4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.4 ANÁLISE DOS ATRIBUTOS DE GOVERNANÇA NO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO PLANO ESTADUAL DE
4.4.4 Elementos de coprodução do bem público
Como falado na fundamentação teórica sobre Governança Pública, alguns elementos de coprodução do bem público compreendem o conceito de Governança Pública. Assim, neste trabalho examinamos os elementos de coprodução a seguir:
Cooperação entre Estado, sociedade e mercadoEmbora o envolvimento do mercado nas atividades do Estado seja cada vez maior na sociedade contemporânea, influenciada pela New Public Management, no processo de elaboração do plano de cultura não houve envolvimento de nenhum segmento de mercado. Assim, a cooperação se deu apenas entre sociedade e Estado. E talvez aqui seja onde mais fortemente um atributo de Governança se destaca, já que efetivamente aconteceu uma cooperação entre estes dois atores, onde o Estado entrou com o aparelho burocrático e coordenação e a sociedade com as proposições – conteúdo do plano estadual de cultura. Para a RS4, havia uma “Relação [entre Estado e sociedade era de] de cooperação, onde todos trabalharam para a mesma finalidade.”. Resposta semelhante foi dada por RS12 “a relação era de colaboração e entendimento”. Claro que os embates, como veremos mais a frente, existiram, mas importante verificar que a construção de um plano de cultura com a perspectiva da participação, requer que haja essa cooperação, ao menos entre sociedade e Estado.
Compartilhamento de responsabilidadesComo visto na literatura, a coprodução pressupõe um compartilhamento de responsabilidades entre os atores que coproduzem. Isso pode ser verificado a partir da forma como o conteúdo do plano foi produzido, por meio de inserção das demandas feitas por qualquer participante e aprovada em plenária com representatividade da sociedade civil. As entrevistas também confirmaram essa colocação. Quando perguntada de quem era a responsabilidade pelo conteúdo do plano, a EE2 argumenta: “Eu acho que é da própria sociedade. Porque a gente deu o material, a estrutura, mas eles é que decidiram, eles é que votaram e validaram as propostas, então a responsabilidade é de todos né”.
Do ponto de vista do conteúdo, ou seja, da elaboração das proposições do plano estadual de cultura catarinense, houve uma responsabilidade compartilhada entre os coprodutores sociedade e Estado. No entanto, identificamos que, tanto sociedade quanto Estado compartilharam a responsabilidade pelo conteúdo do plano, mas não pelo processo de condução da elaboração do plano. Como já falado anteriormente, as atividades operacionais, de marcação de reunião e local, compilação dos dados, formato padrão de relatório, matriz pré- elaborada, etc., foram atividades quase exclusivas do poder público, apenas algumas comissões regionais realizaram a compilação dos dados. A realização dessas atividades por parte da sociedade civil é importante, pois “ao participar, o cidadão passa a acessar e a se utilizar do aparato institucional, o que permite, também, redefinir suas concepções de bem público e ampliar sua capacidade de contribuir para serviços de melhor qualidade.” (ROCHA et al, 2012, p. 6). Mas como falamos anteriormente, esse tipo de arranjo depende muito da maturidade com que a sociedade civil lida com as atividades coprodutivas (PROPOIUCK e FREY, 2008), da capacidade do Estado em conduzir relações harmônicas para esse compartilhamento, e também das condições estruturais (de deslocamento, de comunicação, de material de escritório, de ambiente físico, etc.) para que a sociedade de fato possa realizar atividades que necessitam de tais estruturas. Assim, considerando a participação da sociedade na elaboração do conteúdo do plano de cultura, é possível afirmar que houve responsabilidade compartilhada na construção do conteúdo do plano, mas com restrições em relação às responsabilidades de condução do processo incluindo atividades operacionais.
Relação de confiançaEste foi um dos pontos mais frágeis que encontramos quando da coleta de dados. Conforme resultado do trabalho de Raquel (2012) Governança Pública demanda novas habilidades de gestão, tais como: comunicação, colaboração, confiança e diálogo. Quando perguntados como estas habilidades estiveram presentes no processo de construção do plano de cultura em Santa Catarina, numa escala de “muito presente”, “presente”, "razoavelmente presente”, “pouco presente” e “ausente”, apenas 13% dos correspondentes consideram que confiança esteve muito presente e presente durante todo o processo de construção
do plano. Comparado com as outras habilidades de gestão, confiança foi a que obteve menor nota, conforme podemos verificar na tabela a seguir. Tabela 6 - Nota dada pelos entrevistados e respondentes de SC referente às habilidades de gestão
Habilidades de Gestão
Nota (transformada numa escala de 0 a 10)
Comunicação 6,6
Confiança 6,5
Colaboração 6,1
Diálogo 6
Este é o mesmo resultado das entrevistas até mesmo com os representantes do poder público estadual, que também consideram “confiança” como a habilidade de gestão que menos esteve presente no processo. A explicação é resumida pela EE2.
