• Nenhum resultado encontrado

É possível destacar que as reformas educacionais empreendidas nos anos de 1990 houve a compreensão de que pautar as ações somente visando o desenvolvimento econômico não seria suficiente para atender aos problemas sociais que estavam postos. Não obstante, Para Oliveira (2011a) o modelo de desenvolvimento em curso foi fortemente criticado, tendo em vista o questionamento com relação ao Estado, sobre sua capacidade em gerir a “coisa pública”, com a eficácia e a eficiência necessárias, haja vista a focalização em políticas econômicas sem atenção para as políticas sociais redistributivas.

De acordo com Oliveira (2011a) as políticas públicas sociais têm sido marcadas por uma aproximação entre os grupos interessados na implementação das mesmas, quais sejam: sociedade civil, sindicatos, associações, etc. e os representantes do Estado responsáveis pela implementação dessas políticas. Disso resulta, além de certo corporativismo, um reforço do poder local.

Segundo Evaldo Vieira (2007), no Brasil destacam-se três momentos políticos no que diz respeito às políticas sociais: o período de controle da política, associado à ditadura de Getúlio Vargas e ao populismo nacionalista; posteriormente, o de política do controle, referente á ditadura militar compreendido entre os anos de 1964 até o final do período constituinte no ano 1988; por fim, o último período destacado pelo autor teve início com a promulgação da Carta Magna em 1988 até os dias atuais e é reconhecido em sua análise por uma política social “sem direitos sociais”.

Os dois primeiros momentos podem ser considerados como um constante movimento de idas e vindas com relação ás políticas sociais, mantendo características de execução fragmentária, setorial e emergencial. Apesar de reconhecer a Constituição Federal de 1988 como sendo a legislação nacional com maior acolhimento às políticas sociais, vale ressaltar que, de outra parte, poucos desses direitos estão sendo praticados ou ao menos regulamentados, quando exigem regulamentação. Há, portanto, a tensão entre ter conquistado direitos, no âmbito da legislação, mas a dificuldade de sua materialização.

Por sua vez, as políticas sociais estão embutidas em um projeto de reforma do Estado que tem afirmado que a crise15 é do Estado e não do capitalismo, concepção essa defendida pelo pensamento neoliberal. Assim, segundo Mészáros (2008) utilizam-se estratégias pautadas na reforma do Estado diminuindo sua atuação para superar a crise. Nesse sentido, cabe ao mercado superar as falhas do Estado, prevalecendo a lógica do mercado para que ele possa ser mais eficiente e produtivo. Todavia, a crise não se encontra no Estado, é uma crise estrutural do capital.

Esse ideário é traduzido nas políticas públicas brasileiras por incentivo de organismos internacionais, dentre eles o Banco Mundial16. Este estimula a descentralização das políticas sociais desenvolvidas pelo Estado, com pressupostos de transferência de obrigações para organizações da sociedade civil, com vistas à efetividade do gerenciamento das ações sociais.

A gestão das políticas públicas sociais, especialmente as educacionais, adota um desenho com contornos definidos por uma formulação no âmbito central e descentralização em sua execução local. A partir da década de 1990 do século passado as reformas de Estado, implementadas na maioria dos países latino-americanos, tiveram como característica principal a atribuição de uma maior autonomia aos governos municipais e estaduais. A orientação das políticas sociais se desenvolve sob dois vieses: a diminuição de gastos públicos direcionados ao

15 Mészáros estabelece as distinções entre tipos de crise. Há diferenças entre crise periódico-conjuntural e a crise estrutural. [...] a diferença crucial entre os dois tipos nitidamente contrastantes de crise [...] é que as crise conjunturais ou periódicas se desenvolvem e se resolvem com maior ou menor êxito dentro de uma dada estrutura política, enquanto que a crise estrutural afeta a própria estrutura em sua totalidade e possui caráter universal e não setorial; seu alcance é global e não limitado a um conjunto de países; sua escala de tempo é longa e contínua de desenvolvimento do tempo (MÉSZÁROS, 2008).

16 O Banco Internacional para o Desenvolvimento e a Reconstrução (Bird), também conhecido como Banco Mundial (BM) foi criado em 1944 com o objetivo de atuar na reconstrução de países destruídos na segunda guerra mundial.Atualmente o Banco Mundial (BM) tem como função primordial financiar países que necessitam de realizar obras de grande expressão (transporte, geração de energia, saneamento básico, infraestrutura em geral), além de contribuir para outras questões envolvendo o crescimento financeiro na agricultura e na indústria, acrescentando ainda as temáticas sociais e ambientais. Mais de 180 países membros colaboram para o capital. O direito de voto é adquirido de acordo com a colaboração de um determinado país no comércio mundial. O principal acionista são os Estados Unidos que possuem em suas mãos o poder de impedir as decisões referentes ao interesse da instituição.

