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Elementos de uma eclesiologia de identidade afroamericana

3.3 APONTAMENTOS PARA UMA TEOLOGIA SISTEMÁTICA AFRO

3.3.1 Elementos de uma eclesiologia de identidade afroamericana

No sentido cristão, a eclesiologia de identidade afro-americana tem uma imensa contribuição a dar para todas as comunidades cristãs do Brasil, bem como a própria teologia, enquanto práxis da fé em Jesus Cristo. Isso tudo, quer seja numa visão holística sobre como se constitui a comunidade de fé, e até mesmo na própria imagem de Igreja concebida tal como Cristo demonstrou querer constituir no seu seguimento e que muitas vezes desejou, em sua

289 Como diz o relato: “É resultado de um longo processo e emergiu como necessidade nacional, decorrente do

intenso movimento internacional promovido pela Conferência Mundial da Tradição dos Orixás e Cultura - COMTOC. Esse processo desenvolveu-se no início da década de 1980, quando chefes religiosos da África , América do Norte, América do Sul (incluindo o Brasil) e Caribe reuniram-se em Nova York, no Caribbean Cultural Center.” [Cf. in: Boletim Informativo do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira – SP, Ano 0, n. 01, dezembro de 2007, p. 3].

290

pregação (por atos e palavras): por uma comunhão fraterna de filhos e filhas de Deus, unidas pelo amor291, uma comunidade unida com verdadeiro sentido de amizade292, acolhedora293, alegre294, mas também uma igreja participativa, pobre, orante, missionária, seguidora do Mestre, nos sacrifícios e na oblatividade, na partilha, mas, particularmente, uma Igreja constituída como um povo caminhante rumo ao Reino de Deus, uma Igreja profética de anúncio de denúncia, testemunhal. Todos estes aspectos estão alicerçados numa rocha firme de história de salvação e amor ao evangelho, como testemunha o documento de Estudos número 85 da CNBB295:

Os reclamos dos agentes de pastoral afro-descendentes à participação do negro e da negra na sociedade e, particularmente, na Igreja, não ocorrem sem uma histórica justificativa. (...) Não só a condição de primeiros batizados dá aos negros a força moral e espiritual de exigirem da Igreja uma ação pastoral decisiva, mas também a sua fidelidade. Mesmo que, em determinados momentos históricos, o procedimento da Igreja em relação à situação da população negra tenha sido de cumplicidade com o poder escravista estabelecido, os negros sempre devotaram à Igreja o amor à mãe. (...) O Batismo, como rompimento com o mal, como selo da filiação divina e pertença à Igreja, é uma prática ensejada pela tradição católica afro-brasileira.296

Mais explicitamente aparece, aqui, como desafio constante para a pastoral e a teologia:

A Pastoral Afro-brasileira acompanha e participa da organização dos serviços pastorais que dizem respeito à comunidade negra, e tem por objetivos: “animar os grupos negros católicos existentes; incentivar o surgimento de novos grupos que buscam sua identidade numa sociedade e Igreja plurais; promover a integração e articulação dos grupos e das iniciativas, respeitando as suas particularidades; colaborar na construção de uma sociedade justa e solidária, como exercício da cidadania a serviço da vida e da esperança; e testemunhar a fé em profunda comunhão eclesial”.297

291

Contando com o exemplo da Comunidade Cristã dos Atos dos Apóstolos que tinham esta consciência de serem “um só coração e uma só alma” (cf. At 4,32).

292

“Já não vos chamo servos, mas amigos” (cf. Jo 15,15).

293 “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e

aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (cf. Mt 11, 28-30).

294 “Alegrai-vos sempre no senhor; outra vez digo: alegrai-vos” (Fl 4,4).

295

DOC. ESTUDOS – CNBB, n. 85: Pastoral Afro-brasileira.

296

Cf. Ibid. Doc. 85 CNBB, Pastoral Afro-brasileira, números 10, 11 e 13.

297

No número 59 do mesmo documento 85 – de Estudos da CNBB, aparece esta constatação acerca do 15º Plano Bienal de Atividades do Secretariado Nacional, doc. CNBB, 63, p. 140.

Neste aspecto, a teologia eclesiológica da Pastoral Afro-Brasileira da CNBB (PAB) alicerça-se e está sendo impulsionada por vários grupos, como: o Instituto Mariama (IMA), o Congresso Nacional das Entidades Negras Católicas (CONENC)298, o Centro Atabaque, Cultura Negra e Teologia, e os Agentes de Pastoral Negros (APNs), como exemplos, e nestes organismos se expressam especialmente como prática teológica e eclesial. Devemos ressaltar também, que para além de um desafio eclesial, pastoral, existe um outro que fica ‘suspenso’ no sentido de se pensar como desafio a relação que sempre existiu entre esses grupos dentro da Igreja Católica, no sentido do culto, da celebração dita ‘inculturada’ da ‘liturgia afro’ na ‘liturgia romana’.299

Com o título de ‘Negros e indigenas: um novo Kairós para a Igreja’, o texto-base do VI CONENC resgata uma compreensão de Igreja como Povo de Deus, significativamente já desde sua constituição, desenvolvida na Constituição Lumem Gentium do Concílio Vaticano II, onde todos são chamados a pertencer ao novo Povo de Deus (LG, n. 13)300, que é claro, não deve ser interpretada, hoje, somente ‘dentro’ o âmbito ‘Católico Apostolico e Romano’.

