ANTROPONÍMIA PORTUGUESA E ANTROPONÍMIA UMBUNDU
1.1. Elementos do nome (nome próprio, sobrenome, apelido)
O nome é o conjunto de elementos portadores de significado que funcionam como marcadores de identidade pessoal, geralmente atribuído no momento do batismo. Sobre este ponto, Vasconcellos (1928:9) considera “nome completo, ou conjunto formado pela designação individual propriamente dita, acompanhada de outra ou outras designações que de ordinário se lhe juntam”. Ainda segundo o mesmo autor a palavra nome tem quatro aceções: (i) nome próprio (nome de batismo, registo ou crisma); (ii) nome completo (conjunto formado pela designação individual acompanhada de outras designações); (iii) elementos do nome (apelido e sobrenome); (iv) alcunha. Diogo & Oliveira (2009) sustentam que o nome é um dos primeiros atributos que um individuo recebe. Para Ainiala, et al. (2012) os nomes podem ser analisados em duas perspetivas: (i) o nome como combinação de palavras; (ii) o nome como identificador individual. Por outras palavras, o nome atribui identidade a uma pessoa após o nascimento. Em
função disso, um individuo sem nome é socialmente desconhecido. O nome exerce um papel insubstituível na vida social do cidadão, ou seja, está diretamente relacionado com o sujeito.
O nome não pode ser concebido apenas como um conjunto de elementos sonantes, mas como um sistema interligado de elementos que desempenham diferentes funções. Segundo Rowland (2008) a função principal do nome consiste em identificar uma pessoa, destacando a personalidade de cada indivíduo:
a função denotativa do nome serve em teoria apenas para marcar a identidade pessoal, ou a individualidade, de cada um, distinguindo-o, tal como o número do bilhete de identidade, de
todas as restantes pessoas no interior de determinada população de referência. (Rowland 2008:2)
Os componentes do nome desempenham uma função importantíssima, ou seja, indicam a linhagem ou a origem familiar. A motivação do nome varia consoante a cultura, a localidade, os costumes e a época, e pode estar relacionada com a religião, o local de nascimento, a profissão, a tradição familiar, a apropriação de nomes estrangeiros e a moda. Vasconcellos (1928:141-143) afiança que os nomes podem ter várias motivações, tais como: “o nascimento, o batismo, a devoção particular e o apadrinhamento”. Ainda segundo o mesmo autor os nomes podem ter origem em apelidos do padrinho ou de um protetor, dos avós ou de outros parentes ou apelidos adotados por circunstâncias especiais. Do ponto de vista de Santos (2003), a atribuição de nomes está relacionada com nomes religiosos (nomes de santos), nomes de origem familiar (pais, avós ou bisavós), nomes de personagens locais e nomes políticos ou militares.
Relativamente aos elementos do nome, Bobone (2017:71) assevera que “as palavras apelido, sobrenome, cognome, alcunha e nome próprio são usadas indiferentemente, nos autores clássicos para definir o conjunto dos nomes que aparecem depois do primeiro”.
O nome completo no período medieval era composto por nome próprio, sobrenome, alcunhas e apelidos (Vasconcellos 1928). Segundo Nunes (1999), o prenome simples e prenome composto correspondem a primeiros nomes e apelido ou sobrenome correspondem a segundos nomes.
O nome próprio designa apenas um sujeito e pode variar segundo o género da pessoa.
Segundo Oliveira (2005), o nome próprio é um designador rígido por representar um indivíduo de uma maneira única e direta.
Segundo a tradição cristã, o nome próprio é atribuído no batismo, conforme explica Vasconcellos (1928:8) “o nome próprio é a designação que a pessoa recebe no batismo, no
registo, em crisma”. Para Cabral (2008:241) “o nome próprio é o “nome de pia” (batismal) que, à luz da tradição cristã, transporta a sacralidade da pessoa humana, qualificando-a no que tem de mais essencial. É o nome da alma”. Raposo & Nascimento (2013) consideram nomes canónicos ou antropónimos os nomes de batismo e de família que funcionam semanticamente como nomes próprios. Ainda segundo Raposo & Nascimento (2013:998) o nome próprio pode ser entendido em três perspetivas: “(i) dimensão formal que consiste no número de elementos que compõem o nome próprio; (ii) dimensão semântica baseada em critérios de obrigatoriedade e motivação semântica; (iii) dimensão ontológica relacionada com a natureza do seu referente”.
Naidea Nunes, em Antroponímia Primitiva da Madeira (1999:27) afirma que “a atribuição dos prenomes realiza-se com base nas influências externas: tradição religiosa, tradição literária e tradição histórica. A preferência de determinado prenome em detrimento de outro varia com o tempo, segundo a moda e a popularidade dos nomes”.
Existem nomes próprios simples quando constituídos de um único elemento e compostos quando constituídos por mais de um elemento feminino ou masculino, geralmente com ou sem a preposição de. Por exemplo: Maria João, João Maria, Ana Sofia, Maria das Dores, Maria da Esperança, João de Deus, Maria da Ascensão, Maria do Carmo. Conforme afirma Vasconcellos (1928:327) “do mesmo modo que o nome próprio e o sobrenome, também o apelido pode ser simples ou composto: melhor certamente seria dizer complexo”. Vale ressaltar que o nome próprio é indispensável para distinguir um ou mais indivíduos enquanto o sobrenome insere o sujeito no contexto familiar.
