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Elementos de Desconexão: Os Processos e Formas Deposicionais em Ambiente

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 DESCONECTIVIDADE DA PAISAGEM EM AMBIENTES SEMIÁRIDOS

2.2.1 Elementos de Desconexão: Os Processos e Formas Deposicionais em Ambiente

Os sedimentos podem ser mobilizados na superfície da terra e movidos diretamente ao sistema fluvial por escoamento superficial, por exemplo. Uma vez adicionados ao sistema fluvial, os sedimentos podem percorrer longas distâncias, ou serem armazenados/depositados nos canais ou áreas adjacentes até serem retrabalhados novamente (CHURCH et al., 2009).

Collinson (1996) e Scherer (2008) apontam que o transporte e deposição de sedimentos em ambientes aluviais ocorrem comumente por fluxo de detritos, fluxos plásticos e laminares ricos em sedimentos mobilizados por liquefação. Os autores destacam a carga de fundo como

a principal forma de transporte fluvial, movimentando os grãos individualmente ao longo do substrato através de correntes trativas, transportando por arrasto ou rolamento, e assim resultando no desenvolvimento de diferentes tipologias de leito, controladas pela granulometria e a velocidade do fluxo. Já a carga em suspensão é responsável pela deposição de sedimentos de granulometria fina em regiões de baixa energia.

A deposição dos sedimentos ocorre quando a competência e a capacidade do fluxo é reduzida. O processo em si ocorre em uma escala muito pequena e envolve grãos individuais, embora as formas de deposição possam ser observadas ao longo de uma ampla gama de escalas espaciais, desde as menores formas no leito a vastas planícies aluviais e deltas (CHARLTON, 2008). Assim, os rios atuam transportando água e sedimento para jusante, e gastam energia executando o trabalho geomorfológico através dos mecanismos de degradação e agradação. Portanto, quando um rio apresenta mais energia do que a necessária para deslocar a sua carga de água e sedimentos predominam os processos de erosão no canal e áreas adjacentes. Já quando o fluxo apresenta exatamente a energia que é requerida para manutenção de sua forma, o canal é estável. Nos casos em que há um déficit de energia, resulta o desenvolvimento de diferentes formas de deposição (FRYIRS & BRIERLEY, 2013).

No entanto, a capacidade de transporte está também associada ao tamanho das partículas, assim, os sedimentos mais grossos tendem a ser depositados primeiro, seguido das granulometrias mais finas. Ou seja, têm-se uma triagem sedimentar, uma gradação vertical e horizontal de sedimentos, de grossos a finos (CHARLTON, 2008; SCHERER, 2008; FRYIRS & BRIERLEY, 2013). Portanto, a distância que o material se move será inversamente proporcional ao tamanho de grão/partícula, os materiais menores são mais facilmente movidos pela força da água, e são passíveis de serem mobilizados a longas distâncias em pouco tempo (CHURCH et al., 2009).

Para Charlton (2008), a deposição ocorre por diferentes processos: a) redução do fluxo, que ocorre sobretudo em rios de terras secas, onde as perdas à jusante são causadas pelas altas taxas de evaporação ou bloqueios no canal e nos interflúvios; b) diminuição da declividade, ou uma redução gradual ao longo do canal, causando uma redução na velocidade média do fluxo, favorecendo a deposição; c) aumento na área da seção transversal, que faz com que haja divergência do fluxo, tornando-o menos concentrado; d) aumento do limite de resistência, associado à vegetação e tipologia do leito, de tal maneira que o aumento da rugosidade causa a redução da velocidade do fluxo, levando à deposição de sedimentos em suspensão; e) obstrução

de fluxo, neste caso os sedimentos frequentemente se acumulam por trás de obstruções/bloqueios, naturais como afloramentos de rochas e ilhas, restos arborizados e antrópicos, como infraestruturas artificiais, ou seja, pilares de pontes, barragens e estruturas de controle de fluxo. As alterações no fornecimento de sedimentos também são consideradas; assim o aumento na oferta de sedimentos à montante do canal, influenciam os processos deposicionais à jusante.

Embora a deposição de sedimentos ocorra também nas zonas de produção e de transferência no sistema fluvial (SCHUMM, 1977), o processo de deposição é dominante onde há declínio no gradiente e na disponibilidade de energia. Em grande escala, a deposição leva ao desenvolvimento de formas de relevo características, como as planícies aluviais, leques aluviais e deltas. Em menor escala, dentro dos canais, barras fluviais representam as formas comuns de deposição (CHARLTON, 2008; SCHERER, 2008). Estas barras normalmente desenvolvem-se no interior das curvas de meandro (barras em pontal), ao longo das margens de canais (barras laterais), e na confluência entre canais, além de se formarem no interior dos canais (barras de meio de canal/barras longitudinais), como nos padrões entrelaçado e anastomosado.

