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Elementos dispostos em ordem linear ininterrupta

5 ANÁLISE DA REFUTAÇÃO EM INTRODUÇÕES DE TESES DE

5.1.1 Estrutura composicional prototípica

5.1.1.1 Elementos dispostos em ordem linear ininterrupta

Há uma explicitação flagrada em uma porção textual cujos elementos seguem uma ordem ininterrupta dentro do mesmo parágrafo. A asserção prévia, a recusa de p e a justificativa da recusa de p são facilmente identificadas, já que seguem uma disposição espacial linear, ou seja, não há rupturas ou informações adicionais entre os elementos constitutivos da refutação prototípica, conforme verificamos nos exemplos seguintes.

Como podemos observar, no exemplo (01), os elementos constitutivos da refutação seguem essa disposição linear.

(01) Asserção prévia

Por sua vez, enquanto o modelo de Gramática Funcional proposto por Hengeveld e Mackenzie [Gramática Discursivo Funcional] nos permite compreender que o subtipo modal central nesta pesquisa, o deôntico, pode ser voltado para o evento descrito no enunciado ou voltado para o participante do evento descrito no enunciado [...]

Recusa [...] ele não nos permite compreender as expressões linguísticas modalizadoras deônticas em exercício da função interpessoal [...]

Justificativa [...] tendo em vista que, em termos de nível de análise, esse subtipo modal recai sobre o nível representacional da linguagem, não sobre nível interpessoal. (IT01A11)

101 Em (01), é possível identificar os três elementos constitutivos da refutação, que aqui nomeamos de refutação prototípica, no discurso acadêmico. Há o reconhecimento da verdade de um conteúdo p, o qual apresenta um aspecto positivo do modelo da Gramática Funcional, seguido, respectivamente, de uma limitação do referido modelo e de uma justificativa. A negação, configurando uma restrição do modelo em questão, ocorre mediante o uso do advérbio não.

Sob a perspectiva da concessão, identificamos duas propriedades discutidas por Moeschler e Spengler (1982): a primeira é a ideia de oposição entre duas conclusões, com o reconhecimento de um aspecto mais geral contemplado pelo modelo de gramática funcional, que aponta para algo positivo do modelo, seguida de uma contraposição, que aponta para uma conclusão oposta, pela limitação apresentada do referido modelo; a segunda é a ideia de uma relação hierárquica compreendendo os argumentos usados para as conclusões, com a primazia de um argumento, considerado mais forte.

Em (01), a ideia de uma relação hierárquica, compreendendo a estrutura p mas q, pode ser compreendida no sentido de que o argumento q se sobrepõe ao argumento p. Considerando a situação em que o locutor busca se contrapor a algum aspecto da teoria que coloca em questão, o mas q aponta para uma conclusão que diverge daquela de p (que aponta para a conclusão r), e que, hierarquicamente, é mais forte, já que reorienta o discurso para a conclusão não-r, de forma que é nesse sentido (não-r) que o discurso tem continuidade, e é essa conclusão que é objetivada pelo locutor para estabelecer sua refutação.

A mesma estrutura de (01) se repete nos exemplos (02), (03), (04) e (05), conforme demonstramos a seguir.

(02) Asserção

prévia A exigência de produtividade não resulta em descontentamento, já que publicar faz parte da atividade científica, não se trata de refutar a importância ou a necessidade.

Recusa Entretanto, o sistema de recompensa baseado na produtividade científica opera um feedback de reforço [...]

Justificativa [...] quem publica mais recebe mais recursos para a pesquisa, que por sua vez há possibilidade de aumentar o número de publicação, forma-se, então, em alguns casos, um círculo vicioso. (IT13A13)

O exemplo (02) também apresenta a refutação de acordo com a sequência prototípica. Novamente, observamos que o autor recorre à estratégia da refutação, organizando-a sob uma estrutura com sequências ininterruptas, propiciando ao leitor, por sua vez, fácil compreensão acerca da visão apresentada. Se, em um primeiro momento, concorda

102 que a exigência de produtividade não gera descontentamento, uma vez que publicar faz parte da atividade acadêmica, depois, posiciona-se contrário ao sistema de recompensa baseado na produtividade científica, já que isso opera um feedback de reforço.

Temos, portanto, a seguinte conclusão: a exigência de produtividade é normal, pois faz parte da atividade científica, que, por sua vez, é invalidada pela conclusão de que publicar meramente para ser recompensado e angariar mais recursos não contribui para a ciência, apenas incentiva a mera repetição. A discussão reside na crítica ao fato de que a recompensa pela quantidade de publicações não contribui para o avanço da ciência. É possível identificar uma filiação à exigência de produtividade em um primeiro momento, quando esta é vista como uma atividade normal, mas, na sequência, há, claramente, um posicionamento contrário à exigência, quando a questão não é a contribuição à ciência, mas a simples repetição das pesquisas realizadas.

Vejamos a estrutura manifestada no exemplo (03).

(03) Asserção prévia

Nos sistemas tipicamente semânticos, como vimos, além da correlação do gênero do substantivo com o sexo biológico do referente, outros critérios são possíveis, tais como: os critérios humanos/não humanos, animados/não animados, sexo saliente/sexo não saliente (CORBETT, 1991, p. 9).

Recusa Entretanto, nas línguas de sistema formal, como as línguas românicas, a atribuição de gênero a um item lexical não pode ser baseada em critérios puramente semânticos [...].

