Capítulo 2. O catolicismo de São José da Serra
2.3. Elementos do catolicismo nos pontos de jongo
As canções, enquanto documento ou como objeto de estudo, têm sido cada dia mais exploradas pela historiografia. A recente pesquisa realizada por Caroline Moreira Viana é um exemplo disso. Ao tratar da relação entre e a música popular e as afro-religiosidades no Rio de Janeiro, no período de 1902 a 1927, a autora privilegiou as letras das composições populares como fonte.115 A canção, entendida como uma expressão da voz e da fala,116 ao ser relacionada com o contexto em que foi produzida, constitui-se numa fonte rica de representação do universo cultural dos agentes sociais pesquisados. A análise dos pontos cantados durante a prática do jongo é importante para compreender a interatividade entre os “modos de ver” e os “modos de fazer” dos membros da comunidade de São José da Serra.
No Brasil, a transversalidade entre a música e a religião esteve presente no cotidiano dos escravos. A continuidade dessa relação está presente em várias manifestações culturais e pode também ser observada nas letras dos pontos de jongo, que muitas vezes remetem diretamente à memória da escravidão. Um dos traços comuns entre algumas comunidades jongueiras é trazer temáticas religiosas nos pontos de abertura117, apresentem estes expressões de cunho afro-religioso ou católico. O ponto abaixo, usado para abrir o CD-livro produzido em 2004 pelos moradores de São José da Serra, faz referência a dois santos negros católicos, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, bastante cultuados entre a população negra durante a escravidão:
Saravá São Benedito
Nossa Senhora do Rosário aê (bis)118
De acordo com entrevista realizada com Seu Manoel Seabra, esse ponto é bastante antigo, não se precisando em que período foi composto119. O que chama a atenção nesse ponto, que saúda dois santos católicos cultuados por seus ancestrais, é o fato de ser iniciado
115 VIEIRA, Caroline Moreira. “Ninguém escapa do feitiço”: música popular carioca, afro-religiosidades e o mundo da fonografia (1902-1927). 2010. Dissertação (Mestrado em História). UERJ/FFP, São Gonçalo, 2010. 116
OLIVEIRA, Márcia Ramos. Canto e tradição: a voz como narrativa histórica. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy; SANTOS, Nádia Maria Weber; ROSSINI, Miriam de Souza.(orgs.). Narrativas, imagens e práticas
sociais: percursos em História Cultural. Porto Alegre: Asterisco, 2008. p. 67
117 Também chamados de pontos de louvação, são utilizados para abrir a roda de jongo ou para recepcionar algum participante após o início da abertura da roda.
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CD-livro Jongo do Quilombo São José. Gravado ao vivo em outubro de 2004 na Comunidade Remanescente de Quilombo São José da Serra. Realizado pela Associação Brasil Mestiço, tendo como coordenadores da produção Marcos André e Luciane Menezes e textos escritos por Antônio do Nascimento Fernandes, Hebe Maria Mattos e Marcos André.
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com a expressão saravá, termo usado por umbandistas como uma forma de saudação ou de pedido de permissão. Na Enciclopédia brasileira da Diáspora Africana, Nei Lopes define o termo saravá como uma “saudação dos umbandistas, significando „salve‟. É a bantunização do português „salvar‟, „saudar‟.”120
O significado dado ao mesmo termo por Yeda Pessoa Castro complementa a análise de Nei Lopes. Para a autora, a palavra representa “saudação às divindades, pedido e permissão para participar de uma cerimônia.121
Estudos demonstram que a incorporação do catolicismo em determinadas sociedades africanas ocorreu já no continente africano, antes da escravização e da vinda destes para o Brasil. De acordo com os estudos de Marina de Mello e Souza, a prática do culto católico pelos africanos provenientes da região Congo-Angola, por exemplo, inicia-se na segunda metade do século XV. Quanto às irmandades negras, estas começaram a ser organizadas em Portugal também no século XV, vindo para o Brasil no século seguinte.122
Ao se constituírem no território brasileiro, as irmandades negras foram analisadas através de duas interpretações. Segundo Magali Angel, numa visão tradicional, estas irmandades estariam relacionadas a uma forma de acomodar os escravos negros libertos na sociedade escravista. Já numa vertente mais atual, as irmandades se relacionam, sobretudo, à recriação e vivência das múltiplas identidades escravas e à construção de uma rede de solidariedade interna.123
Segundo João José Reis, as irmandades conferiam relativa autonomia ao negro, fazendo com que estes se dedicassem aos santos católicos, ainda que não deixassem de praticar os cultos de origem africana, que se caracterizavam pela recriação de práticas religiosas.124
A devoção dos negros aos santos católicos São Benedito e Nossa Senhora do Rosário esteve diretamente relacionada ao projeto de evangelização dos negros durante o período colonial. Stanley Stein ressalta que, segundo o viajante Richard Burton, “Nossa Senhora do Rosário” era uma invocação muito usada por escravos e libertos tanto no Rio de Janeiro quanto em outros lugares do Brasil. Afirma ainda que nas senzalas era comum, entre outras imagens de santos, a imagem de São Benedito.125