As barras em pontal desenvolvem-se em forma de arco ao longo das margens convexas das curvas dos meandros, seguindo o alinhamento da curva. Formam-se através do deslocamento lateral do canal associado à deposição na margem convexa e erosão na margem côncava, que ocorre devido a diferenciação de velocidade do fluxo entre a porção externa do meandro e as porções internas (SCHERER, 2008). As barras laterais se formam por processos de acreção laterais ou oblíquos, com a deposição de materiais de carga suspensa no topo da barra. Este tipo de unidade desenvolve-se ao longo de canais de baixa sinuosidade, de carga cascalhosa a mista. A superfície da barra é geralmente inclinada suavemente em direção ao canal e ocorrem em lados alternados do canal. As barras longitudinais são formadas dependendo do caráter do material do leito e da competência do fluxo para transportá-lo. Estas barras formam-se devido à grande quantidade de sedimentos transportada através do canal durantes os períodos de alta descarga, que quando reduzida a velocidade do fluxo são depositadas no canal, produzindo um deslocamento/bifurcação do fluxo. Geralmente são formadas por materiais distintos e sobrepostos (SCHERER, 2008; FRYIRS & BRIERLEY, 2013).

Para Graf (1988), entre os depósitos fluviais comuns em terras secas, incluem-se os de canais entrelaçados e meândricos, os de planícies de inundação e leques aluviais. Canais entrelaçados produzem depósitos de areia e cascalho com conjuntos transversais criados pela

migração de dunas, barras e ondas de areia. Canais meândricos, que transportam sedimentos entre as frações areia ou areia e cascalho desenvolvem fácies distintas das dos canais entrelaçados. Canais meândricos migram durante eventos de maior fluxo, capazes de transportar sedimentos maiores, resultando na acumulação de sedimentos grosseiros nas barras em pontal, porém são relativamente raros em terras secas (GRAF, 1988).

Entre as formas deposicionais, as planícies de inundação representam áreas de acumulação de sedimentos aluviais entre os bancos de canal e a margem do vale, proveniente do extravasamento de fluxo no canal (FRYIRS & BRIERLEY, 2013). A sedimentação em planícies de inundação ocorre por causa da redução de declividade e a existência de espaços de acomodação, promovendo a dissipação de energia, permitindo que os materiais em carga suspensa sejam estocados (SCHERER, 2008). Fryirs e Brierley (2013) sinalizam que a presença de planícies de inundação através do perfil longitudinal, marca a transição dos processos dominantes num gradiente de energia. Esta transição reflete uma mudança de atividade na zona fonte, caracterizada por processos de erosão e transporte de materiais com ocasionais estoques de sedimentos grosseiros, a curto prazo, para uma zona de transferência, em que os processos fora do canal criam espaços de acomodação para os sedimentos em planície de inundação. Estes sedimentos em planície de inundação podem sobrepor-se a outros depósitos e serem retrabalhados em depósitos relacionados a canais subsequentes (GRAF, 1988; CHARLTON, 2008). O alto grau de variação de magnitudes de cheias em bacias hidrográficas de terras secas resulta em depósitos de planícies de inundação em vários níveis acima do nível de base do canal, além da planície de inundação contemporânea (GRAF, 1988). Portanto, a análise sedimentológica dos depósitos em planície de inundação pode fornecer informações importantes sobre a evolução do rio e de suas condições paleoambientais.

A morfologia das planícies de inundação está intimamente ligada com a forma e o comportamento dos canais que as moldam. Vários processos de deposição, retrabalhamento e erosão estão envolvidos na formação e desenvolvimento das planícies de inundação. Os sedimentos se acumulam nas superfícies das planícies de inundação por vários processos de acreção, sendo os principais, a acreção vertical e lateral (CHARLTON, 2008; SCHERER, 2008; FRYIRS & BRIERLEY, 2013).

Os depósitos aluviais apesar de bastante representativos e bastante complexos no registro estratigráfico, foram negligenciados por muito tempo, devido à falta de reconhecimento dos rios em seu papel como sítio de acumulação e estocagem. No entanto, os depósitos fluviais

podem ser representados por espessos pacotes sedimentares e constituem-se importantes reservatórios e aquíferos aluviais, bem como detém atrativo papel econômico e mineral, com a ocorrência de depósitos de placers de ouro, urânio, diamantes e carvão (SCHERER, 2008).

Portanto, a análise das condições sob as quais os sedimentos são/foram depositados e preservados ao longo do vale é crucial para os esforços de reconstruir/interpretar a paisagem e suas potencialidades. Normalmente, o leito do canal é composto por depósitos de sedimentos recentes, enquanto que a distribuição de sedimentos em planícies de inundação representa uma diversidade de eventos deposicionais, passados e contemporâneos (FRYIRS & BRIERLEY, 2013). Em consequência disto, a análise dos sedimentos fluviais é a chave para a interpretação dos ambientes deposicionais, de tal modo, deve-se avaliar os processos e condições sob as quais os materiais foram depositados, estocados e preservados no vale fluvial, em diferentes escalas.

Os princípios hierárquicos podem ser aplicados para auxiliar na interpretação de sequências sedimentares. Várias escalas de feições sedimentares são esquematizadas. A interpretação significativa destas escalas de feições reflete os controles envolvendo os processos pelos quais o material é depositado, por meio da interação entre o canal e a planície de inundação, além dos controles de longo prazo que atuam retrabalhando o material (FRYIRS & BRIERLEY, 2013).

Enquanto os processos que depositam formas individuais refletem as condições de fluxos instantâneos, vales preenchidos refletem a evolução do sistema a longo prazo, provocado por tectônica, mudança climática, mudança no nível de base e respostas a eventos de perturbação. Esta é a dificuldade em atribuir dimensões específicas para unidades em diferentes hierarquias (FRYIRS & BRIERLEY, 2013).