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ELEMENTOS DE CIRCULAÇÃO VERTICAL: RAMPAS E ESCADAS

No documento AS CASAS DE MÁRIO DI LASCIO (páginas 132-136)

interior e exterior diferencia-o do corredor convencional, confinado entre paredes e conectando ambientes

3.2.2. ELEMENTOS DE CIRCULAÇÃO VERTICAL: RAMPAS E ESCADAS

Ao analisar o conjunto de 50 casas de Mário Di Lascio entre 1957 e 1979, encontramos apenas 13 edificações que são efetivamente térreas. As demais distribuem seus espaços em mais de um pavimento, e por vezes, em níveis intermediários. Frente a esse dado, ressaltamos a relevância de estudar as rampas e as escadas, os elementos de circulação vertical empregados para conectar ou separar os espaços situados em cotas diferentes nas 37 moradias restantes (tabela 09).

Qtd. de níveis/pavimentos Qtd. de casas

Apenas térreo (T) 13

Térreo + nível intermediário (T + 0,5) 07

Térreo + pavimento (T + 1) 12

Térreo + pavimento e nível intermediário (T + 1,5) 16*

* Não localizamos as plantas de 02 casas, mas possivelmente entrariam nessa categoria.

Tabela 09: Número de pavimentos das casas estudadas. Fonte: Elaborado pelo autor, 2019.

Nos anos 1950, e nas duas décadas seguintes, o uso de rampas em meio-nível se tornou uma tática de organização dos espaços amplamente difundida na arquitetura moderna brasileira, somando-se a um repertório construtivo também composto por telhado borboleta, azulejos decorados, volume trapezoidal, pilotis, plantas com desenho em “L” e "H", brise-soleil, dentre outras soluções que, em variadas escalas e formas, aparecem na obra de Mário Di Lascio.

Em 12 residências a circulação vertical é através de rampas: 06 casas no seu primeiro momento de produção entre 1957 a 1970; 06 na década de 1970. Todavia, notamos que esta solução projetual nem sempre estava associada a uma edificação com linguagem vinculada ao modernismo, ou com os demais elementos deste vocabulário. E mais, nem sempre a rampa promovia uma espacialidade ordenada por princípios modernos – como, por exemplo, aquela relacionada ao promenade architecturale, promovendo uma nova experiência de movimento no espaço doméstico, a partir da possibilidade de atravessar um ambiente com alturas distintas, vislumbrar amplas perspectivas, enquadramentos do interior da moradia e variações na qualidade do espaço percorrido (AMORIM, 2012, p. 36). Na tabela abaixo (tabela 10) sintetizamos os tipos de utilização da rampa identificados:

Posição da rampa Característica Qtd.

Internas (contidas num volume único)

Solta no espaço amplo; separa os ambientes sociais. 04 Enclausurada entre paredes ou esquadrias. 03 Externas (resulta num

volume à parte da residência)

Entre bloco monofuncionais; vence níveis intermediários. 04 Entre térreo e 1º pavimento; vence o vão completo. 01

Tabela 10: Tipos de soluções projetuais adotando rampa. Fonte: Elaborado pelo autor, 2019.

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Primeiramente, nos anos 1960 identificamos o uso da rampa contida dentro de um volume, por vezes em "asa de borboleta", possibilitando a conexão física e visual de níveis distintos. A casa João Soares de Carvalho (ficha 01) expressa esta estratégia: um primeiro lance da rampa parte do nível térreo, onde se distribuem os ambientes sociais, conectando-os ao setor íntimo, e os respectivos dormitórios para os hóspedes e "filhos". Desse nível segue um segundo lance, que dá acesso ao quarto e demais ambientes destinados ao casal. As salas de estar e jantar, por sua vez, apresentam o pé-direito duplo, resultado dessas operações espaciais e técnico-construtivas.

