CAPÍTULO 5 AS CMTS EM SÃO PAULO E O PROCESSO DE TRANSFERÊNCIA
5.1.5 Elementos de processos à jusante – os compradores 91
Outro ponto que foi investigado no estudo de caso é a questão do mercado da reciclagem já estabelecido e seu impacto nas CMTs. A questão central nesse item baseia-se nos níveis de quantidade e qualidade de triagem exigidos pelo mercado da reciclagem.
Segundo Campos (2013), se o RSU não for bem separado pode vir a comprometer as propriedades do produto final, devido a diversos contaminantes que podem estar presentes no resíduo mal separado. A demanda dos compradores é então por uma separação criteriosa, uma vez que cada processo de reciclagem dos
51 Informações disponíveis em
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/catabagulho/index.php?p=19780, acesso em
diversos tipos de materiais permitirá quantidades limites de contaminantes, incluindo aí materiais de outros tipos que possam estar misturados (VARELLA & CAMPOS, 2012). Acontece que a reciclagem de RSU proveniente de domicílios e da limpeza urbana é mais complexa, devido às diferentes contaminações que podem estar presentes, obrigando a inclusão de etapas, como separação adicionais, lavagem, secagem, moagem, cuidado com efluentes, etc (ZANIN & MANCINI apud CAMPOS, 2013).
Dessa maneira, a qualidade dos materiais recicláveis a serem comercializados deriva de atributos como: uniformidade do tipo de material, uniformidade da cor do material e ausência de materiais que possam vir a ser prejudiciais nos processos dos compradores.
Muitas vezes, as embalagens apresentam configuração multimaterial, ou seja, apresentam diferentes materiais em sua composição e/ou montagem. Por exemplo, a garrafa de água mineral em cima de minha mesa é formada por três materiais diferentes: a garrafa é feita de PET, a tampinha e o lacre são feitos de PP e o rótulo é feito de PS. Algumas ACs retiram tampinha, lacre e rótulo desse tipo de garrafa e conseguem, assim, maior qualidade e melhores preços para os produtos. Outras ACs separam ainda por cores, por exemplo, o PEAD, e conferem qualidade diferenciada ao seu produto (CAMPOS, 2013).
Cada cadeia produtiva da reciclagem, de cada tipo de material, possui um comportamento específico, e dessa forma os elos de cada uma se relacionam de maneiras diferentes, de acordo com as exigências específicas relacionadas à qualidade, escala, prazos, capacidade e frete. Campos (2013) explorou detalhadamente essas características em sua dissertação.
A lógica da comercialização das CMTs é diferente das ACs. As ACs vão até o mercado à procura de melhores preços e/ou condições possíveis. Isso não é uma realidade de todas as organizações de catadores, mas é uma tendência principalmente onde a demanda é mais diversificada, ou seja, onde existem vários potenciais compradores que acabam concorrendo pelo material52. Esse é o caso de São Paulo, onde catadores das ACs mantém relações com os compradores e estão
52 Por outro lado, em ACs mais distantes dos polos de demanda de materiais recicláveis, o que ocorre geralmente é a monopolização de um comprador local, que adquire os materiais das ACs por um preço significativamente menor que nos polos e os revendem.
constantemente realizando consultas visando melhorar a receita de suas organizações.
Já no modelo das CMTs, em vigência até o final dessa pesquisa (Dezembro/2015)53, a venda era feita pela internet, em um sistema que se assemelha à lógica de leilão. Os materiais ficam listados em um site54, onde qualquer interessado pode consultar a lista e os últimos preços praticados. Caso o interessado queira comprar certo material, basta ele oferecer um preço maior no próprio sistema. Uma diferença essencial dos modelos das ACs e das CMTs é então a relação com os compradores55.
O tecido industrial da cadeia da reciclagem brasileira está estruturado para receber materiais com uma certa qualidade, geralmente superior à observada nas CMTs. São materiais que, em sua grande maioria, passam pelas mãos dos catadores de materiais recicláveis, organizados nas ACs ou que vendem para sucateiros e ferros-velhos, como vimos no Capítulo 4. Os materiais produzidos nas CMTs, principalmente aqueles de baixa qualidade como o papel misto, são “produtos novos”, que o mercado não conhecia e não sabia, a priori, como lidar. Um dos operadores do Agente Operador (que passarei a chamar de AO01) afirmou em entrevista que no início da operação das plantas houve grande dificuldade de se vender o papel misto, pois nenhum comprador queria o material. Disse ainda que aos poucos, como os potenciais clientes foram percebendo a grande escala e a regularidade de produção do material, foram se adequando para absorvê-lo. Porém o processamento do papel misto das CMTs continua não sendo realizado nacionalmente. Até o fim da pesquisa, o material estava sendo vendido para uma empresa, que o revendia para a China56.
53 Há um indicativo que esse modelo mude já no início de 2016, com as Redes de catadores da cidade assumindo a função antes delegada ao Agente Operador, segundo fala do Secretário de Serviços Urbanos do município durante a ExpoCatadores 2016.
54O endereço do site é o http://www.agenteoperador.com.br .
55 Na prática, os preços conseguidos pelas ACs são geralmente maiores. Porém, não podemos atribuir esse fato unicamente às diferentes formas de negociação e comercialização. Por exemplo, a qualidade é maior nas ACs e a escala é maior nas CMTs, e ambos fatores contam positivamente na obtenção de melhores preços. Não é trivial então afirmar quais são os fatores mais e menos determinante na formação dos preços e como eles se relacionam. 56 A venda de papel misto de baixa qualidade para a China não é uma exclusividade do caso estudado. Na pesquisa realizada em São Francisco-CA, a CMT também produzia papel misto de baixa qualidade e exportava para a China. A diferença é que nesse caso a própria CMT conseguia ela mesma realizar a exportação (a vizinhança com o porto representa vantagem logística), enquanto no caso brasileiro há um intermediário.