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Elementos definidores de comportamentos de saúde

CAPÍTULO 5 – DISCUSSÃO

5.2. Discussão dos Resultados

5.2.3. Elementos definidores de comportamentos de saúde

O tabagismo é a principal causa evitável de morbilidade e mortalidade, sendo responsável em Portugal por cerca de 20,0% da mortalidade geral. De entre os problemas de saúde directamente relacionados com o consumo de tabaco, pode-se destacar as doenças crónicas como as DCVs (PORTUGAL et al., 2002).

O tabagismo neste estudo possui uma prevalência muito baixa, uma vez que somente um participante tem esse hábito, tratando-se de um homem admitido na resposta social de Lar de Idosos.

De facto, e à semelhança do que se observa nesta investigação, existem diversas evidências que sugerem que o hábito tabágico é mais comum nos homens (CARDOSO, 2004, FRAGA et al., 2005, Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009, OLIVEIRA et al., 2010, PERDIGAO et al., 2011, SANTOS et al., 2004). Todavia, apesar de se referir esta tendência, as comparações entre estudos são sempre limitadas, mais por diferenças das casuísticas na idade e género dos participantes do que propriamente no ano em que são realizadas as investigações, uma vez que existem evidências de uma redução lenta do consumo de tabaco nos últimos anos (Inquérito Nacional de Saúde

2005/2006, 2009).

É de se salientar igualmente que a proporção de fumadores diminui à medida que se atinge idades mais avançadas (BORGES et al., 2009, FRAGA et al., 2005, PERDIGAO et al., 2011), como referem alguns autores em que observam proporções mais baixas de fumadores em pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, em particular nas mulheres (BORGES et al., 2009, FRAGA et al., 2005). No estudo epidemiológico e transversal, representativo da população portuguesa, verificou-se que 5,9% das pessoas entre os 70 anos e os 79 anos e somente 2,7% das pessoas com 80 ou mais anos de idade eram fumadoras (PERDIGAO et al., 2011). Efectivamente, ao comparar-

se as proporções de fumadores da presente investigação com as proporções de alguns estudos desenvolvidos em âmbito nacional (Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009, OLIVEIRA et al., 2010, PERDIGAO et al., 2011, SANTOS et al., 2004), verifica-se que estes últimos possuem proporções mais elevadas de fumadores. Um possível motivo para este facto é a abrangência nesses mesmos estudos de faixas etárias mais jovens em relação à presente investigação. Esta justificação é apoiada por Perdigão e colaboradores (2011) que concluem que, ao avaliar a proporção de fumadores pelos cinco grupos etários do seu estudo, esta proporção variava no sentido inverso da idade (PERDIGAO et al., 2011).

Por outro lado, verifica-se que a amostra é constituída por 9,6% ex-fumadores, sendo todos do género masculino e fundamentalmente admitidos em Lar de Idosos. Contudo, é possível encontrar-se noutros estudos proporções mais elevadas (Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009, OLIVEIRA et al., 2010, SANTOS et al., 2004) em relação à presente investigação, nomeadamente 18,9% ex-fumadores com mais de 74 anos de idade (OLIVEIRA et al., 2010). Embora as diferentes proporções encontradas de ex-fumadores, existem igualmente diversas evidências que indicam uma expressividade de ex-fumadores mais elevada no género masculino comparativamente às mulheres (BORGES et al., 2009, Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009, SANTOS et al., 2004).

No presente estudo, dos participantes que fumam ou são ex-fumadores, o seu consumo iniciou-se entre os 14 anos (mínimo) e os 23 anos (máximo). Já no estudo de Oliveira e colaboradores (2010) a idade com que as pessoas com mais de 74 anos iniciaram o hábito tabágico foi entre os 9 anos (mínimo) e os 50 anos (máximo) (OLIVEIRA et al., 2010). Actualmente, reconhece-se que a cessação do hábito tabágico, em especial se ocorrer antes da meia-idade, contribui para uma redução do risco de doença atribuível ao consumo de tabaco, que atinge, passados 10 anos a 15 anos de abstinência, valores semelhantes aos dos ex-fumadores (PORTUGAL et al., 2002). Concomitantemente, quando a exposição ao tabaco inicia-se antes dos 15 anos existe um risco cardiovascular mais elevado, em particular para o género feminino (POLLOCK et al., 2003).

Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, nesta investigação existem 45,6% participantes que são consumidores, sendo maioritariamente homens, pessoas inseridas em grupos da comunidade e/ou pessoas admitidas em Centro de Convívio. Esta diferente proporção de consumo de bebidas alcoólicas entre género vem corroborar os resultados obtidos no último Inquérito Nacional de Saúde em Portugal que mostra que mais de metade dos portugueses bebem pelo menos uma bebida alcoólica ao longo do ano, sendo essa proporção mais elevada nos homens,

independentemente da idade (Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009). Do mesmo modo ao relatado anteriormente, observa-se também que do global de participantes que consomem bebidas alcoólicas na presente investigação, mais de metade (54,4%) relatam ingerir diariamente, sendo maioritariamente homens. Porém, esse mesmo inquérito revela proporções muito inferiores às encontradas na amostra em estudo: em 2005 cerca de 24,0% dos portugueses bebiam diariamente (Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009). Contudo, entre 1999 e 2005 observou-se um aumento da proporção de consumo de bebidas alcoólicas em ambos os géneros, sobretudo por parte das mulheres (Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006, 2009). Assim, existem em Portugal evidências de que as mulheres se aproximam dos comportamentos dos homens no que concerne ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas. De salientar, por fim, que o consumo elevado de bebidas alcoólicas coloca em perigo a vida, a saúde e o bem-estar individual, familiar e social e está interligado, nomeadamente, ao aparecimento de DCVs (PORTUGAL et al., 2002).

Relativamente ao uso de medicação (de forma regular e continuada) verifica-se que praticamente a totalidade (96,8%) dos participantes respondem afirmativamente, independentemente do género. Por outro lado, o consumo de 5 ou mais medicamentos por dia é muito comum nesta amostra (62,8%), observando-se uma proporção significativamente maior nas mulheres do que nos homens (73,6% vs 35,3%, p<0,001). De forma semelhante, num estudo realizado pelos Centros de Saúde de Queluz e Lumiar (Portugal), concluiu-se que a prevalência da polimedicação era mais elevada nas pessoas idosas e em mulheres. A prevalência do consumo simultâneo de 5 ou mais fármacos foi mais elevada em pessoas com idade igual ou superior a 65 anos (37,1% vs 9,5%) e em mulheres (21,1% vs 12,3%) (SILVA et al., 2004).

Quando analisada a medicação (de forma regular e continuada) segundo o grupo de respostas

sociais utilizadas verifica-se que a maioria das pessoas de cada um dos grupos faz medicação.

Contudo, esta situação observa-se em todos os participantes que usufruem de Serviço de Apoio Domiciliário e em participantes admitidos em Centro de Convívio. Relativamente ao consumo de 5 ou mais medicamentos por dia, nota-se que a maior proporção corresponde a pessoas admitidas em Lar de Idosos (94,7%) e a menor proporção em pessoas que usufruem de Serviço de Apoio Domiciliário (40,0%) ou que não estão admitidas em nenhuma resposta social (44,1%).