• Nenhum resultado encontrado

Elementos do jornalismo econômico brasileiro

3. COBERTURA DAS PROJEÇÕES ECONÔMICAS NA FOLHA

3.1. Elementos do jornalismo econômico brasileiro

Suely Caldas (2003) afirma que não há registro de jornal sem notícias sobre fatos econômicos. O jornalismo econômico, portanto, seria tão antigo quanto a imprensa. A política sempre foi o principal assunto no jornalismo brasileiro, mas na virada do século XIX para o século XX, já há um noticiário econômico nos jornais, “ainda que bastante tímido e já muito especializado” (PULIPI, 2013: 42) composto por colunas fixas e diárias.

O consenso é que o jornalismo econômico desenvolveu-se de fato a partir do golpe militar de 1964. A cobertura política perde espaço graças às pressões – e perseguições – dos militares, principalmente, com o Ato Institucional nº5, de 13 de dezembro de 1968, no qual a censura prévia é oficialmente instaurada. Simultaneamente, inicia-se um ciclo de crescimento econômico, conhecido como o “milagre econômico”.

Baixa inflação, grandes obras de infraestrutura, programa de substituição de importações, empresas estatais em exponencial crescimento marcaram esse período de

grande endividamento do setor público. Os assuntos econômicos na imprensa eram incentivados pelo regime. “A máquina oficial bombardeava os jornais com notícias positivas sobre o crescimento da economia, dos investimentos e da Bolsa de Valores” (PULIPI, 2013: 44). A cobertura econômica raramente sofria repressão em comparação com outras áreas dos jornais e ocupou muito do espaço que, anteriormente, seria ocupado pela política.

Neste período, os ministros da Fazenda tinham amplos poderes e eram os principais porta-vozes do governo, credita-se a eles uma das principais características do jornalismo econômico brasileiro, presente até hoje, como conta Basile (2011):

Os líderes dessa arrancada desenvolvimentista, administradores de elevada competência técnica, mas pouco dispostos a discutir as condições sob as quais esse desenvolvimento está sendo obtido, se expressam em uma estranha língua, parecida com o português, mas ininteligível para a população. É o ‘economês’. (BASILE, 2011: 84)

Outra característica é resultado do maior espaço da editoria e, consequente, ampliação das equipes de economia. “O trabalho de apuração das informações passou a ser segmentado por setores econômicos específicos. E assim nasceu a especialização.” (CALDAS, 2003: 8). A autora argumenta que dessa maneira os jornalistas passaram a conhecer melhor as especificidades dos diversos setores econômicos, ficando mais preparados e qualificados.

O “milagre econômico” não sobrevive por muito tempo, seu desgaste agrava-se com o primeiro choque do petróleo, de 1974, os níveis de crescimento caem vertiginosamente, enquanto a inflação aumenta e a balança comercial tem grandes déficits. Consequentemente, a economia passa a ser o núcleo temático do noticiário jornalístico.

Nesse contexto, floresce o jornalismo de serviços voltado aos problemas econômicos e financeiros de seus eleitores de classe média, ao mesmo tempo didático e voltado a uma cidadania econômica (KUCINSKI, 2000). Basile (2011) acredita que o longo processo de estabilização da moeda a imprensa econômica foi se especializado ainda mais.

Isso era necessário para que o público entendesse a complexidade das questões envolvidas nas tentativas de proceder à estabilização da moeda; entender como e por que o Brasil tinha quebrado, nos idos de 1981; quais as novas condições da retomada do crescimento e, sobretudo, por que éramos uma Nação tão injustamente dividida entre ricos e ricos. (BASILE, 2011: 89)

O mercado financeiro cresce e fica cada vez mais complexo, a partir da década de 1970, os empréstimos externos e a constante intervenção do Fundo Monetário Internacional também influenciam no jornalismo econômico que passa a usar expressões estrangeiras e jargões específicos do setor – desconhecidos do leitor comum – sem a preocupação de traduzi-las para seus leitores (CALDAS, 2003). Simultaneamente, os jornalistas afastaram-se das declarações de economistas acadêmicos e buscam fontes mais próximas do mercado financeiro. Com as confusões criadas por planos econômicos complicados, com tabelas, tablitas, conversores, redutores e impostos extraordinários, os jornais precisavam de fontes para explicar tudo isso. (PULITI, 2013)

A situação econômica logo após a redemocratização, em 1985, não muda, o país continua a recorrer aos empréstimos externos, seguir as orientações do FMI e implantar diferentes planos econômicos. Definitivamente, o final do século XX ficou marcado pela ascensão da economia ao primeiro plano do noticiário econômico impresso.