Já na residência do arquiteto (ficha 05), também encontramos o uso da rampa numa disposição que pode ser considerada moderna. A casa apresenta quatro níveis intermediários, sendo os dois primeiros vencidos por um lance de escadas e assentados sobre o próprio solo. Os níveis construídos em laje de concreto armado, referente aos andares superiores, contudo, são conectados por uma rampa que cruza todo o espaço social, este, com vasto pé direito e permeado por jardins laterais: amplitude e luz; separação física, mas contato visual entre os setores; integração com a natureza – uma concepção de vivência do espaço doméstico nova, presente nestes imóveis, embora em arranjos distintos.

Por outro lado, a casa para o governador Pedro Gondim (ficha 08) é um exemplo de como pode estar incorporada a outro conceito. A edificação não apresenta níveis intermediários, mas sim, dois pavimentos com pés-direitos iguais de 2,70 metros de altura. A rampa é o único meio de circulação vertical da edificação, conectando o setor social ao setor íntimo, localizado no andar superior – no entanto, é construída numa atitude insólita, à parte do volume que contém os setores funcionais da casa. Trata-se de um elemento extremamente longo e contínuo (vence a altura de 3,15 metros), sem patamares e com formato curvo, cuja interação mais forte é com o vazio residual gerado em seu centro, possivelmente um jardim.

Outro caso de destaque é a residência Everaldo Vieira dos Santos (ficha 12). Sem empregar níveis intermediários, a casa é dotada de duas circulações verticais. Com efeito, ao analisar sua planta e setorização também encontramos duas entradas distintas. O acesso norte parece ser considerado o principal para os visitantes quando observamos o rótulo que recebe na planta, "pórtico principal". Este, por sua vez, se abre para um vestíbulo dotado de uma escada imponente, bifurcada e com traços "clássicos", embora construída em concreto armado. Já a entrada a leste parece ser dedicada aos membros da família por ocorrer através de um terraço mais amplo, desenhado de forma irregular, e uma sala, ambos designados como "íntimos". Próximo a estes recintos, localiza-se uma rampa bastante funcional, sem apelos estéticos ou simbólicos: possui dois lances disposto em "U", está enclausurada entre paredes, com

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poucas e pequenas aberturas para o exterior; e, no espaço residual sob o vão da rampa situa-se um banheiro social, marcando o aproveitamento máximo da construção, sem a preocupação por criar um passeio arquitetônico.

Notamos que nos anos 1970, a rampa passou a ser empregada com outra lógica: num volume à parte do restante da edificação, conectando pavimentos distintos em casas binucleares, com blocos monofuncionais autônomos entre si, resultando em pátios residuais. Residências como a José Farias Neves (1973), Francisco Xavier Sobrinho (1976) e Múcio Antônio Souto (1979) são exemplares dessa tipologia de implantação em formato "H" e de distribuição espacial em pisos intermediários, os quais foram estudados anteriormente, por remeterem justamente a um esquema de organização moderno, em voga em vários lugares do Brasil nesta década (COTRIM, TINEM e VIDAL, 2012). Entretanto, optamos por ilustrar tal tática por meio da Residência Antônio Cristovão Araújo (ficha 17), menos conhecida, a qual demonstra mais uma possibilidade das coexistências entre soluções espaciais e construtivas associadas ao Movimento Moderno, e referências formais, mais arraigadas a linguagens preexistentes na cidade e de origem "tradicional".

Nesta residência, do ponto de vista da planta de coberta, notamos dois blocos autônomos. O volume com formato em "L" corresponde ao setor social e ao setor de serviços, este último, na porção mais estreita. Essas zonas são intermediadas pelo ambiente rotulado como "almoço", e estão implantadas pousadas sobre o solo, mas em aterro, a 1,55 metros de altura do nível exterior, sendo acessadas por um lance de escadas que alcança generosos terraços. O segundo volume é implantado sobre pilotis: no nível térreo localiza-se a garagem; no nível superior, o setor íntimo. A rampa que conecta estes blocos é parcialmente confinada entre paredes, pois a distância entre eles não é muito extensa (o elemento de circulação possui aproximadamente 10,50 metros de extensão, mas apenas 3,80 metros estão suspensos entre os blocos). Do ponto de vista da linguagem a referência é clara – casa assobrada e avarandada, protegidas por guarda-corpos feitos em treliças de madeira, cobertura em telha cerâmica e amplos beirais, esquadrias de venezianas e fechamentos pintados em branco. Ou seja, um conteúdo interior organizado com estratégias de circulação modernas, mas um invólucro em que predomina uma imagem tradicional.