Nessa sequência, podemos dizer que não há homem sem nome, nem nome sem sobrenome. De acordo com Franco (1995:22) “o sobrenome era o segundo designativo de identificação e tinha como função indicar o nome próprio do pai”. Durante o período medieval os sobrenomes passaram a ser usados como apelidos, como se verá adiante sobre a transição dos patronímicos a nomes de família. Segundo Bobone (2017:72) “a gramática de João de Barros, em 1540, define o sobrenome como sinónimo de patronímico”. Vasconcellos (1928:11) sustenta que “sobrenome é um patronímico, nome de pessoa, expressão religiosa ou outra, que se junta imediatamente ao nome individual, com o qual como que forma corpo: Méndiz, Augusto, César, da Conceição”.
Iria Gonçalves, em Amostra da Antroponímia Alentejana (1971), refere que o patronímico podia ser constituído pelo nome próprio do pai, quer na forma genitiva, quer na forma nominativa. Ao contrário do que se pensava sobre o período de desagregação do patronímico na forma genitiva, Iria Gonçalves sugere que este processo em Portugal tenha
durado até ao século XVI. Para Carvalhinho (2007:5) “sobrenome é tudo aquilo que não pode ser considerado nome de batismo”. Segundo Franco (1995:103) “o sobrenome faz com que o indivíduo tenha consciência da sua existência ao evidenciar a sua família, ao esclarecer a sua origem”. Ainda segundo a mesma autora, o sobrenome representa uma interpretação sobre o passado e o presente do sujeito, "impondo" a presença da família a que pertence. Diante deste pressuposto podemos dizer que o sobrenome, para além de estar relacionado com o nome do pai, indica similarmente a relação existente entre o sujeito e seus antepassados. Na conceção de Vasconcellos (1928:144) “o nome e sobrenome formam de certo modo um nome duplo ou composto (nome próprio): José António, Maria da Conceição”. Ainda segundo o mesmo autor, quando um nome se compõe por nome e sobrenome, sem apelido, o sobrenome deixa de ser independente.
Por conseguinte, o sobrenome funciona como a segunda parte do nome que tem a função de identificar a origem familiar de um sujeito. Antigamente muitos sobrenomes eram transmitidos depois do matrimónio. Desta forma, no século XIX por influência da burguesia, as mulheres passaram a acrescentar o sobrenome do marido ao seu nome depois do casamento.
Apelido é o designativo familiar que se transmite de geração a geração, e que vem a seguir ao nome próprio. De acordo com Vasconcellos (1928:11) “apelido é designação de família, transmitida ordinariamente de geração em geração”. Bobone (2017) considera os apelidos como património familiar por serem intransmissíveis a qualquer sujeito que não pertença à mesma família.
Os apelidos especificam a proveniência da linhagem do sujeito independentemente do estrato social. Por outras palavras, o apelido é genérico, isto é, comum a toda a família ao passo que o sobrenome é individual, conforme afirma Vasconcellos (1928), que o sobrenome pode ser comum a vários irmãos, a alcunha é simplesmente nome não opcional, e o apelido é relativo a toda família:
a diferença fundamental entre sobrenome e apelido, na nomenclatura atual, e mais corrente, está em que aquele é individual, ou apenas comum a vários irmãos, embora às vezes transmissível a filhos, e o apelido é genealógico, isto é, comum na essência á família toda. A alcunha é adventícia. (Vasconcellos 1928:12)
Segundo Bobone (2017:51-52) “o apelido propriamente dito, nasce nos séculos XI e XII nos reinos cristãos da Reconquista”; “os apelidos nasceram de alcunhas, dos nomes de terras de onde as pessoas são naturais ou terras que possuem, dos nomes de profissão ou de invocações religiosas”.
No decorrer da Idade Média, também o patronímico paterno passou a ser usado como nome de família. A distinção entre sobrenome e apelido nem sempre foi clara, já que os sobrenomes e alcunhas podem ser apelidos, conforme nos diz Vasconcellos (1928:13-14)
“encontramos, por exemplo, nos livros de Linhagens (sec. XIV, ou XIII-XIV), sobrenome, no sentido de apelido, e bem assim no de alcunha”. Na época da reconquista cristã, entre o século XI e XV, o sobrenome passou a ser usado como nome de família.
Segundo Vasconcellos, “hoje não falta quem por sobrenome entenda tudo o que se junta ao nome, seja sobrenome propriamente dito, seja apelido, seja um e outro” (1928:14). Queiroz e Moscatel (2016:167) afirmam que “a história dos apelidos em Portugal pauta-se pela ausência de regras claras, embora possam ser identificados costumes, por vezes específicos de certos estratos sociais, de certas épocas, e até de determinadas regiões”. Ainda segundos os mesmos autores, a noção de apelido também foi entendida de modo diferente ao longo dos séculos. Para Vasconcellos (1928:118) “o contacto de portugueses com os forasteiros fazia nascer apelidos novos, e contribuía para modificar o antigo sistema de denominação, ainda que há apelidos de fora, que se adaptaram aos que cá existiam, como Geraldes”.
De acordo com Bobone (2017) o termo apelido não apresenta correspondência semântica com as línguas mais próximas:
a palavra “apelido”, que em português e espanhol significa nome de família, parece ser uma criação original da Península Ibérica, pois não tem parentesco com os seus sinónimos nas línguas mais próximas: cognomen em latim, cognome em italiano, surnom em francês.
(Bobone 2017:323)
Ivo Castro, em O nome dos portugueses (2001), diz que os nomes de família ocupam sempre a posição final. Podem desempenhar funções conjuntivas, quando identificam todos os sujeitos pertencentes a mesma família. E quando os distinguem de todos os que não pertencem à mesma família desempenham funções separativas.