambor”.

O Boi de Seu Lourenço Pinto, “Capricho de União”, sotaque de

zabumba, incorporou novos toques, inspirado nos bois de sotaque de

orquestra, pois muitos de seus cabeceiras cantam também em bois de

orquestra, em povoados e municípios próximos de Santa Helena.

Atualmente, o boi de Seu Lourenço possui, como ele mesmo diz, o ritmo lento da zabumba e o ritmo das tapuias, que é mais acelerado, remetendo ao ritmo, tocado nos bois de orquestra.

Sobre a incorporação desse novo ritmo, que contou também com a inclusão do instrumento ritinta, ele explica: “é pra incentivar e motivar mais a brincadeira”.

Para Marques (2003, p. 92) essas transformações são “frutos das trocas de informações com outras esferas culturais e da necessidade de atualizar a mensagem transmitida anualmente”.

Essas mudanças, alterações no modo de apresentar a brincadeira, aponta para a discussão da tradição/modernidade no bumba-meu-boi, na qual, segundo a autora: d e s i g n a r - s e t r a d i c i o n a l n u m m o m e n t o e m o d e r n o n u m o u t r o f a z p a r t e d a n a t u r e z a p l u r a l e u n i v e r s a l d o f o l g u e d o p o r q u e r e f o r ç a a s u a i d e n t i d a d e c o m o p a r t e d e u m g ê n e r o r e c o n h e c i d o c o m o f o l c l ó r i c o / p o p u l a r , p o s s i b i l i t a n d o a s u a s o b r e v i v ê n c i a d i a n t e d o s d e m a i s g r u p o s , e s t i m u l a n d o a c o n c o r r ê n c i a e , r e p o n d o a c a d a m o m e n t o , o s v á r i o s p a p é i s e a t u a ç õ e s q u e o f o l g u e d o r e p r e s e n t a / a p r e s e n t a n o s e s p a ç o s p ú b l i c o / p r i v a d o . ( M A R Q U E S , 2 0 0 3 , p . 9 2 )

3.1.2.Toadas – cantos de depoimento

As próprias toadas tem características diversas nos dois toques: no da zabumba, ritmo mais lento, as toadas são mais compridas, têm características de conselho, relato de histórias, depoimentos, tratam de temas sociais da atualidade. I n á c i o L u l a d a S i l v a / a g e c o m g r a n d e c r i t é r i o / c o m o e l e v e m f a z e n d o / é d e s s e j e i t o q u e e u q u e r o / m e s m o e u n ã o t e n d o s a l á r i o / m a s e u n ã o m e d e s e s p e r o / o p r e s i d e n t e d o B r a s i l / p r o m e t e u e a s s u m i u / c o m o p r o g r a m a f o m e z e r o / O p r o g r a m a f o m e z e r o / g e r a l à p o p u l a ç ã o / n e s t e p a í s b a r s i l e i r o / e s t á e m t o d o s e r t ã o / p r a d i z e r q u e n ã o é v e r d a d e / é g e n t e d a o p o s i ç ã o / p e s s o a s q u e n ã o t e m D e u s / d e n t r o d o s e u c o r a ç ã o / O p e s s o a l m a i s c a r e n t e / q u e n ã o t i n h a m c o n d i ç ã o / h o j e v e j o e m s u a m e s a / c a r n e , a r r o z e f e i j ã o / u m c a f e z i n h o c o m l e i t e / u m a m a n t e i g a c o m p ã o / T o d o o c o m e ç o d e m ê s / n o v e n t a e m c i n c o e m s u a m ã o / O B r a s i l t á o r g u l h o s o / c o m o p r e s i d e n t e q u e t e m / c o m q u a t r o a n o s d e m a n d a t o / n u n c a p e r s e g u i u n i n g u é m / s e m p r e é o l a d o d o p o v o / s ó p e n s a n d o e m f a z e r b e m / s a b e q u e o s p o b r e t e m f o m e / v a m o s a j u d a r o h o m e / q u e m a i s b e n e f í c i o v e m / e x i s t e v á r i o s p r o j e t o / q u e n o p a s s a d o n ã o t i n h a / h o j e c o m p o u c o d i n h e i r o / v o c ê m a n t ê m a s u a c o z i n h a / a c a r n e c a i u d e p r e ç o , f e i j ã o , a r r o z e f a r i n h a , / t ã o a q u i e m p r e s t a n d o d i n h e i r o / a t é p r a c r i a r g a l i n h a / v a m o o l h a r o p r e s e n t e / n ã o e s q u e c e r d o p r a t r a s / p r a g o v e r n a r o B r a s i l / j á m o s t r o u q u e é c a p a z / é c a d a s t r o b o l s a f a m í l i a / l i b e r o u o v a l e g á s / a c a b o u c o m a i n f l a ç ã o / q u e p e r s e g u i a d e m a i s / d e s d e j á p o s s o d i z e r / p r o m u n d o i n t e i r o s a b e r / q u e e s s e é o g o v e r n o d a p a z / q u e t o d o s o s m a i s i m p o r t a n t e / e a g o r a e u v o u f a l a r / p e s s o a d e s i n f o r m a d a / p o i s p r o c u r e s e i n f o r m a r / n o B r a s i l