O entendimento de catolicidade tem sentido de universalidade, em todas as Igrejas Cristãs, ao menos é o que se busca recuperar. Para isso, é preciso firmar cada vez mais a circularidade própria de uma Igreja ministerial, de comunhão e de participação. Entender "ecclesia" não como dimensão formal e estranha às organizações emergentes, mas a partir das relações de serviços vigentes nas culturas, de modo a promover e respeitar todas elas nos vários contextos latino-americanos, seguindo o exemplo do próprio Deus, que se encarnou valorizando com isso todas as culturas humanas, e não promovendo a uma única cultura:

A Igreja deve cumprir sua missão seguindo os passos de Jesus e adotando suas atitudes (cf. Mt 9,35-36). Ele, sendo o Senhor, fez-se servo e obediente até a morte de cruz (cf. Fl 2,8); sendo rico, escolheu ser pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9), ensinando-nos o caminho de nossa vocação de discípulos e missionários. No Evangelho aprendemos a sublime lição de ser pobres seguindo a Jesus pobre (cf. Lc 6,20; 9,58), e a de anunciar o Evangelho da paz sem bolsa ou alforje, sem colocar nossa confiança no dinheiro nem no poder deste mundo (cf. Lc 10,4 ss). Na generosidade dos missionários se manifesta a generosidade de Deus, na gratuidade dos apóstolos aparece a gratuidade do Evangelho.301

298 O Congresso mais recente aconteceu em São Luiz – MA, em Julho de 2009.

299

Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. A Liturgia Romana e a Inculturação: IV Instrução para

uma correta aplicação da Constituição Conciliar sobre a Liturgia.

300

Cf. Texto-base do VI CONENC: Refletindo o rosto negro da Igreja: de Medellín à Aparecida, p. 9.

301

Cf. Documento da V Conferência do Episcopado Latino-americano e Caribenho, reunido em Aparecida em 2007, número 30.

Quanto aos aspectos organizativos de uma comunidade de fé, a Eclesiologia Afro testemunha a ministerialidade como fonte do engajamento e do serviço na comunidade povo de Deus. Esses ministros podem ser tanto os pastores, como o próprio rebanho – assim como quis e desejou a Igreja Latino-americana:

Estimular vocações provenientes de todas as culturas (...). Rever a orientação da formação oferecida em cada seminário, ou casa de formação, para que corresponda às exigências da nova evangelização, com suas conseqüências para a promoção humana e a inculturação do Evangelho. Sem diminuir as exigências de uma séria formação integral, dispensar particular interesse ao desafio representado pela formação sacerdotal (e Religiosa) dos candidatos (e candidatas) provenientes de culturas indígenas e afro-americanas.302

Este exemplo serve-nos para demonstrar que a Eclesiologia Afro é tão necessária para a Igreja quanto somente uma maneira de se repensar uma estrutura da Igreja, nos seu clero, por isso a questão de fundo que permeia toda essa discussão é a questão da identidade religiosa e cristã de cada povo, de cada fiel. Essa questão passa por experiências dolorosas e de forte impacto até mesmo na vivencia da fé, da vocação a qualquer ministério na Igreja bem como na própria dimensão histórica de nossa existência, pois começamos por questionar, tal como no exemplo a descrição de uma experiência passada por um religioso, num dia em que se comemorava a “abolição da escravidão no convento”, que segue a esta comparação, no livro que reflete sobre a “identidade” afro:

“Era o navio negreiro, diziam os seminaristas brancos que pretendiam prestar uma homenagem aos negros do convento (...) os negros chegaram e sentaram no navio e eu permaneci no lugar de sempre, porque até então eu era branco, até que ouvi os gritos e senti a proximidade de colegas brancos que me levavam, quase arrastado, para o navio, dizendo: - você também é negro! Briguei, gritei, saí correndo do refeitório, desesperado. Eu era negro! O retrato da mulher branca, minha mãe, não me respaldava. Havia também o retrato do homem negro que era o meu pai”. E hoje, segue falando o frade:

“A prioridade na minha missão sacerdotal, a partir da consciência da minha negritude, é promover condições para reflexão e mudanças da realidade do negro”.303

302

Cf. Documento da IV Conferência Episcopal Latino-americana reunida em Santo Domingo em 1992, números 80 e 84.

303

Em consonância ao discurso do então Papa João Paulo II, percebe-se a necessidade que os afro-brasileiros sempre ansiaram realizar na prática eclesial:

Mantenham a própria identidade, usos e costumes. Esta fidelidade ao próprio ser e patrimônio espiritual é algo que a Igreja não só respeita, mas encoraja e quer fomentar (...). Encorajo-vos a defender a vossa identidade, a ser conscientes dos vossos valores e fazê-los frutificar (...). A obra evangelizadora não destrói, mas encarna-se nos vossos valores, consolida-os e fortalece-os.304

Assim, além deste ‘reconhecimento’, a Igreja Católica no contexto de Santo Domingo faz inferência a noção pouco desenvolvida até aqui por ela mesma, mas que lança fagulha nesse tema que necessita urgentemente ser melhor tratado para uma legitimação histórica das responsabilidades para com os povos deste nosso continente. Na mensagem do Papa, também se ‘aborda o tema da escravidão. Recorda-o como um dos episódios mais tristes da História e como uma ofensa escandalosa para a história da humanidade. Segue o pedido de perdão aos afro-americanos pelo holocausto desconhecido. Reconhece a escravidão dos negros, junto com a matança de índios, como o maior pecado da expansão colonial no ocidente’.305