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3 A SAÚDE, DOENÇA MENTAL E FORMAS DE CUIDADOS: PARA SITUAR A

4.1 O Serviço de Apoio Psicossocial (SAPS): memória e objetivos

4.1.1 Elementos históricos e funcionamento do Psicossocial da SEED

O Psicossocial foi um dispositivo institucional concebido pela Secretaria de Educação do Estado do Amapá (SEED-AP), com a intenção de atender servidores estaduais lotados nessa Secretaria. Esse dispositivo iniciou em setembro de 2005 e permaneceu até final de dezembro de 2013 sendo criado em consequência da ausência de serviços de saúde que atendessem os professores que estavam adoecendo e não havia para aonde encaminhá-los. Vale lembrar que a implementação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no Amapá ocorreu em 2007.

Dessa forma, em 2005, foi observado pela Diretoria de Recursos Humanos da Secretaria de Educação do Estado (DIRH/SEED), conforme Fidelia65, gestora do psicossocial:

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―um alto índice de afastamentos de servidores, que apresentavam quadros de saúde mental comprometida‖, em decorrência de transtornos psíquicos: depressão, estresse, fobias, tentativas de suicídios e suicídios efetivados, uso e abuso de substâncias psicoativas, dentre outros. Dessa maneira, a DIRH/SEED, incomodada com o número de solicitações de afastamento de professores por motivo de adoecimento, e instigada pelo Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Amapá (SINSEPEAP), elaborou o projeto de criação do Psicossocial, de acordo com informações fornecidas em entrevista concedida pela coordenadora desse dispositivo, em 20 de novembro de 2013.

A idealização da criação desse aparelho de acompanhamento à saúde psicológica dos professores vinculados à rede estadual de ensino do Amapá foi inspirada na experiência do Centro Psicossocial da Polícia Militar do Amapá (CPPMA). A psicóloga que vivenciou os passos iniciais da concepção e institucionalização do Psicossocial da SEED me relatou que esse fato ocorreu com a mudança do governador do Estado João Alberto Capiberibe para o governador Waldez Góes, no período de 2004 para 2005. No início de 2005, as psicólogas que coordenavam o Psicossocial da Polícia Militar retornaram para a SEED por decisões administrativas e políticas. Nessa ocasião, essas profissionais foram provocadas pela chefia da CRH/SEED para desenvolverem o projeto do Psicossocial da SEED, como declara a minha interlocutora:

O Psicossocial da SEED foi instituído em setembro de 2005. Nós montamos o Psicossocial da Polícia Militar e na mudança de governo Capiberibe para Waldez Góes, nós saímos da Polícia Militar. Aí nós saímos e retornamos para a nossa Secretaria (de Educação). Quando chegamos à Secretaria havia um índice muito alto de pessoas, servidores, professores com depressão e um histórico de suicídio, três professores que haviam se suicidado. Na Coordenadoria de Recursos Humanos (CRH) da SEED havia uma lista imensa de professores que estavam doentes e não tinha pra onde encaminhar. Outro agravante eram as drogas, a dependência química. Esses servidores, como eles são usuários de drogas, eles faltavam no serviço, levavam 30 dias de faltas consecutivas, abria-se um Processo Administrativo (PAD). Os servidores eram demitidos sem direitos a tratamento de sua saúde. Aí quando nós chegamos à SEED e nos apresentamos, falamos da nossa experiência e a coordenadora da CRH nos disse: ―vocês não vão para escola nenhuma, vocês vão agora... vocês abriram na Polícia... agora vocês vão fazer aqui. [...]. Nós ficamos e começamos em setembro de 2005 já atendendo as pessoas (docentes com transtornos mentais). Aí arranjaram um espaço pra nós, duas mesas, duas cadeiras e ficamos atendendo (Texto da entrevista com a coordenadora do Psicossocial da SEED no período de setembro/2005 a dezembro/2013, realizada em 29/11/2013).

Ao retornar para a SEED, e frente à demanda de servidores adoecidos, a maioria constituída de docentes, as psicólogas foram convidadas pela CRH/SEED para criar o ―Psicossocial‖ como equipamento de atenção psicossocial para fornecer atendimento aos casos de professoras e professores adoecidos psicologicamente que ali se apresentavam e não

havia meios para tratamento dentro da rede oficial de saúde. Vale ressaltar que o governo do Amapá não oferece plano de saúde para seus servidores. Alguns professores, antes da criação desse serviço de atenção à saúde docente, foram prejudicados em seus direitos por conta do adoecimento, como sustenta Fidélia: ―mesmo após todos os períodos de licença médica que lhes eram garantidos como direito pela Junta Médica do Estado do Amapá (JMEAP) e pela Amapá Previdência (AMPREV), continuavam incapacitados de retornar às atividades laborais‖.

