• Nenhum resultado encontrado

Elementos identitários e imagem social da enfermagem

No documento UNINAPRão identitM (páginas 68-75)

CAPÍTULO 2. MUTAÇÕES IDENTITÁRIAS EM ENFERMAGEM

2.2. Estratégias de (re)definição identitária

2.2.5. Elementos identitários e imagem social da enfermagem

A imagem social de uma profissão tem um forte impacto sobre os membros desse grupo profissional, condicionando quer a sua autoimagem ao nível individual, quer ao nível coletivo (Duchscher e Cowin, 2006), e influenciando a sua autoconfiança, crenças e valores (Cunningham, 1999). Torna-se importante que as representações sociais sejam clarificadas para perceber qual a sua influência a (pelo menos) três diferentes níveis (Kalisch, Begeny e Neumann, 2007). Por um lado, ao nível dos utentes dos serviços de enfermagem, que poderão não perceber as potencialidades que encerram os serviços de enfermagem no âmbito da prestação e promoção dos cuidados de saúde, dirigindo a sua procura de serviços para outras áreas profissionais complementares ou concorrentes. Por outro lado ao nível dos decisores políticos que definem contextos e recursos humanos para a profissão, e finalmente, do ponto de vista do recrutamento de novos candidatos ao curso, já que poderão dar pistas importantes sobre o grau de prestígio social e de atratividade da carreira. Simultaneamente e, sobretudo, na presença de imagens distorcidas ou descredibilizantes, a adesão de novos membros a essa profissão pode ser afetada tanto ao nível do acesso aos níveis de formação inicial, como pela existência de altas taxas de abandono ao longo da formação (Jinks e Bradley, 2004).   

Os estereótipos na enfermagem que abundam na literatura e na comunicação social revelam uma discrepância notável entre aquela que é a imagem que se procura transmitir e incorporar a partir dos discursos produzidos desde o interior do campo profissional (e que se pretende a partir da qual os estudantes construam a sua identidade profissional) e aquela que é veiculada pelos meios de comunicação social.

Esta noção é corroborada pelos estudos de Kalisch et al. (2007), e de Cunningham (1999). De facto, uma análise centrada em sites de instituições de saúde, escolas e organizações profissionais, dos EUA, Reino Unido e Canadá, revelou uma imagem relativamente positiva da enfermagem na Internet. Cerca de 70% destes sites mostraram as enfermeiras como inteligentes e educadas e 60% como respeitadas, responsáveis, empenhadas, competentes e confiáveis. As enfermeiras eram também representadas como detendo um conhecimento especializado e de natureza científica na maioria dos sites. As imagens disponíveis nestes sites raramente apresentavam o género masculino associado à enfermagem (Kalisch et al. 2007). Por outro lado, em outras análises, mais amplas da comunicação social, e não centradas em orgãos institucionais,

abundam as imagens da enfermeira angelical-conventual, ou como objeto sexual, general de guerra ou a criada do médico (Cunningham, 1999; Jinks e Bradley, 2004).

Para Macintosh (2002), das enfermeiras é esperado que demonstrem dedicação e altruísmo, o que as coloca face a um dilema importante: a sua identidade é baseada em funções cuidativas, (que não socialmente muito valorizadas) e não em funções curativas (que são bastante valorizadas). Ainda nesta lógica Duchscher e Cowin (2006) reforçam que a realidade sugere-nos que a enfermagem representa uma ideologia feminina do cuidar, do nutrir, do holismo e da inclusão, que na sua essência está desvalorizada por uma estrutura social e política orientada pelo sexo masculino.

Meis, Souza, e Filho (2007) referem que as imagens associadas à enfermagem têm mudado no Brasil, tal como no mundo inteiro: da imagem de vocação doméstica, fundada nas competências intuitivas femininas e num conhecimento moral, para uma crescentemente profissão técnica, académica e mais masculinizada, onde predominam conceitos como racionalidade e técnica.

O movimento académico da enfermagem tem também sido associado, do ponto de vista da representação social e mesmo de algumas práticas, a profissionais e estudantes, mais alienados do contacto com o doente, delegando o cuidado a outros atores com menos conhecimento académico (Roberts, 2008; Meis et al., 2007).