Justificativa [...] visto que uma grande quantidade de nomes substantivos não se enquadra nesses critérios. (IT45A15)

Em (03), observamos, mais uma vez, a estrutura canônica (asserção prévia + recusa + justificativa). O autor recorre ao conector argumentativo entretanto para se posicionar contrário à asserção prévia, instaurando, consequentemente, a recusa, seguida da justificativa. Esse movimento argumentativo serve para invalidar o que foi dito anteriormente, redirecionando o discurso para um novo ponto de vista em torno do assunto tratado.

Os exemplos (02) e (03) utilizam o operador argumentativo entretanto, similar a

mas, cuja função é contrapor argumentos, ou seja, orientar para conclusões contrárias. Com base em Ducrot, Koch (2012, p. 36) explica que “o locutor introduz em seu discurso um argumento possível para uma conclusão r; logo em seguida, opõe-lhe um argumento decisivo para a conclusão contrária não r (-r)”. Essa mesma estratégia argumentativa, com a contraposição de argumentos, pode ser observada em (04).

103 (04) Asserção

prévia

[...] teoricamente, as mudanças justificam-se para melhorar, no caso presente, o sistema educacional, principalmente no que se refere à formação de qualidade tanto de alunos como de professores [...]

Recusa [...] contudo, não é o que está acontecendo.

Justificativa As reivindicações da sociedade civil em como os alunos, principalmente do ensino público, chegam ao fim do ensino básico sem saber ler e escrever, são cada vez mais fortes. (IT57A12)

O marcador de refutação contudo, utilizado em (04), a exemplo de (02) e (03), também é responsável por instaurar no discurso a recusa com a contraposição, indo contra aquilo que é asseverado anteriormente. Na invalidação da asserção anterior, juntamente com o

contudo, que já manifesta posição contrária, o não também exerce papel fundamental. Se o uso de contudo já aponta para a negação, o uso do não instala de vez a recusa, pois rejeita o enunciado anterior e ajuda a trazer à tona um conhecimento novo.

O uso de teoricamente na asserção prévia, termo que imprime também o caráter avaliativo e, portanto, denuncia posicionamento, indica dúvida quanto às melhorias no sistema educacional, a partir das mudanças realizadas, uma vez que se pauta em hipóteses, suposições, em vez de algo mais preciso, mais concreto.

Embora nossa análise incida mais precisamente em enunciados, cuja refutação pode ser identificada de forma mais pontual na superfície do texto, não podemos desconsiderar que a argumentação e a construção de sentido se dão no todo, a partir das escolhas e das relações que se estabelecem no texto/discurso.

Além disso, devemos considerar, para efeito de produção de sentido, outro aspecto igualmente importante, que diz respeito ao objetivo do capítulo introdutório do gênero acadêmico tese de doutorado. Conforme discutimos na seção 4.4, é na introdução que se estabelece o objeto de pesquisa que será investigado. Embora não façam referência explícita à estratégia da refutação, os manuais de orientação para a escrita de textos acadêmicos são muito claros quanto à contribuição original e relevante para a tese de doutorado, de acordo com a área de conhecimento à qual ela está vinculada.

A contestação a algum aspecto de um conhecimento previamente estabelecido pode inaugurar um novo olhar sobre determinado objeto de estudo, apontando, portanto, para uma contribuição original e relevante em determinada área de conhecimento.

Outrossim, salientamos, mais uma vez, que, apesar de identificarmos uma estrutura prototípica, sob uma perspectiva enunciativa, não podemos prescindir de nenhum aspecto co(n)textual convocado para a atribuição de sentido da refutação, ampliando a

104 discussão já iniciada por Moeschler (1982), que, embora se dê sob o viés semântico- pragmático, ainda se concentra muito na forma.

Na sequência, apresentamos mais um exemplo, (05), que ratifica a estrutura composicional prototípica.

(05) Asserção prévia

[...] o quadro de funções discursivas apresentadas pelos trabalhos da área, ainda que dê conta dos tipos de função encontrados em gêneros literários e jornalísticos,

Recusa [...] não recobre certas nuanças de gêneros como, por exemplo, o anúncio.

Justificativa [...] nenhum quadro de funções dos processos referenciais estabelecido a priori pode encerrar em si mesmo todas as possibilidades funcionais de um texto de dado gênero, quando se tem em conta uma perspectiva sociocognitivo-discursiva. (IT05A15)

Em (05), também identificamos a mesma estrutura composicional dos exemplos anteriores. Observamos que, de fato, tal estrutura se apresenta, no texto acadêmico, de forma bastante recorrente. Contudo, verificamos, ainda, que, neste exemplo, a negação ocorre mediante o uso do não, e que o uso do ainda que auxilia na explicação e, de certa forma, na modalização, com a atenuação do dito. A refutação se dá por meio de uma estratégia concessiva.

Além dessas estruturas, identificamos exemplos nos quais o modelo prototípico sofre alterações quanto à manifestação conjunta dos três elementos constitutivos da refutação, já que, nestes exemplos, os autores apresentam a justificativa de forma diferenciada, incluindo-a em parágrafos posteriores ou diluindo-a em porções textuais posteriores àquela em que há a asserção prévia e a recusa. Entre esses modelos, apontamos o uso da refutação com os elementos difusos ou diluídos em outras porções do texto ou com elementos implícitos.