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O leitor talvez já tenha notado na escrita acima que venho detalhando o caminho metodológico percorrido, as dificuldades, caminhos seguidos e alterados durante a investigação. Esta foi uma escolha deliberada e influenciada por Salo de Carvalho, em sua obra:

Como não se faz um trabalho de conclusão.12 Alexandre Morais da

Rosa, meu co-orientador, indicou indiretamente a obra de Carvalho, que me auxiliou a corrigir e seguir alguns estilos de escrita.

Abordar um tema sob a ótica interdisciplinar produz a preocupação com sua cientificidade, por decorrência das inúmeras variáveis que podem comprometer tal caráter e rebaixar o texto a uma salada teórica sem valor acadêmico. Portanto considero fundamental analisar alguns elementos sobre a metodologia e interdisciplinaridade desta investigação. De início, vale entender que a mediação de conflitos e a ética ambiental, as temáticas centrais dessa pesquisa, cada uma delas constituiu seu corpo teórico por uma abordagem interdisciplinar.

A mediação é um método de resolução de conflitos que não pertence, por exemplo, nem à esfera do Direito, nem da Psicologia e nem da Assistência Social. Ela se apropria de saberes dessas e de outras áreas, pois lida com algo comum às relações interpessoais, o conflito. O conflito pode ser abordado de diversas formas e geralmente é visto como algo negativo às relações humanas e tratado como anomalia no relacionamento. A perspectiva transformativa da mediação toma o conflito como uma crise na interação humana, na qual as partes envolvidas necessitam de ajuda para restaurar sua interação de forma

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VEZZULLA, Juan Carlos. A mediação de conflitos com adolescentes autores de ato infracional. Florianópolis: Habitus, 2006, p. 93.

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CARVALHO, Salo de. Como não se faz um trabalho de conclusão: provocações úteis para orientadores e estudantes de direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2013. 187 p.

construtiva. A teoria da mediação possui uma característica interdisciplinar, pois para entender e manejar seu objeto de estudo, o conflito, recebe conhecimentos e toma emprestadas diversas técnicas de diversas disciplinas.

Por outro lado, a ética ambiental, em especial a ética ambiental biocêntrica proposta por Taylor, também se utiliza de uma abordagem interdisciplinar. Em grande parte, Taylor constrói uma nova linguagem para a ética ambiental a partir de conceitos tradicionais da ética do

respeito pelas pessoas para abrir espaço a um novo pensamento sobre o

lugar do ser humano na Terra, entretanto ele importa muitos conhecimentos, principalmente para constituir o sistema de crenças biocêntrico, de ciências como a biologia e ecologia. Enquanto no campo filosófico de sua teoria ele encontra pouca resistência de seus leitores, é no campo de sua aplicação, especificamente relativo aos dilemas morais, que as críticas mais fortes ecoam. O campo dos dilemas morais carrega uma carga interdisciplinar ainda maior, pois evoca temas sociais, culturais e preconceitos muito arraigados nas sociedades humanas. É neste campo obscuro, da resolução dos conflitos e dilemas ambientais, que esta tese pretende versar, analisando as possibilidades de cruzar conhecimentos da mediação de conflitos com os do biocentrismo.

Por interdisciplinaridade, entendo ser a técnica de pesquisa com vistas à integração mútua e parcial de conceitos, metodologias, procedimentos, epistemologia, terminologia e informação entre disciplinas, com vistas a assimilar os conhecimentos das disciplinas participantes. Para Klein, a integração dos conhecimentos permitiria uma maior união dos seres humanos, o que ela atribui como um ideal encarnado nas noções gêmeas da comunidade de disciplinas de conhecimento (universitas scientiarum) e da comunidade de professores e alunos (universitas magistrarum et scholarium). Em uma ética biocêntrica, a tentativa de uma integração coerente dos saberes levaria não só a uma união dos seres humanos, mas a uma união dos seres

vivos.13

Klein apresentou algumas confusões comuns na utilização da técnica interdisciplinar: (i) a geral incerteza sobre o significado do termo; (ii) a falta de familiaridade dos pesquisadores, advindos de campos disciplinares isolados, com a erudita prática interdisciplinar; e (iii) a falta de um corpo unificado no discurso interdisciplinar, pois a discussão da interdisciplinaridade se estende sobre campos de saberes