Um elemento identitário forte que é transversal quer no espaço, quer no tempo, ao percurso da enfermagem, é a de uma atividade “sexuada”, e o seu processo de profissionalização tem estado intimamente relacionado com representação feminina da profissão (Amendoeira, 2006). Todavia, a pertinência da importância que é atribuída às questões de género no estudo da identidade profissional em enfermagem, é relativizável atendendo ao facto de no mundo pós moderno da atualidade os comportamentos tradicionalmente correspondentes às categorizações sociais se encontrarem em permanente questionamento. Se até há poucas décadas as questões de género, eram determinantes do ponto de vista das representações sociais, no início do século XXI o impacto dessa perspetiva parece ter sido bastante atenuado, no modo como os indivíduos vivenciam as experiências.

Em Portugal as elevadas taxas de feminização só aconteceram a partir de 1930 (Soares, 1997; Nunes, 2003), sendo que na década de 1960 poucas escolas admitiam alunos do sexo masculino, e as que o faziam permitiam apenas uma diminuta proporção relativamente ao número de admissões femininas (Amendoeira, 2006), contribuindo para que no final de 2009 a percentagem de elementos femininos fosse de cerca de 81%

do total de profissionais ativos (O.E., 2010). Esta tendência é generalizada por todo o mundo, acentuando-se por vezes. Por exemplo, nos EUA a mesma taxa rondava os 90%

em 2008 (U.S. Department of Health and Human Services, 2010), e na Austrália em 2000 era de cerca de 92% (Stott, 2004).

Esta elevada taxa de feminização tem ajudado a sustentar, através da via dos saberes e poderes, uma relação crónica de subordinação às estruturas de poder na saúde, de onde se destaca o grupo profissional dos médicos (Amendoeira, 2006), contribuindo para uma polarização entre trabalho médico de natureza cognitiva e trabalho “não médico” de natureza mecânica (Carapinheiro, 1998).

A enfermeira é também representada como a “mulher” simbólica do médico

“marido”, que cuidam em conjunto dos seus doentes - “criança”, numa matriz relacional com raízes no pensamento cristão (Duchscher e Cowin, 2006). Nesta linha Amendoeira acrescenta que se torna pertinente neste contexto: “a assimetria simbólica associada às igualdades de oportunidades nas relações sociais de género” (2006, p.12).

O relativo aumento do estatuto social atribuído à enfermagem tem sido associado à evolução do feminismo em geral e à reconhecida permissividade social crescente, às mulheres (Duchscher e Cowin, 2006; Amendoeira, 2006). No entanto Amendoeira (2006) questiona se este reconhecimento das mulheres que permitiu às escolas de enfermagem ao terem pela primeira vez diretoras (enfermeiras) nos anos 70, decorre simplesmente de uma adoção de valores progressistas para a sociedade, reconhecendo às mulheres direitos universais iguais, ou se não foi apenas possibilitado às enfermeiras fazerem uma extensão de comportamentos condizentes com os valores subjacentes à condição de mães, e de profissionais leais aos médicos numa atitude de subordinação, uma vez que, na sua ótica, a elevada taxa de feminização também esteve relacionada com as exigências dos contextos de ação quanto ao facto de estes determinarem ser mais ou menos apropriado determinado género na prestação de cuidados. 

Num estudo parcialmente já referenciado que pretendeu entender as mudanças registadas nas atitudes de um grupo de estudantes de enfermagem, relativamente aos estereótipos de género e da enfermagem, Jinks e Bradley (2004), referem alguns dos estereótipos na enfermagem, como o “anjo”, a “criada”, o “machado de guerra”, ou

“objeto sexual” e concluem que imagens desagradáveis e distorcidas da profissão conduzem a uma diminuição da sua credibilidade face aos novos potenciais públicos de futuros profissionais, assim como ao público em geral.

Outros estudos evidenciam uma relação forte entre o género e diferentes motivações para a entrada no curso. Apesar das graduais mudanças na enfermagem, a sua imagem ainda permanece como uma profissão marcadamente ligada ao sexo feminino, e composta predominantemente também por mulheres. Por exemplo, Zysberg e Berry (2005) referem que, na investigação que realizaram, houve diferenças importantes nas motivações ao nível das necessidades sentidas pelos indivíduos no acesso ao curso de enfermagem. Estas diferenças parecem estar relacionadas com os tradicionais papéis de género em que os homens procuram essencialmente liderança (mesmo numa profissão relativamente feminina), enquanto que as mulheres referem ter-se apercebido de terem um perfil socialmente adequado à profissão. Por outro lado, o mesmo estudo revelou que, enquanto as mulheres não davam grande relevância às necessidades de sobrevivência no momento da escolha da profissão de enfermagem, os homens colocavam grande ênfase em aspetos como o salário, segurança no trabalho e na imagem social da profissão.