Basile (2011) argumenta que poucos eventos terão significativa importância para o crescimento da imprensa econômica quanto o confisco da poupança feita pelo governo do presidente Fernando Collor de Mello em 1990. Ele descreve o cenário de confusão da época:

De repente, os brasileiros, pessoas físicas e jurídicas, acordaram sabendo que só teriam disponíveis no banco 50 cruzados novos, que eram de fato muito pouco dinheiro. Como isso era possível? Como alguém tinha esse poder? Se o tinha, por que o tinha exercido? E, se o tinha exercido, quão desesperada devia ser a situação do país para levá-lo a isso? E, se estava assim, como ficava o nosso futuro? E o dos nossos filhos? Receberíamos nosso dinheiro de volta? Essas e muitas outras questões, extremamente angustiantes infernizavam o cotidiano dos cidadãos. Precisavam entender o que ocorria. (BASILE, 2011: 89-90)

O Plano Real em 1994, lançado durante o governo de Itamar Franco e sob o comando de Fernando Henrique Cardoso, reduziu a inflação e a estabilizou a moeda. Passados 20 anos o país não a troca ou passa por novos planos econômicos. Kucinski (2000) e Puliti (2013) apontam o papel decisivo da imprensa para o sucesso do plano e, principalmente, para a legitimação das ideias responsáveis pela sua criação.

O final do século XX foi palco de modificações do cenário político-econômico mundial, impactado pelas novas tecnologias de informação e da comunicação e com o colapso do comunismo e sua economia estatal e planificada. Esse processo teve como

consequência uma mudança de paradigma e restauração das crenças liberais, como expõe Lene:

Em termos públicos, o fenômeno recebe o nome de globalização, mas politicamente coincide com a ideologia do neoliberalismo, uma plataforma econômico-político-social-cultural, empenhada em governo mínimo, fundamentalismo de mercado, individualismo econômico, autoritarismo moral. (LENE, 2005:.3)

Um dos princípios básicos dessa doutrina é o monetarismo, que defende o controle da inflação por meio da diminuição dos gastos estatais e da redução salarial. Também é defendida a mínima intervenção do Estado na economia, sendo esta baseada na livre concorrência. O jornalismo econômico além de acompanhar o processo de mudança de paradigmas foi intimamente influenciado por ele. Simultaneamente, sem um sistema comercial de mídia global, a globalização econômica e cultural seria impossível para promover os mercados globais e encorajar os valores de consumo (MCCHESNEY apud LENE, 2005).

Para Kuncinski (2000) as teorias econômicas dominantes sempre provocam uma direta influência na ideologia seguida pelo jornalismo econômico. Ele argumenta que os anos 80 trazem a economia para o centro da temática jornalística enquanto se esvazia a cobertura política e o embate ideológico. Logo, as corporações de mídia e entretenimento têm um papel estratégico como agentes operacionais da globalização. Elas não apenas legitimam o ideário global, mas o transformam no discurso hegemônico, propagando visões de mundo e modos de vida que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas. O resultado é que há um consenso na grande mídia sobre a superioridade das economias abertas, insistindo que não há saída fora pressupostos neoliberais (LENE, 2005).

Para Puliti (2010) os assuntos de economia são fundamentais para o exercício de cidadania na sociedade atual e a imprensa é a mais abrangente fonte de informação disponível. Mas, ao favorecer ideias de um único grupo, a imprensa limita o debate. Para a autora, os jornalistas ao escolher suas fontes dão espaço a uma voz como se esta fosse a única detentora de saber. Kucinski exemplifica algumas dessas atitudes:

Conceitos importantes, como o de competitividade no comércio internacional, são vistos exclusivamente pela ótica das empresas e não pela ótica mais geral da sociedade. O valor do trabalho é visto estritamente como um custo de produção e não como uma renda do trabalhador. Assim surgiu o novo jargão do jornalismo econômico, expressões como “globalização”. “custo Brasil”, “mercados emergentes”

ou “reinserção competitiva na economia mundial”, com alta carga ideológica. Competitividade é vista como a conquista de mercados, mesmo que à custa da destruição do emprego ao invés de sua criação. Custo Brasil é o eufemismo que propõe a eliminação dos encargos sociais dos salários, alegando que são excessivos, mas omitindo que incidem sobre uma base de salários das mais baixas. “Globalização” é a palavra mágica que tudo justifica. (KUCINSKI, 2000: 187-188)

A prática jornalística atual em que a disponibilidade da fonte e a oferta de material exercem grande influência em quem será considerado na produção das reportagens, Puliti (2010) aponta que se esta for dotada de um discurso científico melhor ainda para o jornalista.