i n t e i r o t e m / a f a r m á c i a p o p u l a r / v e n d e n d o r e m é d i o m a i s f á c i l / p r o s p o b r e p o d e r c o m p r a r / p r e s t a a t e n ç ã o m e u p o v o é c e r t o o q u e e u t ô d i z e n d o / p r e s t a a t e n ç ã o m e u p o v o é c e r t o o q u e e u t ô d i z e n d o / a s p e s q u i s a s t ã o m o s t r a n d o / B r a s i l i n t e i r o t á v e n d o / t u d o d e b o m p a r a o s p o b r e L u l a d a S i l v a f a z e n d o . ( t o a d a d e A b o u d , r i t m o d e z a b u m b a , l e n t o / 2 0 0 6 )47

Nas toadas de ritmo rápido, os temas falam da morena, da natureza e são toadas curtas e aceleradas, que lembram as dos bois de orquestra. São mais apropriadas, segundo seu Lourenço Pinto, para a dança das tapuias:

M o r e n a l i n d a d o c a b e l o l o n g o / d o c o r p i n h o d e s e r e i a / c i n t u r a d e v i o l ã o / s e e u p u d e s s e e v o c ê q u i s e s s e / m o r e n i n h a e u q u e r i a s e r s e u n a m o r a d o / e q u e r o a o m e n o s s e r o t e u a m i g o / e n t ã o v e m b r i n c a r c o m i g o e f i c a r d o m e u l a d o / V a m o s b r i n c a r b u m b a b o i ê q u i ô ê q u i ô / V a m o s b r i n c a r b u m b a b o i ê q u i ô ê q u i ô / C a p r i c h o d e U n i ã o / a b r i n c a d e i r a m a i s l i n d a q u e S ã o J o ã o a b e n ç o o u . ( t o a d a d e Z é O r e l h a , r i t m o a c e l e r a d o / 2 0 0 6 )

Há também um toque mais compassado que é característico da despedida, etapa final de uma apresentação do bumba boi, hora da separação, do descanso do batalhão e também hora da retirada, preparação para uma próxima apresentação: “adeus querida que eu já tô indo me embora/ chegou a hora da triste separação”(toada de despedida / 2006)

As apresentações do bumba-meu-boi, “Capricho de União” seguem a sequência das etapas: Guarnicê-Reunida, Lá Vai, Chegada-Licença. Há nesse momento uma pausa na sequência das toadas para a apresentação da comédia. Todas as toadas cantadas na comédia dizem respeito à temática do drama cômico apresentado, que tem como eixo central o sumiço do boi e a aquisição do novo boi, uma “jóia de valor”: “O meu vaqueiro comprou / uma jóia de valor / ele entrega pro patrão / a jóia de São João protetor” (toada, 2006) 47 T o a d a c o m q u e s t õ e s p o l í t i c a s d a a t u a l i d a d e n a o c a s i ã o d a c a m p a n h a d e r e e l e i ç ã o d o P r e s i d e n t e L u l a , n o B r a s i l , m a r c a d a p a r a a c o n t e c e r n o m ê s d e o u t u b r o d e 2 0 0 6 . A t o d a m o s t r a o p o s i c i o n a m e n t o p o l í t i c o d o c a n t a d o r , q u e n e m s e m p r e é o d o d o n o d a f e s t a , p o i s n e s s a m e s m a o c a s i ã o , e l e c a n t o u t o a d a p a r a J a c k s o n L a g o , n o b a r r a c ã o d e c o r a d o p o r b a n d e i r i n h a s c o m i m a g e n s d e R o s e a n a , a m b o s c a n d i d a t o s a o g o v e r n o d o M a r a n h ã o , n a s e l e i ç õ e s d e o u t u b r o d e 2 0 0 6 .

