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Elementos da crise III: o esvaziamento utópico

No documento MESTRADO EM DIREITO PUCSP SÃO PAULO, 2007 (páginas 66-70)

CAPÍTULO I – A Democracia: Tentativa de Conceituação

1.3. As Crises dos Modelos de Democracia

1.3.4. Elementos da crise III: o esvaziamento utópico

É possível entender a crise da democracia pelo esvaziamento do conflito clássico entre os segmentos sociais economicamente antagônicos, ou seja, o enfraquecimento da “luta de classes” como motor da história56. Na medida em que a sociedade tornou-se mais complexa, recrudesceram as tensões sociais, que se renovaram a partir das demandas surgidas com o aparecimento de novos atores políticos. Para além da disputa entre democracia liberal e democracia social, pensamento liberal versus pensamento social,

56 Tal perspectiva resulta por negar o aforismo marxista segundo a qual “até hoje, a história de

todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, descrita no Manifesto do Partido Comunista, de 1848. (ALENCAR, Chico. Manifesto

descortinam-se novos cenários que redundaram no enfraquecimento do modelo clássico de representação política.

As relações políticas do pós-guerra, travadas a partir da polaridade entre EUA e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), impactaram sobremaneira as concepções de democracia, impondo distinções ideológicas no campo das formas de governo. A expectativa de afirmação de certos direitos (direitos civis e políticos, ditos auto-aplicáveis, por um lado) em detrimento de outras garantias (direitos econômicos, sociais e culturais, considerados de aplicação progressiva e programática, por outro) negava a concretização holística dos direitos humanos, tal qual pugnada pela internacionalização dos direitos humanos, a partir da criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948).

“(...) as bases sociais da vida política foram-se enfraquecendo e deslocando à medida em que tais países abandonavam a sociedade industrial que era dominada pela oposição entre empregadores e assalariados. Nessas sociedades, a maior parte da população ativa não faz parte do mundo operário, nem do mundo dos empresários, ainda que sejam pequenos artesãos ou comerciantes. (...) Mais ainda, essas sociedades são definidas tanto pelo consumo e comunicação de massa, pela mobilidade social e migrações, pela variedade de costumes e defesa do meio ambiente, quanto pela produção industrializada, de tal modo que é impossível basear a vida política em debates e atores que só correspondem de forma bastante parcial à realidade.” 57

Importa afirmar que ambos os movimentos, liberal e social, encontram-se enraizados na mesma base filosófica, o iluminismo, que

fundamenta toda a Modernidade ainda não superada. A transformação vivenciada no final do século XIX teve como referencial teórico idéias de contestação ao liberalismo, sem, contudo, terem sido capazes de romper com o conceito de progresso e crença na infalibilidade do cientificismo.

As certezas das revoluções burguesas e do pensamento social do século XIX, que impulsionaram os movimentos esquerdistas no século XX, apontavam a conquista da liberdade e da igualdade sem considerarem o elemento do imponderável, representado pela dinâmica própria da sociedade. Deste modo, a crise do paradigma da modernidade será, também, a crise das formas de governo que encontram as suas raízes no apego ao racionalismo científico do século XVIII, ainda hoje presente.

A tragédia do período histórico atual é a ausência de um referencial utópico viável à efetivação do jogo democrático, ou seja, que sirva de instrumentalização às práticas efetivamente democráticas, pois vincula uma ação a um desejo social, orientando a realização do Estado a partir dos anseios de cidadania.

Paralela ao processo de esfacelamento das ideologias de cunho liberal ou social, ocorreu a expansão da funcionalidade das regras do mercado sob todos os domínios da vida social: ciência, tecnologia, medicina, educação, economia, entreterimento, até mesmo a política. Todos eles, revisitados pelo viés mercadológico, passaram a constituir um novo cenário em que a força dos mercados submete o Estado ao império dos seus objetivos. O locus público, que é por excelência plural, e onde se realizam as interações sociais, passa a ser apossado pelas ações que se voltam à afirmação da ideologia

mercadológica das grandes empresas. Tem-se a subordinação do poder político ao ideário do mercado.

A atuação do mercado sobre a esfera política estatal esvazia a democracia de sentidos coletivos. A ideologia do mercado não satisfaz a continuidade do processo democrático por não inaugurar qualquer doutrina política de Estado, não havendo qualquer interesse nesse sentido. Desconsideram-se, destarte, os interesses de cidadania, tornando oco o espaço público.

“Vista por baixo, a crise política traduz-se pelo desmoronamento do social, e por isso, a termo, da própria sociedade. De facto, a transformação dos problemas pela sua dimensão e sua tecnicidade, pela complexidade das intermediações e da simplificação mediática das encenações, desproveu os eleitores, e muitas vezes os eleitos, da possibilidade de conhecer e do poder de decidir. A manipulação combinada à impotência esvaziou a cidadania de qualquer conteúdo. O funcionamento quotidiano da megamáquina implica esta abdicação por motivos muito terra-a-terra: a privação produtiva e a ausência de desejo de cidadania.” 58

A ausência de uma ideologia axiologicamente vinculada à prática democrática, bem como a afirmação das regras do mercado sobre as normas estatais, ainda que manifesta apenas na extra-oficialidade, contribui para a dispersão da sociabilidade contemporânea, gerando um indesejado distanciamento entre a cidadania e as questões públicas, permanecendo aqueles que, em sua maioria, envolvem-se na política a partir da contraposição de interesses particulares. O alargamento da extensão povo–Estado, que

58 LATOCHE, Serge. Os perigos do mercado planetário. Trad. Nuno Romano. Lisboa,

outrora se vinculava a partir da forma de governo, implica em ameaça à própria instituição democrática, pois se esvazia de sentido material e legitimidade social.

Deste modo, como alternativa ao vazio utópico, emerge a necessidade de atrelar aos modelos de democracia o princípio vetor do Estado Democrático de Direito, a dignidade da pessoa humana, enquanto princípio ético-jurídico que orienta as relações jurídico-políticas do Estado e dos particulares. Objetiva-se responder as demandas de inspirações democráticas do final do século XX, mais sensivelmente abstraídas no florescer do novo século. Essa idéia, por seu turno, deve estar absolutamente enraizada na compreensão do indivíduo como um ser político, reconhecido a partir de sua inserção como ator social numa determinada comunidade política que é, por excelência, complexa.

No documento MESTRADO EM DIREITO PUCSP SÃO PAULO, 2007 (páginas 66-70)