Afinal, se os relatórios, comentários ou pareceres forem elaborados na linguagem das Ciências Econômicas, eles passam um conteúdo aparentemente neutro, livre de interferências políticas e dentro de parâmetros técnicos. A autora conclui que com essas atitudes falta ao profissional de imprensa desafiar pensamentos pré-concebidos, enxergar além do discurso e questioná-lo.

Kucinski (2000: 189-192) vai além e expõem seis principais traços que formam a mentalidade do jornalismo econômico brasileiro, na seguinte ordem:

 Consesualismo: trata-se de um traço geral da cultura política do país, que exige o consenso em torno dos interesses dominantes, e não considera legítima a divergência;

 Dogmatismo: manifesta-se no reducionismo da discussão, no desprezo pelo factual e no pouco trabalho analítico. Está presente, em alguma medida, em todo jornalismo econômico, devido à influência de economistas que repetem teses antigas já invalidadas como verdades reveladas, especialmente as teses do monetarismo;

 Ingenuidade: ao contrário do jornalismo econômico dos grandes centros mundiais, que usa uma linguagem agressiva para descrever um mundo de negócios feito de disputas, golpes e rivalidades, o jornalista brasileiro insiste em descrever o mundo dos negócios como uma história de fadas em que só há encantamentos. Para o autor, esse é um dos traços mais curiosos e originais do jornalismo econômico brasileiro;

 Oficialismo: o uso de fontes oficiais na reportagem jornalística é esmagador. Muitas vezes, a ausência de espírito crítico em relação às fontes oficiais chega ao limite do cretinismo, da ausência total de raciocínio. Kucinski acredita que o

jornalismo econômico brasileiro tem se revelado subserviente ao governo do dia, especialmente nos momentos cruciais em que o governo baixa pacotes econômicos e na abordagem geral das políticas econômicas. Além de assumir postura triunfalista nos momentos de euforia econômica, tardando muito para fazer a crítica, em geral a reboque de outros setores da sociedade;

 Entreguismo: um traço típico de uma mentalidade colonizada em que se assume a defesa integral dos interesses estrangeiros, tanto na sua visão geral dos processos econômicos, como em histórias específicas. O autor aponta uma notável perda de autoestima que faz com que não se acredite em nada que seja nacional ou brasileiro.

 Deslumbramento: o jornalismo econômico brasileiro apresenta-se de maneira deslumbrada perante as grandes empresas e os grandes empresários e banqueiros, resultado em uma atitude subserviente e acrítica. Os grandes empresários são reverenciados pelo jornalismo, alguns até passaram a ocupar espaço fixo em jornais, como colunistas.

Paradoxalmente, enquanto abria-se para a grande massa de leitores, o noticiário econômico fechou-se na sua linguagem e abordagem graças à ascensão de uma nova classe de tecnocratas nas fontes de notícia, influenciando os profissionais com um jargão logo batizado de “economês” pelo jornalista Carlos Lacerda (DINES apud FRANCISCO, 2006). Logo, o jornalismo econômico brasileiro além da mentalidade própria, também é marcado por uma linguagem específica.

Kucinski (2000) também lembra o papel decisivo na campanha neoliberal dos anos 90 pelo desmonte do Estado socialdemocrata, na sedução dos jovens ao ideal do sucesso pessoal, na disseminação da nova utopia das classes médias: a de possuir o próprio negócio. E conclui que a disfunção da linguagem talvez tenha uma função ideológica. Um jornalismo que não se propõe a explicar e sim seduzir.

Entretanto, o autor também destaca que apesar do predomínio do econômico sobre o político, o jornalismo econômico continua com a estrutura e hierarquia de quando era apenas uma especialização. Na cobertura e mesmo na disposição nos jornais, o político continua separado do econômico. Esse confinamento dificulta a formação de uma nova linguagem que leve a análise econômica para um grande público. Se de um lado, a economia aparece ligada a questões do dia a dia, do outro está marcada por conceitos

abstratos e de difícil compreensão, mesmo para leitores instruídos que não conseguem decodificar o noticiário econômico.