Após a vinda do novo boi, mais bonito que o anterior, vem o canto da alegria. Pode ser o Urrou, quando o novo boi é trazido por aquele que roubou o novilho antigo e, desse modo, o patrão quer vê-lo urrar para garantir que a troca foi satisfatória. Quando o boi é comprado pelos vaqueiros, não precisa urrar, pois o patrão confia na nova aquisição de seu capataz. Então, canta-se o Rola-Boi no lugar do Urrou, marcando o fim da comédia.

A seguir, há uma sequência de toadas de depoimentos e após, canta- se a Despedida para, enfim, cantar o Parou, momento final da apresentação.

3.1.2. Papéis Imaginários e Papéis Sociais

Os componentes do boi trabalham juntos, compartilhando valores como, amizade, companheirismo, responsabilidade e vontade de “brincar”. Assumem um modo de relacionamento com características semelhantes às que Turner denominou de communitas, “uma comunidade, ou mesmo uma comunhão, de indivíduos iguais que se submetem em conjunto à autoridade geral dos anciãos rituais (TURNER, 1974:119).

No Maranhão, os bois tem, geralmente, um dono, que é o responsável pela organização financeira, criativa e ritualística da brincadeira. Os bumba-bois podem ter nomes diversos, que, sempre na prática, acabam por serem substituídos pelo nome do dono do boi. O Bumba-meu-boi “Capricho de União” é comumente chamado de Boi de Seu Lourenço Pinto. Há entre os componentes uma “relativa indistinção hierárquica”, com exceção da relação destes com o “dono do boi”.

Porém, de um modo talvez paradoxal, conforme ressalta Luciana Carvalho (2005, p. 204): É n a f e s t a , a o m e s m o t e m p o e m q u e s e a p r o x i m a m e c o n f r a t e r n i z a m , q u e o s b r i n c a n t e s d o b o i s e d i s t i n g u e m , s e p a r a m e h i e r a r q u i z a m , p o r m e i o d o d e s e m p e n h o d e p a p é i s r i t u a i s d e t e r m i n a d o s q u e a d q u i r e m v i s i b i l i d a d e s d i s t i n t a s n a b r i n c a d e i r a .

A equipe de trabalho, responsável pela festa do Bumba-meu-boi “Capricho de União”, começa a fazer seus encontros e primeiras reuniões assim que finda o período carnavalesco, no qual muitos brincam no Bloco “Unidos do Samba”, organizado por Seu Lourenço Pinto.

Seu Lourenço, Romilda, Edivaldo, Dorinaldo, Zé Orelha, Pedro Nogueira e Marizá são alguns dos componentes que dedicam força, tempo, empenho e amor para a realização da brincadeira todo ano.

No mo mento da festa cada qual assume papéis diversos, adquirindo “visibilidades distintas na brincadeira”: vaqueiro, capataz-gerente,

cabeceira-cantor, palhaço, baiante de fita-rajado, marujado-baiante de cordão, índias48 e tocadores.

48 A s í n d i a s , a s s i m c o m o o t o q u e r á p i d o d a z a b u m b a l e m b r a n d o o r i t m o d a o r q u e s t r a , f o r a m i n c o r p o r a d a s n o c o r d ã o d o b o i d e S e u L o u r e n ç o P i n t o , d e u n s q u a t r o a n o s p r a c á . I n s p i r a d o n o s b o i s d e o r q u e s t r a , e s s a a t i t u d e , s e g u n d o S e u L o u r e n ç o d e u m a i s g r a ç a e o p o r t u n i d a d e d e i n s e r i r m a i s m u l h e r e s n o c o r d ã o e t a m b é m f o i u m a f o r m a d e a n i m a r e i n c e n t i v a r m a i s a b r i n c a d e i r a , “ d e d e i x a r o b o i m a i s b o n i t o ” .

Foto 13: tapuias

Foto 14: cabeceira Foto 15: rajado

Foto 17: marujado Foto 16: casal de palhaços

A hierarquização de um papel imaginário em relação a outro papel é determinado pela função desempenhada na festa, buscando a eficácia do rito. De forma extraordinária, todos mudam suas rotinas diárias, desde o período da preparação até o encerramento da festa.

Os papéis imaginários são reafirmados a cada instante na dança, nos cantos e na gestualidade. A representação cômica enfatiza as relações de poder e coloca no topo da escala social o cabeceira. O vaqueiro-gerente afirma e enfatiza a sua posição de subordinação ao patrão-cabeceira nas falas improvisadas das comédias: “eu não sou o dono, mas sou o capataz.”, diz o gerente da fazenda, dando entender que não tem tanto poder quanto seu patrão, porém deixa claro que, depois deste, é ele quem é o responsável.