Nas representações sociais a figura masculina do enfermeiro é subrepresentada, como aparente consequência da sua marcada minoria na população de profissionais de enfermagem. Ainda assim, surgem dois traços distintos, por um lado parece haver uma sobrerepresentação nas posições hierarquicamente superiores comparativamente à população de enfermeiros em geral (Stott, 2004), por outro a sua atividade caricaturada como “contra natura”, é por vezes satirizada na comunicação social, de que é exemplo o personagem Gaylord "Greg" Focker representado por Ben Stiller no filme “Meet the parents” (Um sogro do pior), de Jay Roach (2000).

Do ponto de vista das oportunidades de progressão na carreira para os elementos do género masculino, se o número absoluto de enfermeiros revela uma franca minoria, este não é necessariamente um aspeto negativo uma vez que a sua sobrerepresentatividade numérica ao nível dos cargos de prestígio, de decisão, e/ou mais bem pagos, sugere que os homens têm mais sucesso dentro da profissão (Stott, 2004).

Esta vantagem estratégica estará relacionada com o facto de, ainda para a mesma autora, o homem devido à sua condição masculina, evitar atitudes e comportamentos tradicionalmente associados às relações médico-enfermeira, para além de que, comparativamente com as mulheres, os homens não têm, tradicionalmente, os deveres de natureza doméstica, facilitando um percurso de investimento na profissão que ajuda na ascensão a cargos superiores ou de liderança.

Não obstante o percurso de autonomização profissional que a enfermagem desenvolveu na última década, consolidada, (pelo menos do ponto de vista discursivo) em legislação a vários níveis, e a existência de organismos que defendem e regulam a profissão, as representações sociais decorrentes das suas origens continuam a ter um impacto não menosprezável no modo como a sociedade e os enfermeiros se perspetivam a si próprios. Nesta linha, traduzindo, por um lado, algum alheamento ao sólido referencial teórico que sustenta os discursos sobre a enfermagem (onde o cuidado ao ser humano assume uma transversalidade total), bem como aquela que é a atividade corrente dos profissionais, ou por outro lado, procurando eventualmente alguma valorização social associada à mobilização de representações associadas à enfermagem, surgiu em Portugal em 2006, o Curso de Licenciatura em Enfermagem Veterinária.

Veja-se a título de exemplo o modo de representação da enfermagem por análise do discurso (institucional) da Escola Superior Agrária de Elvas, inserida no Instituto Politécnico de Portalegre, a propósito da informação dispensada no seu site sobre os objetivos e filosofia do curso, e concretamente na fundamentação da pertinência da existência desta formação: “Actualmente, os profissionais responsáveis pela sanidade animal – os médicos veterinários – socorrem-se, no exercício da sua actividade, de auxiliares ou assistentes que, ao contrário do que acontece na medicina humana, não possuem, na grande maioria dos casos, qualquer formação específica para as tarefas a desempenhar.” [sublinhado nosso] (Escola Superior Agrária de Elvas, 2007).

Os saberes, as competências e o conhecimento científico são um elemento central e transversal a qualquer das tradições na sociologia das profissões. A partir dos aportes do interaccionismo simbólico, tornou-se evidente que, a par da compreensão das condições sociais que permitiram que uma profissão reivindicasse, alcançasse, e mantivesse uma competência particular, é também indispensável considerar o conhecimento científico para entender qualquer processo de profissionalização (Rodrigues, 2002).

O estudo do(s) saber(es) relativos a um campo profissional oferece dificuldades, se atender à conceptualização de Barth (1996), em que o saber se revela simultaneamente estruturado, evolutivo, contextualizado, e afetivo. Por outro lado, uma vez que a ação do indivíduo se inscreve num mundo social, também a relação com o saber se estabelece como uma relação social, pelo que, para desvendar a relação de um indivíduo ou grupo profissional com a construção e a estruturação dos seus saberes é necessário tomar em linha de conta, para lá da sua pertença social, as relações que se

estabelecem com os lugares, com as pessoas, com os objetos, com os conteúdos de pensamento, com as situações, com as normas relacionais, mantendo em perspetiva as dimensões identitárias dos indivíduos (Charlot, 1997).

Importa ainda, na análise dos saberes profissionais, perceber em que medida é que estes se traduzem efetivamente, ou não, em capacidade estratégica de ação do respetivo grupo profissional. Larson, (1988) referida por Rodrigues, defende a ideia de que o saber em si não é suficiente para constituir um recurso de poder, e que para tal suceder, se torna necessário desenvolver um “processo de construção e de apropriação de um discurso científico, autorizado e autorizante” (2002, p.114).