Fica claro que o jornalismo econômico se dirige a, pelo menos, dois públicos muito diferentes, cada qual com seus próprios códigos: de um lado, especialistas, grandes empresários e profissionais de mercado; de outro, o grande público e os pequenos empresários. Esse último grupo de acordo com Kucinski (2000) se sente permanentemente agredido pela linguagem técnica usada no noticiário econômico.

Tanto Caldas (2003) quanto Kucinski (2000) acreditam que o uso de uma linguagem técnica está amplamente relacionado com as fontes. “Frequentemente as próprias fontes do mercado alimentam uma aura de mistério em torno de suas ações, disseminando expressões exóticas” (KUCINSKI, 2000: 167-168). Contudo Caldas (2003) responsabiliza o jornalista por tornar com essa linguagem o jornalismo econômico “difícil e chato”.

Isso ocorre quando o repórter ouve das suas fontes de informação uma série de explicações técnicas, um amontoado de expressões específicas (muitas em inglês), que realmente poucos entendem (às vezes, nem mesmo ele, repórter), e se limita a transcrevê-las nesse mesmo jargão, o chamado ‘economês’. O jornalista age, assim, como mero papagaio que insiste em imitar o dono. (CALDAS, 2003: 1)

Os economistas apenas aparentemente usam a linguagem comum, na realidade eles a codificam em linguagem científica. Logicamente, os jornalistas não podem usar essa linguagem para o grande público que não a entenderá. Além disso, a própria abordagem é totalmente diferente, já que o repórter idealmente leva em consideração os interesses gerais da população. Logo, o grande desafio é reportar e analisar de maneira crítica, transmitir opiniões de economistas e do governo, sem usar uma linguagem que as pessoas comuns não entendam, e sem violar os conceitos criados pela linguagem científica dos economistas (KUCINSKI, 2000).

Burkett (1986) também acredita que a missão do jornalista especializado é simultaneamente, atrair os que não têm conhecimento prévio sobre o tema sem chocar seus especialistas. Ele defende que o jornalista assuma por inteiro o papel de pedagogo, transformando o resultado da sua atividade numa espécie de dicionário para leigos e especialistas. Mesmo assim, reconhece que esta tarefa não é fácil, já que dificilmente será capaz de atender exigências tão diferentes. Alguma informação sempre será perdida no processo para facilitar uma ampla divulgação (MARTINS, 2005).

Citando um trabalho sobre jornalismo econômico elaborado pela Universidade de Columbia, Martins (2005) engrossa o coro que defende o abandono dos vícios da linguagem dos profissionais da economia. Ela traz especificamente os argumentos de Graham Watts, um dos autores do estudo, que aconselha a abordar um tema econômico “como se contasse a história a alguém da sua família ou amigo”. Watts acrescenta que os números são instrumentos de apoio e devem estar distribuídos ao longo do texto, não reunidos em um único bloco compacto e incompreensível. Além de lembrar a importância de declarações, vozes de pessoas para que as reportagens não se tornem meros relatos abstratos. “Em resumo, o jornalista especializado em economia não escreve uma equação, escreve um artigo jornalístico, que tem de ser compreendido por um leitor sem formação específica” (MARTINS, 2005: 228-229), como exemplifica Caldas:

O empresário tem lá seu vocabulário próprio, o economista lança mão de expressões técnicas da ciência econômica, o ministro fala o linguajar escorregadio do governo. Mas o jornalista deve ter a preocupação e preparo para interpretar o que ouviu desses personagens e, ao escrever, traduzir tudo em linguagem simples e objetiva, capaz de ser entendia por qualquer um, do porteiro de seu prédio ao mais importante empresário do país. (CALDAS, 2003: 1)

Martins (2005) acredita que esses conselhos básicos são esquecidos na prática cotidiana, o que resulta na reiteração do estereótipo de um jornalismo econômico sempre distante do grande público. Mesmo uma análise empírica e não comprovada cientificamente mostraria que as reportagens se concentram nas fontes institucionais, nos governos, na classe empresarial e nos economistas. A autora conclui que na maior parte das vezes, a realidade econômica é abordada pelo ângulo de percepção do poder instituído, afastando-se da realidade concreta das sociedades, do consumidor, do desempregado e do pensionista.