Porque eles confiam desconfiando. Porque o governo estava muito desgastado com a questão cultural, então a gente foi pra rua num momento que o fundo não estava pagando os projetos. A secretaria tem um histórico de pagar milhões pra coisas influenciadas politicamente.
Esta desconfiança vem de todo um histórico de insatisfação por parte dos agentes culturais em relação à gestão pública de cultura catarinense55. Ciente disso, a EE2 complementa: “Então a gente foi pra rua para tentar resgatar a confiança”. Desse modo, o processo de construção do plano de cultura ajudou no sentido de que “a prática da participação possibilitada pela coprodução do bem público auxilia a aumentar a confiança pública no governo” (Klein et al, 2012) ao menos foi um aprendizado para representantes do Estado que estiveram envolvidos no processo, como afirma a EE2: “hoje a gente já tem um contato maior com os municípios, o nome das pessoas, tudo que a gente conheceu dentro desse processo na área cultural, a gente viu a necessidade de estar mais junto, no interior.”.
55 Para entender um pouco do processo de resistência à gestão pública de cultura catarinense , ler Borges e Dellagnelo (2013).
Resta-nos observar que se o processo de construção do plano foi marcado por certa desconfiança da sociedade para com o poder público, é necessário que se faça um grande esforço para que o plano não seja apenas um número de lei, mas haja um esforço, coordenado pelo Estado, para a implementação do mesmo.
Para finalizar este subcapítulo, resumimos no quadro abaixo como se deu todos os quatro atributos de Governança Pública no processo de construção do plano estadual de cultura de Santa Catarina. Quadro 3- Resumo atributos de Governança Pública em Santa Catarina (legenda ao final do quadro) Atributos Santa Catarina Caracter ização Resumo Redes e outros espaços deliberativos de gestão
Criaram espaços deliberativos de gestão, como as comissões regionais, os Fóruns regionais, o Fórum estadual. Houve elementos que mostram uma articulação em direção à formação de redes, como a horizontalidade nas relações, bem como discussões, desacordos e deliberações. Porém, justamente essa dimensão política de discussões, negociações, etc., foi solapada por uma dimensão administrativa de base burocrática.
Estado com papel de ativador, coordenador e mediador do processo de cooperação.
Não dá para negar que houve um esforço por parte do Estado em descentralizar suas atividades, repassando às comissões atribuições específicas. No entanto, a forma como isso foi feito, denunciada pelos respondentes da sociedade civil, implicou em caracterizarmos o Estado com papel discricionário em alguns momentos da elaboração do PEC. Além disso, enquanto ativador, coordenador e mediador, o Estado na verdade falhou em seu papel de envolver harmonicamente os diversos atores e de facilitar as interações sócio-políticas. Eficiência e
eficácia na perspectiva da responsividade
Este foi um atributo que se deu de forma bastante precária no processo do PEC catarinense. O que podemos concluir dos dados é que houve pouca
e accountability preocupação por parte do Estado com a responsividade e accountability,
tornando o processo pouco eficiente e eficaz neste sentido. A busca por um grande número de participantes foi falha; o Estado pouco se esforçou em demonstrar as proposições acatadas após compilação, de modo a garantir o acolhimento das sugestões feito de forma democrática. Também não visualizamos questões de
accountability embora os respondentes
e entrevistados tenham tido um olhar positivo sobre a transparência do processo.
Elementos de coprodução do bem público
Alguns elementos da coprodução do bem público estiveram presentes de forma a contribuir para um processo de governança pública, mas ainda precisa haver um esforço maior no sentido de geração de confiança entre os agentes coprodutores, sendo esta a questão mais falha deste atributo no processo catarinense.
Legenda dos círculos: verde= Bom
verde + amarelo= entre bom e razoável amarelo = razoável
amarelo + vermelho= entre razoável e precário vermelho = precário
Uma análise conjunta dos atributos de Governança Pública dos estados de Santa Catarina e do Acre foi feita no capítulo 5.
4.5 BREVE HISTÓRICO DA GESTÃO CULTURAL E CONTEXTO