Existe uma diferença determinante entre Marx e Bakunin entre os seus posicionamentos quanto ao Estado.13 Marx perspectivava um período de transição em que o Estado, resultado da tomada de poder pelo povo e constituído pelo povo – portanto, o Estado socialista –, deveria expropriar todos os detentores de propriedade privada e torná-la propriedade coletiva. Para Bakunin, nada justifica a existência do Estado pois, para ele, Estado é sempre significado de hierarquia, i.e., de indicações que vêm de cima para a base. Nesse sentido, a propriedade deveria se distribuir entre as séries (aglomerado de pessoas que se juntam pelas suas afinidades) e deveria ser autogerida por seus integrantes. Portanto, tal como Marx, defende que as cooperativas devem ser independentes do Estado e dos burgueses, mas para Bakunin elas devem ser independentes de qualquer forma de Estado, incluindo o Estado socialista.
A Internacional, de 1860, que Marx e Bakunin integravam, havia se colocado da seguinte forma quanto ao cooperativismo,
A cooperação é uma forma equitativa e racional do futuro sistema de produção. Contudo, para que possa alcançar seus objetivos, emancipação das massas laboriosas, sua retribuição em função do produto integral de seu trabalho e satisfação das suas necessidades, a terra e o capital devem ser convertidas em propriedade coletiva. Enquanto isso não for feito, a cooperação será esmagada pela concorrência […]; nos raros casos em que esta ou aquela sociedade de produção […] conseguir suportar, este êxito terá como único resultado engendrar uma nova classe privilegiada (BAKUNIN, 2003 [1873], p. 241).
Mas a divergência entre Marx e Bakunin haveria necessariamente de ser colocada também aqui. Como se dava esse processo de transformar a terra e o capital em propriedade coletiva?
Para Marx, a organização e mobilização dos trabalhadores tinha como fim a insurreição popular e a tomada do poder político. O povo, ao tomar o poder, devia construir aquilo que Marx chama de ditadura do proletariado, um governo formado pelos trabalhadores, que reuniria em si a propriedade que deveria expropriar da burguesia. Este Estado de transição, o Estado socialista, deveria então gerir a propriedade coletiva através de um planejamento comum, até que a propriedade privada e as mentalidades burguesas se anulassem. Apenas aí, quando o antagonismo de classe característico de uma sociedade que se rege em torno do capital se
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Posicionamentos que considero que trazem contributos interessantes para a questão em causa, dada a relação proposta pela social-democracia entre o cooperativismo e o Estado.
extinguisse, o Estado socialista não seria mais necessário como intermediador, e a sociedade se organizaria em “associações de produtores livres”, isto é, o comunismo em Marx. Ou seja, depreende-se que o Estado socialista cumpre a tarefa de, após a revolução política, reunir em si a propriedade privada e de a distribuir pelas associações de produtores.
Em Bakunin, seja ele qual for, o Estado tem sempre uma tendência de se colocar a favor dos interesses das classes dominantes, onde muitas vezes exerce o papel de conciliação de interesses entre as classes, o que leva, oportunisticamente, a que promova muitas vezes confusões de interesses. O Estado, sempre com caráter de nação, promove os interesses nacionais a favor de sua elite, instigando os trabalhadores ao sentimento patriótico de defender o que, na verdade, não é seu. O Estado socialista não fugiria à regra na teoria de Bakunin. Mesmo que composto por trabalhadores, aquando da tomada de poder, a tendência é para que estes sejam coaptados pelos interesses da burguesia. Bakunin defende a revolução social, nascida das entranhas do povo e direcionada por ele, que carrega o antagonismo de classe, e não por intelectuais de outras classes que, com base na ideia de que o povo é incapaz, lhe dizem o que devem ou não fazer. Por isso Bakunin diferencia revolução política de revolução social, e acusa o Estado socialista de Marx de não conduz necessariamente a uma revolução social.
Neste sentido, Bakunin, de acordo com o que havia sida retificado pela Internacional, defende a associação de produtores livres, mas não segundo o Estado socialista de Marx nem pela forma proposta em Gotha.
Apesar da teoria de Bakunin se afastar da necessidade de um Estado que anule as tendências burguesas, não quer isso dizer que ele caía, tal como Proudhon, numa ideia de que pela via das instituições já estabelecidas se promova uma passagem ao sistema comunitário. Bakunin subscreve a ideia de Marx de que as instituições democráticas, tal como o direito, se desenvolvem de acordo com as relações econômicas, e que portanto, conduzem-nos apenas a uma perpetuação do vigente.
Apesar de todos os seus esforços para se situar em terreno sólido, Proudhon permaneceu um idealista e um metafísico. Seu ponto de partida é a noção abstrata do direito; ele vai do direito ao fato econômico, enquanto que o Sr. Marx, ao contrário dele, enunciou e demonstrou a incontestável verdade, confirmada por toda a História Antiga e Moderna da sociedade humana […], que o fato econômico precede e continua a preceder o direito político e jurídico (BAKUNIN, 2003 [1873], p. 175).