No entanto, acredita-se que é possível uma melhor utilização da linguagem e, consequentemente, uma maior aproximação com o público em geral. Certos autores trazem verdadeiros guias de como o jornalista que produz notícias econômicas deveria agir para evitar a repetição de vícios que prejudicam a decodificação de suas reportagens. Neste trabalho, destaco os argumentos e conselhos de dois deles: Kucinski (2000) e Basile (2011).

Ambos colocam a busca da clareza como ponto de partida para um bom texto. Kucinski (2000) acredita que o envolvimento do jornalista com o tema é fundamental já que clareza só pode ser alcançada se o profissional entende o fenômeno econômico que se

propõe reportar ou analisar. Afinal, em posse desse conhecimento, o repórter pode simplificar conceitos e até usar metáforas sem comprometer a precisão da informação. “O recurso dos jornalistas que não entendem bem o tema de que estão tratando é o de se protegerem com palavras difíceis do jargão dos economistas e com expressões do inglês” (KUCINSKI, 2000: 168-169). Basile sintetiza a importância da clareza para a boa produção jornalística: “Se você explicou tudo direitinho na sua história, não há mais explicação a dar. A clareza expulsa a interpretação do espírito humano, e por isso, no jornalismo, que vive da informação confiável, clareza é absolutamente essencial” (BASILE, 2011: 126-127).

Intrinsecamente ligadas à clareza estão a escolha das palavras e a ordem das mesmas nas frases que compõem o texto. O principal conselho nesse caso é “expresse apenas com palavras que forem absolutamente necessárias, com economia absoluta de linguagem” (BASILE, 2011: 127). Nesta questão, Kucinski (2000) condena os eufemismos que, para ele, emasculam a linguagem jornalística. “Além de pouco claros, eufemismos como ‘crescimento negativo’ tem motivações ideológicas. As elites dominantes esmeram-se em criá-los para camuflar os conteúdos de suas políticas econômicas”. Sobre a linguagem burocrática, de conteúdos irrelevantes ou acessórios, o autor vai além ao afirmar que esta “sintetiza quase todos os defeitos do fazer jornalístico brasileiro: o desprezo pelo leitor, o descuido com a informação, a preguiça jornalística e a despolitização da informação” (KUCINSKI, 2000, p.169-170).

Parece brincadeira, mas palavras utilizadas a esmo, sem atenção e cuidado, não evidenciam apenas um deserto verbal que se perde no horizonte, grandioso, desesperador e vazio. Evidenciam que esse deserto é também intelectual, e que através dele, a franquia da livre expressão está sendo mais que mal utilizada, eventualmente, manipulada, algumas vezes. (BASILE, 2011, p. 170)

Os autores também apontam outro traço do jornalismo econômico brasileiro: a imprecisão da informação. Para Basile (2011) a maior parte das “bobagens” que aparece em textos de economia e negócios se relaciona a distrações sobre informações factuais básicas. Kucinski (2000) também acredita que o problema começa nos dados primários, como datas, cifras, índices e a grafia de nomes e empresas. Além da utilização de dados já superados, não distinção entre dados firmes e provisórios, e entre agências com credibilidade e de baixa credibilidade.

Ainda a respeito dos números, Basile (2011) defende a utilização de recursos gráficos para uma melhor compreensão e condena o seu uso em excesso nos textos. Uma estratégia que esconde uma falta de ponto de vista, de foco sobre o que se quer mostrar. Entretanto, admite que este possa ser um problema da fonte. De um lado, há aqueles que utilizam excesso de números como argumento de autoridade. Outros para afastar o jornalista da verdade, já que com tanta informação, muitas vezes, se perde a possibilidade de ter uma noção de perspectiva.

Para Caldas (2003), entretanto, a linguagem jornalística é uma só. A função de todo repórter é apurar, investigar, buscar fatos novos, não se conformar com a primeira versão dos fatos; checar, sempre checar. No caso do jornalismo econômico e político esta atitude tem sua dimensão aumentada, já que o jogo de interesses tenta constantemente manipular as informações dadas aos repórteres.

O texto sobre o déficit fiscal do governo deve ter a mesma simplicidade, objetividade e clareza de outro que descreve um confronto entre policiais e traficantes na favela ou daquele que narra a súbita disposição de Romário em disputar a bola com o adversário. O que muda é apenas o

Documentos relacionados