desenvolvimento social da população pobre e a formulação de programas de caráter assistencialista e provisório destinados á assistir a parcela mais carente da sociedade. Portanto, “[...] o Estado passa a se relacionar com os cidadãos, dividindo-os em dois tipos: os contribuintes/consumidores e os destituídos/assistidos [...]”. (SALAMA; VALIER, 1997 apud OLIVEIRA 2011a, p. 82). Os autores mencionados destacam nesse processo de mudança reformista três características que são centrais e que foram reforçadas pelo Estado, quais sejam:

1) Políticas sociais orientadas para os muito pobres – por serem considerados os mais “frágeis” diante dos custos das reformas, estes serão “protegidos” por meio de ações sociais empreendidas pelo governo, dentre elas, serviço de primeira necessidade e infraestrutura social. As ações públicas são focalizadas e vão ao encontro do combate à extrema pobreza. Nesse sentido, a política social deixa de assumir seu caráter universal.

2) Políticas de assistência-benfeitoria e de privatização - têm a função de mediar a relação entre o seguro e a assistência. A população pertencente á classe média afasta-se do setor público e adere à iniciativa privada, o que representa também o crescimento das privatizações nesse setor. Essa política abarca a participação por vezes do Banco Mundial (BM) e Organizações Não Governamentais (ONGs).

3) Políticas sociais descentralizadas e recorrendo à uma participação popular - com o objetivo de diminuição e racionalização dos gastos, as medidas descentralizadoras são ações sociais desenvolvidas com recursos do governo e organizações não governamentais, portanto, há que garantir maior eficiência na utilização dos mesmos.

Segundo Evaldo Vieira (2001a), a educação como direito social tem sua importância efetivada na Constituição Federal de 1988, a qual concede amplos direitos aos indivíduos e que de certo modo indica a ampliação e o interesse social pela educação, reconhecendo-a como elemento fundamental da política social. Sob esse olhar, a educação traduz-se em direito público subjetivo, isto é, converte-se em situação jurídica consagrada por uma norma legal que preconiza a legitimação do direito de todos a exigirem a sua realização e, a sociedade, por sua vez, tem a possibilidade de responsabilizar a autoridade competente pelo não cumprimento desse direito.

As sociedades e seus sistemas escolares são comumente comparados em relação aos seus níveis de integração, mais factíveis de serem medidos e averiguados. A integração de uma sociedade depende do papel que exerce o Estado em relação aos seus cidadãos, ou seja, as políticas públicas e sociais que desenvolve e põe em ação. Assim, a integração de um país é maior ou menor dependendo das políticas de saúde, segurança, previdência, regulação

das relações de trabalho, entre outras que o Estado promove. As desigualdades sociais e de renda, bem como outras variáveis, tais como o tamanho do país, sua dimensão territorial e população, também interferem na integração, tornando-a mais complexa. Da mesma forma, a escola que escolariza seus alunos por longo período e de maneira comum é mais integrada que aquela que os seleciona precocemente e os divide e classifica em diferentes posições. (OLIVEIRA, 2011b, p. 331).

A educação como direito de todos e obrigação do Estado deve ocorrer necessariamente em instituições próprias e deve seguir determinados princípios; necessita ratificar a autonomia e conservar a liberdade de ensino. Contudo, mesmo com a efervescência do debate acerca do direito educacional, reconhecemos que sua materialização ainda se constitui uma realidade a ser conquistada, sem perder de vista que o cumprimento desse direito requer a mobilização de toda a sociedade.

Enfim, as reformas educacionais da década de 1990 tiveram como eixo central a gestão, isto é, por intermédio da descentralização administrativa, financeira e pedagógica buscou-se promover o acesso à educação básica, por meio de uma organização racional, nos moldes dos princípios da iniciativa privada, o que resultou em significativo repasse de responsabilidades para o nível local, por meio da transferência de ações. Essas reformas, de acordo com Oliveira (2011b) resultaram em mudanças na reestruturação da educação escolar, principalmente na educação básica, nos aspectos relacionados à organização curricular, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), à avaliação, pelo incremento ao Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (2005), ao Exame Nacional de Cursos (1996), ao financiamento, via implementação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (1996). No campo da legislação educacional brasileira a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n. 9.394/96 representou a consumação dessa nova reconfiguração.

A partir das mudanças realizadas, esse período representou um processo em que o sistema educacional brasileiro desenvolveu-se em meio a uma gestão fragmentada, com um conjunto de “programas sociais e educativos que buscavam atender a públicos focalizados, revelando grande dispersão de políticas temporárias que se afirmavam mais como políticas de governo que de Estado, cujas bases institucionais de controle social não estavam definidas”. (OLIVEIRA, 2011b, p. 327).