correspondente ocidental de gênio.
2.2.1 Elementos do Kitsch
Moles (1986) estrutura a relação do homem com as coisas em busca de um modo Kitsch e categoriza essa relação em sete modos:
Modo ascético, segundo o qual o homem relaciona-se vagamente com as coisas. É a atitude Zen. O modo hedonista, que é um modo sensual de relação, onde o homem toca, acaricia, segura,
vivencia o objeto.
O modo agressivo, em que
destruir é tão sedutor quanto construir, e muitas vezes mais rápido e mais direto.[...] Algumas vezes, esta agressão em relação às coisas muda rapidamente de sentido e alcance em uma sociedade que passa do estado de escassez ao estado de afluência, onde a destruição não envolve mais necessariamente o pesar ou o ultraje, mas a disponibilidade (Ibid., p. 35).
O modo aquisitivo, que é o modo burguês de açambarcar, possuir. “A vontade de poder do ser concentra-se no aumento de suas posses. É a ideia de investimento, sendo que o ato essencial é a obtenção, a compra ou a conquista” (Ibid., p. 36).
O modo surrealista, ou fator estranheza, em que a probabilidade de ocorrência de uma determinada situação é forçada.
O modo funcionalista ou cibernético, em que “cada coisa é um instrumento de um ato, no sentido específico com que se definiu o instrumento. A cada objeto corresponde um ato, e reciprocamente, a cada ação um instrumento e, em consequência, se a ação não está presente, então o objeto, inútil, desaparece” (Ibid., p. 37).
O modo Kitsch “estabelece-se com base em uma composição original das atitudes já indicadas, associada à ideia de uma anti-arte da felicidade, de uma situação média que participa do empilhamento do proprietário feliz” (Ibid., p. 38).
Consequentemente, o autor cria uma tipologia baseada na relação entre os objetos e não nos objetos em si. Logo passa a classificar esses agrupamentos em quatro categorias, a saber:
Critério de empilhamento sem dó. Para MOLES (1986), os objetos têm para si uma espécie de espacialidade própria, uma espécie de área pessoal onde ele passa a ter existência numa espécie de “zona própria”. Ao se multiplicarem os objetos no mesmo espaço, ocorre um momento em que estes começam a se tocar nas suas respectivas zonas de influência: é o estilo kitsch se manifestando. É claro que se houver mais acumulação, vão ocorrer novas invasões territoriais até um momento de compressão do “espaço vital”: é a pressão kitsch. Um excelente exemplo deste tipo de critério são as casas e apartamentos da classe emergente, onde o empilhamento de objetos é uma tentativa de reprodução aleatória daquilo que é considerado pelos emergentes como significativo do sistema de valores da classe nobre, que eles almejam atingir: objetos caros, alguns de boa qualidade, expostos como troféus da ascensão social, empilhados desordenadamente nos espaços, se entrelaçando como uma floresta de objetos disparatados e sem sequência, exceto a sequência das conquistas sociais.
Critério de heterogeneidade. Segundo Moles (1986), é uma forma de agrupamento em que os objetos não têm relação direta uns com os outros, chegando a existir aí “uma fonte de surrealismo combinatório inconsciente” (Ibid., p. 61). Pode-se exemplificar essa atitude com um quadro de um pintor famoso, digamos um Goya. Pelo critério de empilhamento, os objetos são ajuntados de tal maneira que têm suas áreas individuais invadidas; assim, quanto maior a quantidade de objetos, menor o espaço de realização, até o ponto da anulação. Na heterogeneidade, esse mesmo Goya, rodeado de posters de estrelas do grand monde, macramês e souvenir de feira de artesanato, cachepots de cerâmica pseudo-rococó entulhados de palmeiras e bananeiras tropicais, ikebanas e bonsais japoneses espalhados cuidadosamente em mesinhas de laca vermillion chinesa, santos pseudo-barrocos de cerâmica em tamanho natural, painéis psicodélicos e reproduções de obras célebres em cromos de papel telado, todos acumulados despreocupada e alegremente num mesmo espaço e em que cada objeto invade de tal forma a “zona própria” do outro, faz com que o Goya original acabe por se transformar numa reprodução barata.
Critério da antifuncionalidade. Critério que distingue a série funcional do agrupamento espontâneo. No primeiro tipo de agrupamento há uma intenção funcional precisa; no segundo agrupamento há uma sedimentação característica: os objetos são empilhados como forma de coleção de modo que não há intenção de funcionalidade nem critério de utilidade. É a cozinha auxiliar: uma vasta coleção de artigos de cozinha empilhados na sequência de ambientes da casa, sem funcionalidade nem utilidade, exceto a de estar pronta e arrumada para ser mostrada, aos visitantes ocasionais, como elemento de conquista da ascensão social.
Critério de autenticidade kitsch. Este critério corresponde à ideia de sedimentação. O acúmulo e o empilhamento existem como parte do processo dessa ascensão.
