6.1. Os elementos relevantes para o sucesso
6.1.1. Elementos mais importantes para se considerar bem-sucedido
A pergunta de número 16, “Enumere por ordem de prioridade o que é importante para que você possa se considerar bem-sucedido? ”, uma das mais relevantes na nossa pesquisa, permitia quantificar o que as pessoas mais priorizavam para se auto-avaliarem
71 bem-sucedidas. Nessa pergunta sugerimos para os pesquisados 9 elementos diferentes que deveriam ser organizados por ordem de prioridade. Os elementos eram: família, convívio social/amizades, realização pessoal, fazer algo que tenha significado/sentido, poder, trabalho, reconhecimento/fama, superação, dinheiro. As respostas dadas a essa pergunta ajudou-nos a compreender as diferenças de prioridades para a avaliação do ser bem- sucedido, nos diferentes grupos, etários, de género, e de nacionalidade. Neste primeiro momento, no entanto, iremos apresentar primeiro o resultado global da pesquisa com relação as respostas coletadas nesta questão.
Era esperado, conforme pesquisa bibliográfica, que alguns itens realmente se destacassem mais do que outros, mas não imaginávamos que iriamos encontrar a polaridade
família X poder tão em evidência, como foi o caso. Analisando a prioridade de número 1,
ou seja, o elemento que os respondentes determinaram como prioridade 1, para que as pessoas se considerassem bem-sucedidas, notamos que uma grande maioria de 61,17% escolheu a família, como primeira opção, seguido por 13,40% que priorizaram a realização pessoal, 10,65% o fazer algo que tenha significado e sentido, 5,15% o poder, 3,09% o trabalho, 2,41%o reconhecimento/fama, 2,41% a superação, 1,03% o dinheiro, 0,69% o convívio social/amizades.
Apesar de o “poder” ter ficado em quarto lugar, como a primeira opção dos entrevistados, ele aparece em último lugar, quando fazemos a classificação das prioridades, pois, para a grande maioria dos pesquisados, ele foi escolhido como a opção de número 9. Como já havíamos informado anteriormente, para avaliarmos a classificação das prioridades, a partir do segundo lugar de classificação, optamos por somar a quantidade de pessoas do primeiro e segundo lugar e verificar qual foi o elemento escolhido pela maioria através do número maior da soma, claro que excluindo aquele elemento que já ficou em primeiro lugar. Chamamos essa soma de acumulado e ela pode ser verificada na tabela na terceira linha de cada elemento. Optamos por destacar a soma na tabela como forma de contribuir para a compreensão da classificação. Os números 1 a 9 indicam o quanto cada item foi escolhido naquela ordem, pelos respondentes, e a ordem, em que se encontram organizados os elementos, apresenta a classificação da preferencia geral da maioria dos respondentes da pesquisa. Por isso, o poder aparece em último lugar, na classificação, e em quarto lugar, com relação à escolha da primeira prioridade. Apesar de ele ter ficado em 4 lugar, na escolha
72 da primeira posição, ele não foi tão valorizado na posição de número 2, 3, 4, 5, 6, 7, pois a grande maioria o colocou na oitava e nona posições.
O valor da família, em relação à ideia de bem-sucedido, foi também percebido na pesquisa de De Vries (2010), entretanto, este pesquisador não forneceu os índices percentuais, e, portanto, não foi possível comparar os resultados quantitativos. De acordo com este pesquisador, a ordem prioritária encontrada foi: família, riqueza, trabalho/carreira, reconhecimento/fama, poder, vencer/superação, mudanças, amizades e significado. Podemos observar, portanto, que, apesar de a família ter se mantido em primeiro lugar, os outros elementos se apresentaram de forma diferente, pois na pesquisa dele a riqueza vem em segundo lugar e na nossa ela fica em sétimo. Na nossa pesquisa o significado vem em terceiro lugar na classificação, enquanto na pesquisa dele vem em último, a amizade, nos dados dele, também ficou mais desvalorizada em comparação com a nossa. Existem várias explicações para essa diferença, pois os pesquisados, no caso de De Vries, eram executivos e, na nossa pesquisa, o público era mais heterogêneo com relação ao tipo de trabalho, remuneração e escolaridade. Outra possibilidade é o fator cultural, uma vez que a nossa pesquisa foi feita online e respondida na sua maioria por brasileiros e portugueses e pesquisa feita por De Vries foi feita com executivos sênior, que participavam de dois programas oferecidos pelo INSEAD (que é uma escola de negócios com sedes na França, Singapura e Abu Dhabi). Essas diferenças podem explicar porque, na nossa pesquisa, o dinheiro, reconhecimento e poder ficaram mais desvalorizados, e, na pesquisa dele, esses elementos foram mais valorizados enquanto o sentido e a amizade ficaram mais desvalorizados.