Toda essa representação tem caráter efêmero, os papéis imaginários são funções desempenhadas de forma extraordinária apenas numa época, num determinado período do ano. Para Seu Lourenço, o papel de palhaço, desempenhado por ele nesse período, difere do palhaço profissional: “eu, é uma passagem, é de época e o palhaço é profissão, é direto.”

É na comédia, apresentada a cada ano, que as posições sociais e os papéis são mais evidentes à vista do público assistente. Na fazenda tem-se o

patrão-cabeceira, após, tem-se o gerente-capataz-vaqueiro. Os baiantes de

cordão e índias não têm participação efetiva nas comédias, assistidas em Santa Helena, servem de apoio para a trama, como público assistente que observa atentamente e ri em ocasiões diversas. Os tocadores, sempre alerta,

estão a todo instante acompanhando os cantos dos cabeceiras, dos vaqueiros e também dos palhaços na trama cômica apresentada. O palhaço, único intruso da fazenda, é autor de toda a trama, cria toda uma situação visando despistar todos da fazenda a fim de ter a posse do boi do patrão.

Enfim, o boi, seria no conjunto, o elemento mais importante da brincadeira, ao redor dele toda a trama cômica e toda a festa se desenvolve do batismo até a morte.

Todo um cuidado especial é dedicado à feitura do boi, o bordado em seu couro é renovado a cada ano. A bordadeira Marizá é a responsável pelo desenho, bordado e costura do couro novo do boi, que traz sempre a imagem de São João, santo homenageado nas festas de bumba-meu-boi.

3.1.4. A refeição e a bebida na festa

Dona Romilda é a principal encarregada da comilância da Festa. A sua maior preocupação é dar comida e bebida aos brincantes. O trabalho na cozinha e na costura é tão grande, que há anos D. Romilda não consegue brincar no boi. No tambor de crioula, sua brincadeira de paixão, ela brinca com vontade, mas no bumba boi ela não consegue: “me ajuntei com ele (Seu

Foto 18: Bois na festa de morte, no momento da fuga nas ruas do centro de Santa Helena.

Lourenço) na brincadeira de bumba boi eu brincava de Apaizano49 (Marujado). Este ano, eu comprei um chapéu, mas não pude dançar, tenho vontade de brincar com o boi.”(Romilda 17/09/2006)

O trabalho na cozinha começa cedo, dois meses antes da festa de morte ela começa a cortar arroz com Seu Lourenço, nas terras em que possuem para o plantio, a fim de alimentar a festa da matança de boi. Em suas terras, eles plantam milho, mandioca, arroz, verduras, coco babaçu, pescam com tarrafa... Dona Romilda trabalha fazendo carvão “eu junto coco, quebro o coco e faço carvão, vendo a 2,50 a lata, agarro o machado e corto que nem homem”.

Na festa de bumba-meu-boi ela prepara porco e boi como refeição. Para bebida oferece conhaque, cachaça e vinho. O vinho tem grande importância antropológica nas festas de todo tipo, conforme afirma Mafessoli (2005, p.117): “Se a refeição (cozinhar, comer) é uma propedêutica orgíaca, em seu interior o vinho tem igualmente uma importância antropológica que não pode ser ne gligenciada”.

Para Mafesssoli ”(2005, p.121), o álcool é vetor de dinamismo indispensável ao equilíbrio individual e societal: “é somente quando somos capazes de tomar certa quantidade de vinho que podemos fazer parte de uma turma de companheiros”.

O vinho traz na festa características referentes ao sacramento e ao divertimento, favorecendo as relações, “permite que se chegue a confusão, mas, na maior parte do tempo, favorece a fusão”:

A t o d o t e m p o e e m t o d o l u g a r , a e x p e r i ê n c i a p o p u l a r e s t á n o s l e m b r a n d o q u e o á l c o o l e x c i t a o i n s t i n t o s e x u a l . E l e i n a u g u r a u m a d i n â m i c a d e c o m u n h ã o , i n t r o d u z u m a d i l a t a ç ã o e m c a d a u m d e n ó s , 49 A p a i z a n o é s ó c o m a r o u p a c o m b r i l h o s e m a s f i t a s , d i f e r e n t e d o c h a p é u d e f i t a .

u m a e x a r c e b a ç ã o d o s s e n t i d o s , p e r m i t i n d o a e x p r e s s ã o d o q u e c h a m e i d e c o n s c i ê n c i a p o p u l a r , q u e t r a n s c e n d e a s b a r r e i r a s o u d e f e s a s i n e r e n t e s a t o d o s o s c o n j u n t o s s o c i a i s . ( M A F E S S O L I , 2 0 0 5 , p . 1 2 3 )

3.1.5. A comédia

É o sotaque de zabumba, como visto anteriormente através de depoimentos de brincantes do boi, no capítulo II, um dos únicos sotaques que ainda apresentam as comédias-matanças. Porém, na visão de Azevedo Neto (1997, p. 37) “do auto original são os que mais se afastaram [...] criaram inúmeras variações e – até – novos enredos”.