Após a elaboração do projeto e discussão com o SINSEPEAP, cujo propósito era a criação de uma Junta Médica específica para os docentes do Estado, porém o objetivo deste sindicato não foi atendido pela SEED. O Psicossocial da SEED começou a funcionar em setembro de 2005, mesmo sem a oficialização legal da sua criação. Inicialmente, por ausência de estrutura física e pela urgência do serviço, o Psicossocial foi instalado em uma sala no próprio espaço físico da SEED. Após curto período de tempo, e com o aumento da procura de atendimentos, o atendimento foi transferido para uma sala no prédio do Conselho Permanente de Valorização do Profissional da Educação Básica (CPVPEB)66. No entanto, segundo depoimentos da minha informante, ―a sala de atendimento era instalada no terceiro piso e dificultava o acesso de alguns usuários, principalmente daqueles que manifestavam sintomas de fobia de altura‖. Nesses casos, os profissionais que compunham a equipe do SAPS ―tinham que descer para atendê-los‖ em instalações no piso térreo. Por essas razões, as condições estruturais do espaço de acolhimento não favoreciam o acesso a todos os interessados nos serviços. Então, as psicólogas voltaram a atender no ambiente interno da SEED, a qual cedeu duas salas, considerando o aumento do número de docentes com necessidade de acompanhamento psicológico e da própria ampliação da equipe técnica.

No início do funcionamento do Psicossocial, a equipe era composta por duas psicólogas, que tiveram relevante papel de agência na história desse dispositivo de atendimento psicossocial. Com o crescimento da procura pelos docentes, somaram-se a estas, outros servidores (uma pedagoga, uma assistente social e um agente administrativo) para dar conta da demanda de doentes que buscavam suporte para suas formas de mal-estar.

O Psicossocial foi fundado pela Lei nº. 0949, de 23 de dezembro de 2005, que dispõe sobre as normas de funcionamento do sistema estadual de educação, reestruturando o grupo magistério do quadro de pessoal do Governo do Estado do Amapá (GEA), e organiza o plano de cargos, carreira e salários dos profissionais da educação básica. Em seu Art. 71, a referida

Lei expõe sobre a criação do Psicossocial, originalmente pensado como: ―Junta Psicossocial‖, de acordo com o texto publicado no Diário Oficial do Estado, em 2005.

―Fica assegurada a criação de uma Junta Psicossocial para atendimento exclusivo dos profissionais da educação que necessitem de atendimento especializado‖. Em seu parágrafo único, ficou determinado: ―A Junta Psicossocial será regulamentada no prazo de 90 (noventa) dias, a partir da publicação desta lei, por ato do chefe do Poder executivo‖. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO AMAPÁ, nº. 3668/2005, p. 7).

Embora a Lei nº. 0949/2005 não tenha sido regulamentada, permitiu o funcionamento do Psicossocial. A intenção do Sindicato era que o Psicossocial tivesse sido reconhecido pelos trâmites legislativos como Junta Médica para dar maior autonomia à equipe de profissionais em casos de necessidade de afastamento de docentes do trabalho, sem necessidade de os professores serem submetidos à Junta Médica Oficial do Estado.

A procura pelos serviços do Psicossocial continuou elevando-se, mobilizando a SEED para ampliar o número de psicólogas na equipe de trabalho. Dessa forma, o grupo de profissionais que realizavam os serviços de acompanhamento psicossocial, novamente se expandiu, passando de duas para quatro psicólogas ― duas atendiam no turno da manhã e duas no turno da tarde. Com a equipe técnica ampliada, aumentou o número de atendimentos, porém, ―as dificuldades referentes ao espaço físico permaneciam‖, como aparece na fala da servidora entrevistada:

Era um espaço muito difícil, porque era só uma parede e vazado em cima. A gente tinha que falar baixinho para o outro não ouvir e aí as pessoas choravam e às vezes falavam alto e a gente ficava muito constrangida porque estava todo mundo ouvindo e aí nós levamos essa dificuldade lá para a Coordenação de Recursos Humanos foi quando surgiu esse espaço aqui na Raimundo Ozanã. Eles montaram esse espaço, projetando isso aqui tudo. Aí a chefe da Coordenadora de Recursos Humanos da SEED foi pra cima do Secretário [de Educação] e disse que tinha que ter um espaço para o ―Psicossocial‖, aí foi quando ele arranjou esse espaço aqui pra nós, onde nós estamos até hoje. Então, é mais ou menos essa história do Psicossocial. (Fidélia, entrevista concedida em 29 de novembro 2013)

O lugar referido no relato acima localizava-se na Rua Raimundo Ozanã, nº. 183, em frente à Praça Floriano Peixoto, área central de Macapá, onde o Psicossocial permaneceu de 2007 a dezembro de 2013. O ambiente reservado para o funcionamento desse dispositivo, nesse endereço, compunha parte de um imóvel onde funcionavam outros ofícios administrativos e formativos da SEED: educação continuada, educação indígena e educação afrodescendente.

