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ÁREAS URBANAS

2.2 Elementos importantes das transformações socioespaciais

O objetivo deste trabalho é analisar as transformações socioespaciais que ocorrem em Angra dos Reis e Parati a partir dos anos de 1960/70. Assim, determinados elementos ganham evidência quando se pretende realizar este tipo de análise nos espaços ora referidos, pois são aqueles que justificam o destaque temporal definido, sendo a instalação de empreendimentos industriais e turístico-imobiliários, além da abertura de uma rodovia federal. Neste momento, busca-se explicar como ocorre o estabelecimento desses fixos nos espaços, sendo necessário o apontamento de fenômenos que ocorrem à escala nacional.

No início do século XX, a hegemonia econômica de base agrário-exportadora vai sendo substituída pelo processo de modernização brasileiro com ênfase na industrialização, orientado e executado pelo Estado. Como mostra Bertoncello (1992), este processo de modernização, autoritário e conservador, se realiza concomitante à expansão e à consolidação da ordem capitalista internacional impondo a lógica do processo de modernização capitalista a diversos espaços, selecionando-os e valorizando-os diferentemente. Também explicam Rodrigues et al (1992) que, a partir dos anos de 1930, ocorre um deslocamento do eixo de acumulação do setor agrário-exportador para o urbano-industrial e ainda a reelaboração das relações entre Estado, sociedade e economia nacional. Há um aprofundamento da intervenção estatal na economia que se dá, entre outros, por meio de investimentos no setor energético, infraestrutural e industrial, além da regulamentação das relações entre capital e trabalho.

As políticas econômicas visam à priorização e consolidação do setor industrial para o desenvolvimento nacional com o governo formulando políticas e também executando partes dos programas de desenvolvimento, principalmente, nos setores de transporte e de energia elétrica. A política de industrialização adotada favorece o capital monopolista privado e a entrada de capitais estrangeiros sob forte planejamento e intervenção estatais (RODRIGUES et al, 1992).

Embora a economia brasileira tenha experienciado um crescimento superior aos períodos anteriores, segundo Becker e Egler (1989) é a partir da segunda metade dos anos de 1960 que as maiores transformações no processo de industrialização brasileiro podem ser

percebidas. Após 1964, o processo de desenvolvimento capitalista e de modernização brasileiro é guiado pelo governo militar, tendo o Estado um papel central. É posto em prática o projeto geopolítico da modernidade e, ainda que tenha iniciado de forma desarticulada a partir dos anos de 1940, o projeto se consolida na segunda metade dos anos de 1960 visando à implantação de uma fronteira científico-tecnológica no centro econômico do país, a integração física, econômica e política do território e a conquista de um espaço internacional.

Nesse sentido, impõe-se ao território nacional uma “malha programada” de projetos e programas públicos e privados, como apontam Becker e Egler (1989, p.2)

Uma nova tecnologia espacial do poder estatal se desenvolve; trata-se da imposição no território nacional de uma poderosa malha de duplo controle - técnico e político - correspondente aos programas e projetos governamentais e de empresas públicas e privadas - a que chamamos "malha programada" ou "projetada”.

Por meio de redes viárias, de comunicações, institucionais e outras, se pretende alcançar o desenvolvimento e a segurança nacionais viabilizados pelo domínio científico e tecnológico. O Estado, nesse sentido, atua como planejador e gestor utilizando o espaço como instrumento político para a modernização do país, produzindo-o de forma racional e estratégica. O eixo entre o Rio de Janeiro e São Paulo é escolhido para localizar a fronteira científico-tecnológica por ser a principal ligação entre o litoral e o planalto, estar próximo ao centro de comando militar no Rio de Janeiro, pela articulação terrestre entre São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A proximidade com São Paulo garante o suprimento de insumos da indústria convencional para a bélica, o acesso aos serviços e mercado de mão-de-obra, além de ser uma área familiarizada com o industrialismo, estagnada economicamente oferecendo pouca resistência ao desenvolvimento do projeto e acostumada com a presença militar (BECKER; EGLER, 1989).

É nesse contexto de fomento ao desenvolvimento nacional, induzindo a integração do território, o avanço do setor urbano-industrial e o alcance da segurança nacional não apenas no sentido militar, mas científico e tecnológico, que surgem no país diversos fixos instalados em espaços seletivamente valorizados por suas características naturais, condições políticas e sociais, disponibilidade de recursos e outros, como apontado acima para a região do Médio Vale do Paraíba. Como indica Guanziroli (1983), durante esse período são implantadas indústrias em Angra dos Reis diretamente relacionadas ao desenvolvimento de outras regiões como o estaleiro naval ligado ao aço produzido em Volta Redonda pela Companhia Siderúrgica Nacional, o terminal de petróleo da Petrobrás e a usina nuclear Angra I,

fornecendo energia para as indústrias do Rio de Janeiro e São Paulo. Além desses empreendimentos, numa escala regional, a rodovia BR-101 é outro fator importante para caracterizar as transformações socioespaciais que ocorrem em Angra e Parati. Como os demais, sua construção está inserida no conjunto de ações que visam à integração nacional e à modernização do país, servindo ainda para a expansão e consolidação da atividade turística em espaços por onde segue a via.

Os empreendimentos industriais, respeitadas as particularidades de cada um, são sediados em Angra dos Reis por conta de decisões externas ao local, caracterizam-se pela autonomia e pela gestão à escala nacional, mobilizam enormes fluxos de mão-de-obra em suas construções, transformam o uso do solo municipal e geram conflitos pela propriedade da terra ou pelo aspecto ambiental que os mesmos envolvem. Na figura abaixo (Figura 15) estão representados alguns acontecimentos que se destacam nos anos do século XX, especificamente até a década de 1970, onde se pode visualizar a sequência de implantação dos empreendimentos mencionados e de outros aspectos julgados importantes para entender a dinâmica das transformações que se estabeleceram como a perda de parte do poder político municipal angrense, ao ser declarado o município como Área de Segurança Nacional.

Bondes marítimos

Figura 15 – Linha do tempo, Angra dos Reis e Parati do século XIX à década de 1970

Fonte: GUANZIROLI (1983), BERTONCELLO (1992), GURGEL; AMARAL (1973), LIMA (1974), INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS (1993)

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