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CAPÍTULO IV: A INSTÂNCIA DO SAGRADO

4.2. Elementos do sagrado

Na perspectiva de Rudolf Otto, “o sagrado, no sentido pleno da palavra, é uma categoria composta. Ela apresenta componentes racionais e irracionais.”243 O elemento irracional ele o denomina de numinoso244 e o elemento racional é o predicador.245 No que se concerne ao racional na ideia do divino, o autor entende aquilo que nela pode ser formulado com clareza, compreendido com conceitos familiares e definíveis. Nesse sentido, quanto à racionalidade no sagrado, interpretando Otto, Cipriani246 esclarece:

A racionalidade torna-se critério de discriminação para reconhecer uma dimensão religiosa com medida humana. O divino tem de ser a perfeição daquilo que existe nos seres humanos, embora de modo imperfeito. Uma religião é racional se permite uma imaginalidade do ser divino sobre a mesma amplitude de onda das características – claras e definidas – do homem, porém exaltadas em grau máximo na divindade.247

Para alcançar esse primeiro nível de racionalidade, o homem necessita se valer de predicados racionais a respeito da noção do divino, no intuito de torná-lo dizível. Parece pertinente aqui considerar este aspecto tendo em vista as composições do próprio Patativa. Em muitas delas se podem constatar vários atributos (predicador) pelos quais ele se refere a Deus. Por exemplo, só na composição O meu livro248 ele usa uma variedade de atributos para o divino: Pai criador, Onipotente, Deus poderoso, Santa Verdade, Sublime Grandeza,

242 ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá, p. 27. 243 OTTO, op. cit., p. 150.

244 Do latim, numem, nume, “deus”, nos dizeres de Otto, “ente sobrenatural, do qual ainda não há noção mais

precisa”. (Cf. OTTO, op. cit. p. 28)

245 Diz respeito ao predicado racional, o atributo que convém como apoio, mas que não esgota o sentido maior do

sagrado. Exemplos de predicador: todo-poderoso, onipotente, espírito, sumo bem etc.

246 CIPRIANI, Roberto. Manual de sociologia da religião, p. 171. 247 Ibidem.

Infinito, Soberano, Bendito, Criador, Senhor da Criação, Divino Mestre, Sumo Bem, Divina Providência, Soberano, Divina Majestade.249 Em outra composição, acrescenta:

(...)

Deus é grande, é poderoso, É o mestre da santa paz, Fez tantas coisa no mundo Que os home morre e não faz250

(...)

Os atributos ou predicados, porém, não esgotam o sentido do sagrado, do nome de Deus. Não são, portanto, suficientes para definir o divino. Conforme Otto, “ao redor desse âmbito de clareza conceitual existiria uma esfera misteriosa e obscura que foge não ao nosso sentir, mas ao nosso pensar conceitual.”251 A esfera misteriosa é, pois, o numinoso, o “inefável”, pertence ao plano da experiência, da vivência religiosa, e que “somente pode ser indicada indiretamente pela evocação íntima e apontando para o peculiar tipo de conteúdo da reação-sentimento, desencadeada na psique por uma experiência pela qual a própria pessoa precisa passar.”252 É nesse ponto que se encontram as características da irracionalidade na noção do sagrado, isto é, aquilo que ao homem é impossível medir, porque supera o nível da racionalidade humana.

No que tange à experiência reação-sentimento, ela diz respeito à sensação experimentada pela criatura ante o mysterium tremendum.253 Experiência que causa “o estremecimento e emudecimento da criatura a se humilhar perante o que está contido no inefável mistério acima de toda criatura.”254 Nesse sentido, a modo de exemplo o autor cita o episódio bíblico no qual Abraão ousa falar com Deus a respeito da sorte dos sodomitas: “Tomei a liberdade de falar contigo, eu que sou poeira e cinza (Gênesis 18,27).” Nessa expressão de Abraão estaria contido um sentimento confesso de dependência, muito mais do que todos os sentimentos naturais de dependência, bem como algo qualitativamente diferente. Uma “quadra” de Patativa pode ser ilustrativa nesse sentido:

Toda Natureza cheia Com os possuídos seus

249 Todos esses atributos evidenciam haver um Ser acima de todos os seres: “Ser Supremo, deus supremo, na

ciência das religiões designação do poder que está acima do mundo e de todos os poderes sobrenaturais (Deus), especialmente como criador, autor e guarda da ordem moral. A crença em ser supremo (crença em um Deus supremo) encontra-se, sob múltiplas formas, em quase todas esculturas, já desde os tempos mais remotos.” Cf. UDO, Becker. Dicionário de símbolos. Tradução Edwino Royer. São Paulo: Paulus, 1999. p. 247.