Por isso, Bakunin não defende uma promoção do sistema comunitário alheio aos assuntos políticos. Recorre ao exemplo do Schulze-Delitzch (Alemanha, 1808-1883), primeiro promotor de associações mútuas de crédito, onde não se perspectivava a influência política, apenas se empreendia associações de pessoas que, conformadamente, desenvolviam a consciência de não esperar nada do Estado, mas apenas se associando como forma de suprir suas carências entreajudando-se. Tal como Lassalle, Bakunin se opunha a essa forma de associação. O que essas associações promoviam era, no seu entendimento, o desinteresse pelos problemas político-sociais e pelas questões de propriedade. Restringiam então a ação dos trabalhadores a tornarem as suas condições de existência aceitáveis ao invés de promoverem uma revolução social que subvertesse a ordem social e a sua forma de propriedade. Lassalle havia argumentado que,
Sob o regime econômico atual a condição do proletariado, não só não pode ser suprimida, mas irá, ao contrário, em virtude de uma lei econômica inelutável, piorar de ano a ano, a despeito de todas as tentativas de cooperativismo, que só poderão ceder uma vantagem passageira e de curta duração a um número ínfimo de trabalhadores (LASSALLE apud BAKUNIN, 2003 [1873], p. 209).
Contudo, o Programa de Gotha viria clarificar que o posicionamento de Lassalle quanto a estas formas de associação nada tinha que ver com o de Bakunin. Enquanto Schulze- Delitzch recomendava que as pessoas buscassem a salvação em suas próprias energias, nada exigindo ao Estado nem à sociedade; Lassalle recomendava ao proletariado que se apoderasse do poder e que virasse esse mesmo Estado contra a burguesia. Lassalle acreditava que os representantes que o povo escolhesse por sufrágio universal iriam representar os seus interesses na Câmara. Mas o que Bakunin promovia era uma revolução social que abolisse o Estado. Os interesses do povo deveriam, de forma auto-organizada, ir realizando suas escolhas.
Portanto, quanto ao ponto defendido por Lassalle no Programa de Gotha, referente ao crédito ilimitado para as associações operárias de produção e consumo, Bakunin defende que são, na verdade, as ideias de Marx aí contidas. A conquista do Estado pela social-democracia e a posterior promoção do cooperativismo pela mão do Estado deveria assim ter condições para se generalizar.
Esta não é a revolução social que Bakunin defende mas, sim, uma revolução política liderada por um leque de intelectuais que dizem representar os interesses do povo. Através do cooperativismo esperam conseguir conciliar os interesses tanto dos capitalistas como da classe
trabalhadora, cedendo financiamento estatal para que estes possam tornar sua existência suportável, amenizando assim os conflitos e a agitação social.
Vê-se fundarem bancos populares, cooperativas de consumo e de produção, ocupam-se é evidente do problema da mulher, e intitulam-se ruidosamente de defensores da ciência, positivistas, e agora marxistas (BAKUNIN, 2003 [1873], p. 238).
Nesse sentido, Bakunin vislumbra, tal como Marx,14 a possível cooptação do cooperativismo pelos economistas burgueses. A impotência da produção cooperativa, quer para produzir dentro do sistema capitalista quer para subverter a lógica, leva a burguesia a olhar para o cooperativismo como uma forma de integração desta massa marginalizada. Para ele são reservados nichos de produção (sendo que os setores estratégicos continuam reservados ao grande capital), de onde os capitalistas podem inclusivamente retirar vantagem, como por exemplo através da terceirização de parte da produção. Por isso, Bakunin levanta que as práticas do cooperativismo, como se apresentam na proposta do Programa de Gotha, podem ser encaradas pela burguesia como um para-raios da revolução.
Entende-se então que Bakunin, tal como colocado na Internacional, concorda com a necessidade da propriedade ser convertida em propriedade coletiva, sem o qual a Revolução Social não pode acontecer. Enquanto isso não acontecer, as cooperativas não conduzem a elas mesmas, i.e., ao não apresentarem condições para subverter a lógica capitalista não têm, portanto, condições de se generalizar. Desse modo, não passam de formas de contornar a problemática social, pela promoção da auto-organização entre as pessoas para tornarem a sua subsistência possível.
Apesar disso, Bakunin valoriza as cooperativas, visto serem formas de organização dos trabalhadores. Mesmo não tendo condições de, isoladamente, promover uma nova ordem, elas promovem a união entre os trabalhadores.
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Informado por Engels de que o governo prussiano estava concedendo subvenções governamentais a cooperativas que convinham a seus negócios, onde os cooperados operavam em condições miseráveis, Marx apresenta então, no seu livro a Guerra Civil na França, considerações quanto ao tema, quando diz que “Mas como se explica, então, que os indivíduos das classes dominantesm que são suficientemente inteligentes para perceber a impossibilidade de manter o sistema atual – e eles são muitos – , tenham se convertido em apóstolos abstrusos e prolixos da produção cooperativia?” (MARX, 2011 [1871], p. 60). Quer isto dizer, que também Marx entendia que as cooperativas podiam se apresentar como vantajosas para os capitalistas, e ser encaradas, portanto, não só como um pára-raio da revolução, mas também como um fuga para a tendência da queda da sua taxa de lucro.