Apesar do destaque que temos dado à rampa, na realidade, a escada é o modo de circulação vertical mais empregado, presente em 25 exemplares. Em 19 casos, é o único elemento para promover o movimento em altura; nos demais 06 imóveis, desempenha esse papel em conjunto com a rampa, como na casa Antônio Cristovão Araújo e a residência do arquiteto, apresentadas anteriormente.

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Ao olhar esse elemento construtivo novamente encontramos concepções projetuais relativas às rampas. A casa Diocélio Nascimento (ficha 09) representa uma estratégia que verificamos em outras 05 moradias, embora tenham particularidades nos seus arranjos. A escada em "U" é sustentada por uma parede estrutural central, revestida de mármore; seus degraus promovem leveza ao espaço, pois são soltos e se tornam mais delgados nas extremidades, sendo uma solução inovadora naquela época. Nesse exemplo, a escada é um elemento independente das alvenarias da edificação; é posicionada no centro das salas, de frente à entrada da residência. Desse modo, não apenas funciona como circulação vertical, como também delimita movimentos horizontais. O usuário, ao chegar, depara-se com a escolha de ir para o lado aonde localizam-se os espaços sociais (salas de estar, jantar, visitas), ou para o outro, onde estão os ambientes mais resguardados (copa, gabinete, quarto de hóspedes). Além desse papel na distribuição dos caminhos, a escada é contida num pé-direito duplo. Representam táticas espaciais que possibilitam uma fluidez e integração visual entre os ambientes, demarcando uma abertura e informalidade dos espaços de convívio familiar e social, embora ainda preservem a intimidade dos dormitórios.

Mas, identificamos outras 05 residências em que a conexão entre os pavimentos se dá através de escadas enclausuradas e não promovem uma maior amplitude e integração visual. Na casa José Carlos da Silva e Augusto Rodrigues da Silva (ficha 16) a escada é disposta em "U" e situada de um modo mais rígido, estando confinada entre paredes, sem proporcionar uma leitura do espaço moderno. Porém, nestes exemplares, é intrigante como o elemento de circulação ganha destaque no invólucro da edificação, tornando-se mais um elemento plástico-compositivo da volumetria. Esteticamente parecem estar seguindo outras referências, destoantes do restante das moradias, uma vez que são casas com aparências tradicionais, rompidas por um volume prismático e saliente, com esquadrias de vidro.

Por fim, destacamos 02 exemplares que utilizam lances de escadas para vencer alguns desníveis – algo representativo, pois ao menos 18 imóveis apresentam níveis intermediários. A principal diferença está na posição da escada, os setores que separam. Na casa Adjanits Mesquita (ficha 03) o setor social compreende a sala de estar, contínua aos terraços e situada na cota +0,45 metros; e a sala de jantar, situa na cota + 1,45 metros. Todo restante da moradia distribui-se sobre esse patamar mais elevado. Já na destinada a Petrônio Vilar Faraco (ficha 19) a escada tem a função específica de promover acesso aos dormitórios, sendo o setor íntimo o único elevado do solo. Enfim, são exemplos de casas de menor dimensão, mais modestas, porém, que incorporaram as modernas soluções em nível e as resolveram de modo funcional dentro do ambiente doméstico, conferindo uma maior privacidade aos quartos ou

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maior dinâmica nos ambientes sociais, sinais da incorporação e propagação dos princípios mais atuais.

3.2.3. ELEMENTOS DE CIRCULAÇÃO HORIZONTAL: HALLS, VESTÍBULOS E CORREDORES

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