120 LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004. p. 609.
121 CASTRO, Yeda Pessoa. Falares Africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks Editora e distribuidora de livros, 2001, p. 336.
122 SOUZA, Marina de Mello e. Op. Cit., 2002. pp. 159-161. 123
ANGEL, Magali. Irmandades. In: VAINFAS, Ronaldo. (org.) Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889), Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, pp.390-391.
124 REIS, João José. Identidade e diversidade étnicas nas irmandades negras no tempo da escravidão. Revista Tempo, Rio de Janeiro, vol.2, nº 3, 1996, pp.7-33.
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De acordo com Oliveira, não se sabe ao certo quais teriam sido os motivos que estimularam a devoção dos escravos e libertos a Nossa Senhora do Rosário, que simboliza uma das mais antigas devoções desses segmentos no Brasil.126 O historiador destaca ainda que no Rio de Janeiro, no período colonial, “o culto a São Benedito estava unido a Nossa Senhora do Rosário, formando uma única irmandade, na qual os angolas e crioulos eram maioria.”127
No ponto de abertura mais conhecido dos jongueiros da Serrinha também ocorre menção a Nossa Senhora do Rosário. Este ponto é utilizado na primeira faixa do CD-livro Jongo da Serrinha. A composição de Mestre Darcy do Jongo evidencia na primeira estrofe o Rosário de Maria. O cântico, apesar de não fazer menção a São Benedito, cita ainda três outros santos católicos: Santo Antônio, São João e Santana. Além do culto aos santos, também se encontra a expressão saravá. A presença destes elementos, reunidos num mesmo ponto, demonstra a transversalidade entre elementos do catolicismo e dos cultos de matriz africana:
Bendito louvado seja, é o rosário de Maria Bendito louvado seja, é o rosário de Maria
Bendito pra Santo Antônio, bendito pra São João
senhora Santana, saravá meu “zirimão”
Saravá angoma-puíta, saravá meu candongueiro, Abre caxambu, saravá jongueiro
Bendito louvado seja meu “zirimão” agora mesmo que eu cheguei foi pra saravá
Bendito louvado seja Senhora Santana agora mesmo que eu cheguei foi pra saravá128
Neste ponto de abertura, os jongueiros da Serrinha reverenciam também os tambores na abertura da roda do jongo. Como destacou Vovó Maria Joana, caxambu, candongueiro e
angoma-puíta eram os três tambores característicos do jongo dançado na zona rural quando
era criança. Em sua narrativa, ela fala sobre a relação dos tambores com a religiosidade, ao destacar que os instrumentos eram oferecidos às entidades. 129 Apesar de o jongo da Serrinha passar por um período de transformações, principalmente na década de 1980, quando o grupo
126 OLIVEIRA, Anderson. Op. cit., p. 26. 127 Ibidem, p. 291.
128 CD-livro Jongo da Serrinha. 129
iniciava suas apresentações nos palcos, os elementos religiosos permaneceram atrelados à prática do jongo.
Ao observar a presença de elementos do catolicismo nos pontos do jongo, percebe-se que existe uma ligação entre a vivência do catolicismo dos jongueiros nos dias atuais e a religiosidade católica dos seus antepassados. Considerando a possibilidade de vários “catolicismos”, as letras dos pontos de jongo expressam as representações da religiosidade cristã de diferentes grupos. Como um referencial de identidade religiosa de comunidades jongueiras e/ou quilombolas, os pontos também demonstram que a religiosidade católica muitas vezes se apresenta através de uma fé sincrética, onde a combinação dos elementos da religiosidade cristã com a religiosidade de vertente africana marca a presença de uma dupla consciência religiosa.