Figura 3 - Local de funcionamento do Psicossocial (de 2007 a dezembro de 2013)

Fonte: Arquivos do SAPS/2013.

As instalações do Psicossocial localizavam-se no piso térreo, no ―fundo‖ do prédio. Para acessá-las passava-se por um corredor sem iluminação, aparentemente não muito acolhedor para aqueles que precisavam de ajuda psicológica, principalmente para os usuários com transtornos de pânico e ansiedade. Segundo relatos de uma profissional da equipe técnica, ―alguns pacientes necessitavam da presença da psicóloga para adentrar ao espaço de atendimento‖.

O espaço estrutural do Psicossocial era composto de cinco salas para atendimentos e uma sala onde funcionava a secretaria e a recepção. As salas eram amplas e separadas por divisórias, entretanto, não possuíam janelas, dificultando atendimento quando faltava energia elétrica, pelo calor intenso e ausência de luz natural. Os móveis eram confeccionados com macacaúba67 no estilo tradicional da região. As salas eram climatizadas, porém, os aparelhos de ar-condicionado produziam um forte barulho e os ruídos dificultavam a escuta dos usuários no ato dos atendimentos, conforme observações da coordenadora do Psicossoal, à época.

A sala de recepção tinha a função também de secretaria, onde eram produzidos os documentos institucionais e se realizava o arquivamento de prontuários dos servidores que recebiam alta terapêutica ou abandonavam o tratamento. Anexo à recepção havia um pequeno

67Árvore brasileira da família das leguminosas, cuja madeira avermelhada é muito apreciada; do tupi maca„yba,

―árvore do macaco‖. Madeira moderadamente pesada (0,70 a 0,80 glcm3); cerne castanho avermelhado com listras longitudinalmente enegrecidas; grã revessa e irregular; textura média. Muito utilizada para confecção de móveis no Amapá.

espaço, onde funcionava a copa, local onde os componentes da equipe se encontravam nos intervalos entre um atendimento a outro. Esse ambiente funcionava como um espaço de trocas de experienciais, conversas breves sobre as ações do cotidiano, referentes aos casos, comunicadas com sutileza e cuidados éticos.

Na sala de espera, sobre a mesa permanecia um ―livro preto‖, no qual os servidores em tratamento registravam suas assinaturas antes do atendimento. Esse livro continha nome do usuário e dos técnicos, data do atendimento e assinatura. Através dessas informações era contabilizado o número de atendimentos realizados pela equipe técnica para composição de relatórios mensais e anuais dos atendimentos efetivados.

A mesa acima mencionada, na sala de espera, também servia de referência para delimitar o espaço de recepção e secretaria, e havia ainda outra mesa comportando um único computador, de uso comum da equipe técnica, para registros, elaborações de relatórios, laudos, declarações e outros documentos. No canto da sala havia um armário de madeira, com chaves, onde eram arquivados os prontuários de servidores que haviam concluído o atendimento ou, por algum motivo, o tinham abandonado ou haviam recebido alta terapêutica. O espaço da recepção também era utilizado para a realização de reuniões administrativas, técnicas e estudos de casos. A seguir apresento algumas imagens das instalações internas do espaço de atendimento.

Figura 4 - Sala de recepção do Psicossocial/SEED-AP

Figura 5 - Salas de atendimento: psicológico e social

Fonte: Arquivos do SAPS/2013.

A equipe técnica do Psicossocial foi ampliada em agosto de 2013 e passou a ser composta por sete psicólogos, três assistentes sociais e uma pedagoga. Além desses profissionais, havia uma estagiária de Serviço Social e uma auxiliar de limpeza, totalizando doze pessoas. Em diálogos com componentes desse coletivo de servidores, em 2013, período em que iniciei a minha pesquisa de campo, as condições de atendimento no espaço apresentado tornavam-se difíceis devido às condições estruturais precárias e a ausência de recursos financeiros para suprir as necessidades do próprio centro.

Em meados de 2013, com a mudança de gestão da SEED/AP, iniciou uma discussão para melhorar as condições estruturais desse serviço, para investir em um espaço mais apropriado para esse serviço e inserir outros especialistas na equipe multidisciplinar para dar conta do conjunto de demandas da saúde do professor. Ressalto que, nesse período, eu estava iniciando as minhas observações e aproximações ao campo, aguardado as devidas autorizações para a consulta aos prontuários clínicos.

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