No intuito de situar o domínio do conhecimento específico da enfermagem no âmbito geral do conhecimento científico, diversos autores têm elaborado quadros teóricos que refletem um percurso próprio que se traduz numa estrutura conceptual específica.

A profissão tem vindo a desenvolver uma busca incessante pelo estabelecimento de uma legitimidade científica, tendo na essência procurado um distanciamento discursivo e investigativo da área médica e recorrendo a outros modelos teóricos de conhecimento.

É neste sentido que Lopes (2006) sintetiza como conceitos centrais na disciplina de enfermagem: o cliente que é central, que está presente em todos os quadros teóricos de enfermagem e que reúne mais consenso; a transição como o processo pelos quais os indivíduos passam de um estado, condição ou lugar para outro; a interação como o contexto no qual todos os cuidados acontecem; o processo de enfermagem apresentado frequentemente como um instrumento que reflete o raciocínio clínico do enfermeiro; as intervenções terapêuticas como o conjunto de intervenções específicas de enfermagem com potencialidades terapêuticas demonstradas; o ambiente, e a saúde.

Magalhães (2006) elenca um conjunto de competências, que denomina de competências implícitas ao trabalho dos enfermeiros, que não são completa nem explicitamente transmitidas pelos sistemas de formação. De facto, as instituições são frequentemente analisadas numa perspetiva funcionalista como contextos de aplicação de competências externamente adquiridas, e não como organizações dinâmicas e qualificantes, embora uma análise em profundidade tal como refere Canário (2007), evidencie que no percurso histórico da aprendizagem profissional aquilo que não é a norma, mas sim a exceção, é o curto período histórico em que o modelo escolar condicionou à desvalorização dos saberes adquiridos pela experiência. É nesta lógica

que Magalhães (2006) defende que a análise das dinâmicas e da cultura organizacional hospitalar pode desvendar uma organização invisível do trabalho, eventualmente mesmo mais qualificante, gratificante e produtiva. O seu estudo, para lá da dimensão institucional visível, formal e prescrita, revelou desta forma uma face invisível, imprevisível, informal e qualificante, destacando-se quatro dimensões estruturantes da profissão:

A comunicação oral traduzindo-se numa via de comunicação intradisciplinar, onde se partilham diferentes pontos de vista, e se criam espaços dialógicos de reflexão, sobre a prática e a partir dos quais se modificam as dinâmicas de trabalho e se atualizam conhecimentos.

As competências implícitas, socialmente invisíveis, pertencem ao domínio difuso da intuição profissional, conotáveis frequentemente com as questões da feminilidade.

A relação entre teoria e prática, em que parte do conhecimento que preside à praxis é construído indutivamente, e não é objeto de registo escrito, construindo-se também pela oralidade e pela informalidade.

As práticas de formação. Por oposição às práticas formais de formação, a formação qualificante, é uma formação discreta não sustentada em programas pré-definidos e estruturados de formação, que ocorre a partir da reflexão sobre as práticas, no coletivo. É neste sentido que a autora defende que “a dimensão central do trabalho de formação dos enfermeiros não incide tanto sobre a sua formação, mas mais sobre a sua capacidade de produzir relações qualificantes nos contextos de trabalho” (Magalhães, 2006, p.65).

Pope e Finnerty (2005) sublinham o facto de também na enfermagem o conhecimento explícito ser bastante mais valorizado do que outras formas de conhecimento, não havendo uma cultura de dar visibilidade, registar e estruturar o saber informal. Por outro lado também não existe muito conhecimento sobre o modo como os profissionais refletem acerca as suas práticas, defendendo-se o papel da escola em ajudar os indivíduos a tornarem-se “lifelong learners” (Jarvis, 2005).

Por outro lado, na ótica da divisão do trabalho e sua especialização, um desenvolvimento tão próximo (e dependente) do modo de trabalho médico determinou também que, ao nível da diferenciação endógena do grupo profissional e das identidades profissionais, estas fossem contaminadas pelas áreas de diferenciação profissional médica (Canário, 2005b; Nunes, 2003), como ilustram Paul e Fonseca: “Embora com menor subespecialização, as especialidades em enfermagem seguem os grandes grupos

da medicina, com uma ênfase médico-cirúrgica versus uma ênfase de saúde pública, e com várias especialidades (como a saúde materna e obstetrícia, geriatria, reabilitação, psiquiatria e saúde mental” (2001, p.41).

No documento UNINAPRão identitM (páginas 68-75)