A oposição do elemento família e do elemento poder pôde ser constatada visivelmente, por meio da leitura dos elementos que os respondentes escolheram como opção 1 e 9, note-se que não estamos falando aqui da classificação, apesar de na classificação termos obtido também o primeiro lugar para a família e o nono lugar para o poder. A família foi escolhida como opção de número 1 por 61,17% dos respondentes, enquanto o poder foi a última escolha de 58,08% das pessoas. Considerando que esta pergunta oferecia uma gama de 9 elementos para a escolha, esse resultado torna-se muitíssimo relevante.
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Quadro 6.1: Ordem de prioridade para ser bem-sucedido (resultado geral)
A classificação geral da ordem de prioridade, que considera a tendência prioritária, através da soma do número de pessoas que escolheu aquele elemento nas primeiras opções, também obteve muitos resultados interessantes. A realização pessoal aparece como a segunda mais valorizada, seguida por o fazer algo que tenha significado e sentido que, por sua vez, apresentou a menor taxa de rejeição, uma vez que foi o item menos citado no nono lugar. Essa ordem de prioridade nos pareceu bastante interessante, pois as ideias de realização pessoal e sentido são contrárias à ideia de reconhecimento ou fama. Enquanto o reconhecimento e a fama estão voltados para uma avaliação externa, feita por outros, a realização valoriza as realizações pessoais e uma ideia de capacidade e de auto-eficácia interna, seria uma espécie de auto reconhecimento pelo bom trabalho executado.
Fazer algo que tenha sentido e significado também retorna o foco para si mesmo e para a capacidade de produzir algo importante e relevante para si ou para um bem maior. “ Eu encontro alegria e significado na minha vida quando me engajo um propósito mais profundo e conheço a mim mesmo” (Pattakos & Dundon, 2015:109).
Viktor Frankl (2007) psiquiatra austríaco que passou por um campo de concentração na época da guerra, vivenciando uma situação extrema de estresse e sofrimento, relatada em
74 seu livro “em busca de sentido”, reforça, nesse livro, a importância que o dar sentido ao que se faz tem para a sobrevivência e compreende que esse fator possibilita que as pessoas superem situações de extremo sofrimento de forma mais otimista e tranquila. Para ele, o sentido pode ser obtido através do exercício da espiritualidade, através da dedicação à uma obra ou através do amor e do cuidado com o próximo (Frankl, 1989; 2007). O sentido, portanto, se refere a estar conectado com Deus ou com o próximo, com a ação de um indivíduo para com o outro, com uma decisão de viver bem, independentemente do contexto em que se está inserido ou do retorno externo. Isso significa que, quando se busca fazer algo que tenha significado e sentido, valoriza-se o “eu”. o poder de decisão individual e a capacidade de conexão com o mundo. A busca pelo sentido vai na contramão da busca pelo reconhecimento, pois não é o outro que exerce um poder sobre o eu, não sendo necessária, portanto, uma avaliação externa como forma de garantir, reforçar ou saber do seu próprio valor.
Pattakos e Dundon (2015) reforçam as ideias de Frankl. No livro “The OPA way” eles fazem um paralelo entre as ideias de Frankl e o jeito de viver dos gregos, com algumas modificações. Esses autores fazem um trocadilho com a expressão grega OPA e as três formas de sentido: O (others), “conectar-se significativamente com os outros”(connect meaningfully with others); P (purpose) “engajar num propósito profundo” (engage with deeper purpose); A (attitude) “agarrar a vida com atitude” (embrace life with attitude).
O item trabalho apareceu na quarta colocação da classificação e convívio social e amizades, na quinta. Dos cinco primeiros elementos escolhidos pela maioria, três deles demonstram ter uma relação direta com a valorização da conexão com o outro, através dos elementos escolhidos: família, sentido, convívio social e amizades. Os outros dois elementos a realização pessoal e o trabalho estão focados na capacidade de se perceber capaz e de ser produtivo, que também são reforçados pela ideia de fazer algo que tenha sentido. A superação ficou em sexto, na frente de dinheiro, apesar de ambas apresentarem percentuais semelhantes. Reconhecimento/ fama e poder apareceram na oitava e nona colocação, respectivamente.
Esses resultados nos levam a perceber e avaliar que o sentido do sucesso já não se relaciona tanto com a medida externa de sucesso, muito pelo contrário. O sucesso está mais voltado para ideias internas de satisfação pessoal e convívio com outros. Entretanto, esses resultados entram em conflito com alguns comportamentos observados na
75 contemporaneidade, pois, ao mesmo tempo que as pessoas querem se conectar e criar vínculos, elas, ao invés de se ocuparem em agir em direção ao próximo, para que esse contato verdadeiramente aconteça, se utilizam das redes sociais, exibindo-se, o que costuma gerar desconforto e desconexão. Parece haver um descompasso entre o que as pessoas valorizam e desejam, o modo como elas se comportam e os resultados que colhem com suas ações.