Constitui um lento desenvolvimento, uma acumulação triunfante, troféus de viagens e testemunhos de exotismo, troféus de ascensão social ou socioeconômica, penhores de uma sedução pelo mercado e de um pensamento artístico atomizado que percebe claramente o objeto, e mal o conjunto, e que só conhece a coerência do sedimento ou da pilha, da sequência das tentações, e que não consegue captar a sequência do projeto global (Ibid., 61).
Um elemento bastante revelador do kitsch é a leitura do significado dos objetos através da sua dialética: a oposição combinada de elementos normalmente antagônicos, mas momentaneamente equilibrados pela necessidade de uma felicidade quase extática, pela possibilidade de se negociar o impossível como forma de auto-aceitação.
Na corrente surrealista de pensamento da arte, o propósito acerca da inverossimilhança de situações que cercam a proximidade dos objetos, nas suas “zonas próprias”, oculta uma crítica mordaz e decepcionada acerca “da funcionalidade que as isolam no sentido fenomenológico” (Ibid., p. 66). Mas o surrealismo também gera uma expectativa, como movimento, de proximidade com as forças de disrupção social, gerando um casamento de polaridades e disparidades:
A. O doce azedo – o erotismo angelical: mocetonas de olhares úmidos como as madonas de
Murillo (fig. 2.3), de humilde pudor e ao mesmo tempo temperadas com poses extravagantes e carregadas de furor genital, discretamente disfarçadas em véus diáfanos de transparência inefável na semi-velada da nudez, exposta como forma de controle da ansiedade; combustível da apreciação a meio caminho entre a pornéia escatológica e a santidade beatífica das deusas ginecológicas da Playboy;
a b c
d e
Figura 2.3 - Santas.
(Fontes: para Bernini http://goo.gl/ZbjyI8, e Murillo http://goo.gl/Q0Cgdw).
O confronto entre duas tendências da mesma escola: o Barroco. De um lado o olhar úmido (a) da Imaculada Conceição (d) de Murillo, galvaniza a atenção do espectador num olhar extasiado e santificado em que a mulher perde o contorno (não a beleza) do feminino e ganha o aspecto do irreal, que tornou-se o padrão de representações do kitsch religioso. Do outro lado, Gian Lorenzo Bernini no seu Êxtase de Santa Tereza (e) não desperdiça talento ao burlar a Inquisição e inserir elementos marcadamente eróticos em uma cena pouquíssimo condizente ao erotismo, e sem cair no kitsch. Não é difícil ver porque os olhos de Tereza (c) rolam entre a ambiguidade do gozo imaterial e do terreal. A olhada marota do anjinho (b) adolescente de cara pouco inocente, exibindo um elemento fálico na mão, é muito óbvia para pedir esclarecimentos. O que mostra que o doce-azedo não é invenção do século XX. Só que tinha mais estilo!
B. O técnico decorativo – a parafernália gerada pela gratuidade pseudo-artística da indústria do souvenir (fig. 2.4) e das alegres alegrias do turismo incondicional: os cinzeiros, chaveiros, boinas, quepes, capas, copos, canetas e todo o funcional aderente à motivação da memória instantânea e inconsequente (fig. 2.5). A indústria do “inho”, o “bonitinho” e o “fofinho”, os carros chefes da mediação entre o utilitário funcional e a ilustração mnemônica do “estive aqui”, tudo embalado em forma doce (encanto, nostalgia, saudade) e azedo (o estilo sem estilo que reflete e deflete o lugar sem lugar);
Figura 2.4 – Lembranças.
Evidentemente que no Vaticano do Kitsch, não poderiam faltar souvenires da épica epopeia da felicidade (Fonte http://collectibles.about.com/library/articles/bldisney.htm?once=true&).
a b Figura 2.5 – Bibelôs.
Oh, doçura. Lágrimas e piedade! O cãozinho de porcelana (a) e o Michael Jackson de Jeff Koons (b) que curiosamente posa ao lado de um símio amigo. Quem não os conhece?
C. O exótico terrenal – o selo de castelão medieval feito com suas iniciais para selar o lacre de correspondência para amigos (impressiona o ar áulico da carta com lacres perfumados que recendem a sândalo, ou quiçá, uma exótica aspersão de pó de patchoulli, apenso ao monograma de suas iniciais em gótico arcaico), capa de celular feita em pele de panda, pendantif feito com o osso hioide do boto em engaste de madrepérola, caneta esferográfica num invólucro feito de micro tipiti (objeto em forma de cone, com alça numa das extremidades, empregado na fabricação da farinha de mandioca. O cone, feito de palha trançada, aos ser rotacionado pelo anel da extremidade, esmaga a mandioca por compressão, extraindo a manipueira, alcaloide de cianeto mortal para consumo).
D. O tradicional e a ficção científica – chaveiro em forma de módulo espacial, peso de papéis no formato de Saturno com os anéis servindo de porta-clips, móbile-cadeia-do-ADN ou até mesmo as extravagantes paisagens espaciais como painel de fundo de parede, compondo um cenário transgalático no escritório do homem do século XXI.
E. O heroísmo despojado – estatuetas de santos guerreiros no formato de peso de papel,