CAPÍTULO 3 – ELEMENTOS NA HISTÓRIA
3.1 Elementos históricos: escutar com os olhos
Com base no fragmento do texto de Roger Chartier (2010), “Escutar os mortos com os olhos”, de maneira análoga, tomamos o „escutar com os olhos‟ como sendo o nosso ofício de pesquisadoras em História da Educação Matemática, abordando o estudo dos elementos históricos produzidos por uma cultura escolar, por meio da análise de documentos: a arte de escrever textos científicos a partir da leitura e a interpretação dos documentos.
Assim sendo, buscamos analisar elementos encontrados no interior do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora com este „escutar‟, com o intuito em responder à nossa investigação a respeito da trajetória de constituição do ensino da Matemática no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, sendo esta uma escola para moças; e, também, sobre qual foi o impacto das leis 4024/31 e LDB 5692/71 no ensino da Matemática no Colégio. Para tanto, organizamos uma sequência de elementos a serem investigados in loco, com o objetivo de escrever uma Biografia Didática do campo da Matemática Escolar a ensinar e a ser ensinada no referido colégio, no período de 1930 a 1970.
O nosso grupo de pesquisa GEPHEME ampliou o conceito de Biografia Didática, abordada por Valente (2008), para além do texto didático. Assim, ao considerar elementos históricos que permeiam o ensino da matemática escolar, que nos emergem alguns conceitos apropriados de Bloch (2001) como sendo um caminho epistemológico para analisar elementos que serão relevantes para a pesquisa de campo.
Mas o que são estes elementos históricos tão importantes para esta investigação? Nós, que adotamos uma filosofia historiográfica em pesquisa de campo, entendemos serem os vestígios deixados pelo cotidiano, por meio das normatizações oficiais, livros-ponto de professores, livros didáticos, cadernos de alunos, manuais, diários de classe, atas de reuniões
18 Nos anos 1920, no Brasil, inicia um movimento educacional que já estava em vigência em outros países - o Movimento da Escola Nova - que atingiu seu auge com a publicação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932) que visava à aceleração de um processo de modernização educacional, no qual uma nova escola pudesse abordar um conceito funcional da educação e oferecer às crianças um ambiente dinâmico e natural, com atividades escolares espontâneas, de modo a estimular constantemente os alunos que passavam a ser o centro no processo educativo e detentor das iniciativas em atividades desenvolvidas na sala de aula (AZEVEDO et al., 2010).
pedagógicas, provas e materiais didáticos, entre outros. Nesta pesquisa, classificamos três tipos de elementos a serem investigados, quais sejam:
I Personagens – Os personagens para nós estão presentes no cotidiano e serão investigados
por meio das crônicas, entrevistas com ex-alunas, dissertações, teses que permearam o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Para-nos os personagens, se materializa na figura da ex-aluna Zita e nas freiras, que é citada tanto nas crônicas como também no depoimento da ex-aluna.
II Referenciais – Estamos considerando como referenciais, documentos, que possivelmente
estão ligados neste colégio tais como: documentos pertencentes à escola, livros didáticos, ementa curricular, ou seja, papéis contidos nos arquivos escolares e as legislações de ensino.
III Materiais Didáticos – Estamos compondo este eixo com os materiais produzidos no
cotidiano escolar, tais como: cadernos de alunos, provas, exames, dentre outros.
Desta forma, organizamos nossa pesquisa, como mostra a Tabela 2, classificando os tipos de elementos, que são: os Personagens; os Referenciais; e os Materiais didáticos, os documentos analisados em cada classificação, o lugar da pesquisa e a data do estudo e pesquisa.
Tabela 1 – Tipos de elementos
Per son age n s Fonte Local
Crônicas Yara Penteado (1990) Dissertações
Fernanda Roz Ortiz (2014)
Alessandra Christiani C. Santos (2003)
Tese Marta Banducci Rahe (2015)
Entrevista Maria do Socorro Matos de Morais – Zita
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Livros didáticos Colégio Nossa Senhora Auxiliadora Legislação leis *19 Leis 4024/31 e a LDB 5692/71 Atas Colégio Nossa Senhora Auxiliadora Ementa curricular
Colégio Nossa Senhora Auxiliadora
Ma ter iai s D idát ico s
Cadernos dos alunos Colégio Nossa Senhora Auxiliadora Provas e exames Colégio Nossa Senhora Auxiliadora
*19 Leis 4024/31 e a LDB 5692/71
Quando olhamos para cada um dos elementos históricos, anteriormente descritos, podemos tecer um cenário de uma bibliografia didática no âmbito da matemática, produzida no ambiente de um colégio exclusivo de moças onde, segundo as pesquisas já apontadas anteriormente, o ensino era voltado às práticas domésticas e prendas do lar.
Ao analisarmos os personagens, onde adotamos como uma das categorias de análise desta pesquisa; iremos apontar: o cotidiano escolar, as práticas pedagógicas e didáticas do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora; que é lócus de uma sociedade privilegiada, com um ensino que era considerado para poucos. Desta maneira, articulamos estes elementos com a história cultural de Julia (2001) e Chartier (1990). A cultura escolar faz-nos entender as normas existentes no meio escolar e na prática que permeia a transmissão do conhecimento a ser ensinado, no âmbito de um Colégio Salesiano administrado pelas filhas de Maria Auxiliadora.
Nos referenciais, conseguiremos dialogar com Chervel (1990) e Valente (2008; 2003), que pontua a possibilidade, a partir dos elementos extraídos no ambiente escolar, de construir uma trajetória do ensino da matemática em Campo Grande, região Sul do Mato Grosso Uno.
Já quando olhamos os materiais didáticos e os personagens podemos conjecturar os conteúdos ensinados e sua importância no contexto histórico cultural do Colégio Salesiano. Desta forma, podemos dialogar com Certeau (2014) e Chervel (1990). Diante destes elementos, é possível encontrar vestígios dos conteúdos ensinados e relevantes em um ambiente de cunho religioso, que tinha como princípio o ensino para moças, cujo exemplo de postura deveria ser o de Maria, mãe dedicada, exemplar e amorosa.