250 Inspiração nordestina. p. 135. 251 Idem, p. 98.

252 Idem, p. 42.

253 Conforme o próprio autor explica, “conceitualmente, mistério designa nada mais que o oculto, ou seja, o não-

evidente, não-aprendido, não-entendido, não-cotidiano nem familiar, sem designá-lo mais precisamente segundo seu atributo. Mas o sentido intencionado é algo positivo por excelência. Seu aspecto positivo é experimentado exclusivamente em sentimentos. Cf. OTTO, op. cit. p. 45.

É um grãozinho de areia Na palma da mão de Deus.255

É, pois, a expressão do sentir-se na presença do “outro totalmente outro”, “tremendum.”256 A reação emocional que se pode sentir perante esse outro é o “sentimento de criatura. Ao que Otto esclarece: “Ao procurar um nome para isso, deparo-me com sentimento

de criatura – o sentimento da criatura que afunda e desvanece em sua nulidade perante o que

está acima de toda criatura”257 Desse modo, porém, mais do que pretender abstrair da expressão “sentimento de criatura” uma elucidação conceitual para o que vem a ser o numinoso, importa para o autor observar o caráter do seu poder absolutamente avassalador. Convém nesse sentido apresentar um “mote” de Patativa como exemplo de sentimento de criatura ante a grandeza do divino:

O nosso Deus de bondade, Que tudo criou e fez, Mostra nossa pequenez No terror da tempestade; Grande pavor nos invade Quando o forte vento berra, Rolam as pedras da serra Com furor e aspereza, Revolta-se a natureza, Geme o mar e treme a terra. Desde a montanha à cidade Ouve-se um rouco estampido, Deixando tudo aturdido, No terror da tempestade, Parece que a imensidade Enraivecida se emperra, Querendo declarar guerra Contra a rocha de granito, Geme o mar e treme a terra. A frágil humanidade Relembra os pecados seus E pede perdão a Deus No terror da tempestade; Ante tal calamidade De momento se desterra Toda a beleza se encerra As obras da criação, Foge do sol o clarão,

Geme o mar e treme a terra.258

255 ASSARÉ, Patativa do. Ispinho e Fulô. p.173.

256 A respeito do atributo tremendum (arrepiante) Otto considera ser uma caracterização positiva do assunto em

questão, ao que esclarece: “O termo latino tremor em si significa apenas medo ou tremor [Furcht] – sentimento ‘natural’ bastante conhecido. É uma designação bastante próxima daquilo a que queremos nos referir, mas que não passa de uma analogia para uma reação emocional muito específica que se assemelha ao temor e permite que este dê uma pista dela, mas a reação em si é algo bem diferente de temer.” (OTTO, op.cit., p. 45.)

257 Otto, op. cit., p. 41.

Essa composição parece apresentar com evidência a sensação da criatura de “não ser mais do que uma criatura”. Otto defende que diante do “misterioso” que causa o “receio”, há também o “fascínio”, porque se trata de um mistério que atrai.259 Instala-se na criatura, portanto, nesse momento, certa harmonia de contrastes entre o pavor e a atração. Disso, segundo Otto, teria partido toda a evolução histórico-religiosa, desde as primitivas experiências do “receio demoníaco” até a noção do Deus “vivo”.