Suspeitemos desse “auto original”, que pressupõe a história de Catirina e Pai Francisco e vamos encarar essa história como uma possibilidade narrativa, um enredo criado tendo como fundamento a consumação de um desejo.

O importante, para nós, é pensar que esse desejo pode ser apresentado sob diversos aspectos, que não dizem respeito somente ao de

Foto 19: a bebida é servida a todo instante para os baiantes durante a brincadeira de bumba-meu-boi

comer a língua do boi, de saciar a fome, o sexo, mas de tratar de uma série de problemas de ordem social, apresentados de forma cômica, procurando sempre resolver o problema do boi, em como fazê-lo sumir a cada ano? É nessa etapa, segundo Carvalho (2005, p. 443), “que se aborda, efetivamente, aquilo que os palhaceiros elegem e concebem como ‘o assunto da matança’, isto é, a história principal que se inventa a cada ano, e que distingue e individualiza os

bois”.

Porém, não devemos negar a concordância referente a legitimidade da história de Catirina e Pai Francisco, por parte, não só dos intelectuais, mas também por parte dos brincantes do bumba-meu-boi:

Q u a n d o m e e n t e n d i e r a C a t i r i n a e P a i F r a n c i s c o , q u a n d o p e n s o u q u e n ã o , j á e r a M ã e C a t i r i n a e C a z u m b á , q u a n d o p e n s o u q u e n ã o e r a o p a l h a ç o . ( L o u r e n ç o P i n t o , e n t r e v i s t a e m 1 7 / 0 9 / 2 0 0 6 ) ; E u s o u u m c o n s e r v a d o r d a h i s t ó r i a . D a q u i l o q u e m e d e u t u d o . A o r i g e m d o b u m b a b o i é o s a n t o . A h i s t ó r i a é P a i F r a n c i s c o e C a t i r i n a . T á e n t e n d e n d o ? ( S e u B e t i n h o , e n t r e v i s t a e m 2 5 / 1 0 / 2 0 0 4 )

No Bumba-meu-boi “Capricho de União” assim como se renovam os intrumentos, as indumentárias, os bordados, também se renovam as matanças, as comédias.

Nos enredos cômicos, na visão de Seu Lourenço Pinto (17/09/2006), as funções dos bichos também foram alteradas:

A n t e s o s b i c h o s m a t a v a m o b o i . E r a m a t a n ç a q u e t i n h a . E l á v i n h a a O n ç a p r a m a t a r o B o i . N ã o t e m m a i s a m o r t e d e b i c h o , d e r o u b a r o b o i d e P a i F r a n c i s c o , d e C a t i r i n a q u e q u e r i a c o m e r a t r i p a d o b o i . O s B i c h o s – d r a g ã o , t a m a n d u á - b a n d e i r a – a n t e s , e n g o l i a m o b o i .

Atualmente os bichos, nas comédias criadas por Seu Lourenço Pinto, têm a função de “ajudar a admirar, se não tiver, ninguém se abisma.” Este

ano, diz ele, “teve muita diferença: sapo, morcego e esqueleto gigante” (Lourenço Pinto, 17/09/2006).

Dentro da própria festa de bumba-meu-boi a comédia acaba sendo um acontecimento extraordinário. A comunidade de Morada Nova só olha a

comédia no dia do batizado e no dia da morte do boi. Nos outros dias dos

festejos juninos o boi brinca nos municípios mais próximos, como Turilândia, Pinheiro e Guimarães. “Em Guimarães”, diz Seu Lourenço Pinto, “eles dão muito valor pra nossa comédia”.

No instante da comédia tudo pára, instaura-se um novo tempo, um

metateatro dentro da própria festa, uma interrupção que leva ao riso, ao estranhamento, à admiração.

F o t o 2 0 , 2 1 , 2 2 : p e s s o a s d a c o m u n i d a d e e b a i a n t e s n o m o m e n t o d a a p r e s e n t a ç ã o d a c o m é d i a n o b u m b a - m e u - b o i C a p r i c h o d e U n i ã o .

No documento O CÔMICO NO BUMBA-MEU-BOI (páginas 84-97)

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