Sua eclosão deu início a uma nova era da humanidade. Dela provêm os “demônios” bem como os “deuses” e o que mais a “apercepção mitológica” ou a “fantasia” tenha produzido em termos de objetivações dessa sensação. Se ela não for reconhecida como fator primeiro e impulso básico, qualitativamente peculiar e inderivável, todas as explicações animistas, mágicas e etnopsicológicas para o surgimento da religião estarão liminarmente passando ao largo do verdadeiro problema.260

Com isso, no entanto, o autor não quer dizer que a religião tenha nascido do que se entende por temor natural;261 isto é, por medo, no sentido mais comum da palavra. Como ele próprio elucida, trata-se de “uma primeira valoração segundo uma categoria fora dos âmbitos naturais costumeiros e que não desemboca no natural.”262 Isso porque não se refere ao que se entende por um medo comum.263 Nos termos de Otto,

esse assombro somente é possível para a pessoa na qual despertou uma predisposição psíquica peculiar, com certeza distinta das faculdades “naturais”, a qual inicialmente se manifesta apenas em espasmos e de forma bastante rudimentar, mas que também nessas condições aponta para uma função totalmente própria e nova de o espírito humano vivenciar e valorar.264

Nesse sentido, na perspectiva ottiana, o mysterium é o elemento por excelência do numinoso e o “sentimento de criatura”, por sua vez, decorrente dele. De modo que o

mysterium gera três sentimentos: o aspecto tremendum, o aspecto avassalador, e o aspecto enérgico. Em poucas palavras se discorre sobre eles.

O primeiro aspecto – tremendum – é o que faz tremer, causa calafrio. É o sentimento que nas primeiras manifestações primitivas e rudimentares se apresenta na forma do “receio demoníaco”. Nos dizeres de Otto, ele é uma característica peculiar da chamada “religião dos

259 Em outras palavras, o mysterium é a forma, que provoca um conteúdo repulsivo. Este, por sua vez, é

tremendum: causa terror. No entanto, causa também o fascinans, exerce fascinação, atrai.

260 OTTO, op., cit., p. 47.

261 O temor, ou “medo do mundo” [Weltangst], ou assombro [das Grauen] a que Otto se refere não diz respeito

ao medo comum, natural. Deve ser entendido como “a primeira excitação e pressentimento do misterioso, ainda que inicialmente na forma bruta do ‘inquietantemente misterioso’ [Unheimliches]”. (Cf. OTTO, op. cit., p. 47.

262 Idem.

263 Trata-se de um problema da linguagem humana: ela é incapaz de conseguir explicar a totalidade do sagrado.

Como salienta Eliade, “é certo que a linguagem exprime ingenuamente o tremendum, ou a majestas, ou o mysterium fascinans mediante termos tomados de empréstimos ao domínio natural ou à vida espiritual profana do homem. Mas sabemos que essa terminologia analógica se deve justamente à incapacidade humana de exprimir o ganz andere: a linguagem apenas pode sugerir tudo o que ultrapassa a experiência natural do homem mediante termos tirados dessa mesma experiência natural.” (Cf. OTTO, op. cit., p.17).

primitivos”, no entanto, se manifesta também onde produtos fantasiosos tenham sido superados: “Mesmo onde esse sentimento há muito já alcançou sua expressão mais elevada e pura, suas excitações primais sempre podem voltar a irromper ingenuamente na alma para novamente ser vivenciadas.”265 De forma que, segundo o autor, o tremendum, o assombro não desaparece em nenhuma experiência de fé. Nas expressões mais elevadas ele retorna nas características do “arrepio místico”.266

O segundo elemento – avassalador, “majestas” (do latim, majestade) – refere-se a uma forma mais completa de reproduzir o aspecto tremendum do numinoso, ao que o autor denomina de tremenda majestas. A experiência mística é, nesse sentido, ilustrativa, pois é resultado do contraste entre o mais “absoluto” e o estado de criaturalidade. “Majestas e ‘ser pó e cinza’ levam, por um lado, à aniquilação [annihilatio] do si-mesmo e, por outro, à realidade exclusiva e total do transcendente”.267 Noutras palavras, é perante o poder do sobrenatural que a criatura se anula ao mesmo tempo em que experimenta a sensação de plenitude, pois sendo “nada” torna-se plena no “tudo”.

O terceiro aspecto – enérgico – diz respeito ao que Otto chama de a energia do numinoso: “Trata-se daquele aspecto do nume que, ao ser experimentado, aciona a psique da pessoa, nela desperta o zelo [Eifer], ela é tomada de assombrosa tensão e dinamismo: na prática ascética, no empenho contra o mundo e a carne, na excitação a eclodir em atuação heróica.”268 Este elemento é revelador do sentimento divino e do aspecto irracional da ideia de Deus. Como elemento irracional só pode ser representado simbolicamente, apontando para algo indizível.

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