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KLEIN, Julie Thompson. Interdisciplinarity: History, Theory, and Practice. Detroit: Wayne State University Press, 1990, p. 20 e 63.

gerais, profissionais, acadêmicos, governamentais, entre outros.14 Confusões conceituais a parte, existe uma inevitável dificuldade, quando se fala de interdisciplinaridade, de o pesquisador não escapar do vocabulário (de fato, de toda lógica de classificação) que lhe predispõe a pensar em termos disciplinares.15

Desde minha estada na graduação e mestrado em Direito e agora no doutorado, sinto a imperiosidade no desenvolvimento do conhecimento que estudo e produzo de um viés interdisciplinar. Por conta da separação disciplinar e compartimentação do saber, percebo que diversos pesquisadores se tornam limitados na apreensão de soluções em questões relevantes, por estarem distantes intelectualmente de outros campos onde se poderiam encontrar ferramentas para a sua solução. Essa limitação não é só de conteúdo teórico, presente em cada campo disciplinar, mas muitas vezes de ininteligibilidade em conseguir

cruzar a fronteira de sua área. Sair da delimitação disciplinar põe o

cientista em condição análoga ao bebê que foge do cercadinho que sua mãe lhe confinou e se aventura em um mundo complexo e perigoso, afirma Klein. Avançar nessa pesquisa, pelos caminhos da mediação, da ética e do ambiente significa ingressar em um mundo de saberes e práticas que não domino.

Concordo com Klein, que os pesquisadores ampliam seus estudos a outros campos para dar conta de diversos objetivos, dentre eles: (1) responder questões complexas; (2) referir-se a problemáticas mais amplas; (3) explorar relações disciplinares e profissionais; (4) resolver problemas que estão além do escopo de qualquer disciplina isolada; e (5) conseguir a unidade de conhecimento em reduzida ou larga escala.16 A crise sócio-ambiental instaurada na atualidade e o tema da ética ambiental estão em direta relação com dois dos objetivos acima, o de responder questões complexas e o de resolver problemas que estão além do escopo de qualquer disciplina isolada.

Das técnicas interdisciplinares mais comuns, aquela que com frequência utilizarei na pesquisa é a do empréstimo (borrowing), transferindo o conhecimento de uma disciplina para outra. Para Klein a transferência de conhecimento pode ocorrer por diversas razões, quais sejam: (i) para ajudar a estruturar um domínio ainda pouco estruturado; (ii) para simplificar um domínio; (iii) para completar um domínio; (iv) para explicar um domínio; (v) para permitir a um domínio imaginar sua

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KLEIN, Julie Thompson. Interdisciplinarity, p. 12-13.

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KLEIN, Julie Thompson. Interdisciplinarity, p. 77.

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própria estrutura; e (vi) para permitir a experimentação onde o domínio não lhe permite.17 Ambos os campos da ética da mediação de conflitos geral e ambiental e da ética ambiental biocêntrica se encaixam e se beneficiarão por essas mesmas razões.

Realizar essa pesquisa interdisciplinar, levada a sério, demanda carregar, nos termos de Klein, o fardo da abrangência (burden of

comprehension). Essa metáfora se refere a um requisito àqueles que

emprestam conhecimentos de outras disciplinas ou que trabalham entre-

disciplinas: o fardo de cingir o entendimento de como algo é usado no

seu contexto original, para utilizá-lo de forma adequada e coerente. Para Klein, a falha ao assumir esse fardo pode levar a consideráveis problemas de confiança das pesquisas. Em diversos contextos, a falta de compreensão na utilização de um conhecimento de outras disciplinas pode gerar diversos problemas, por exemplo: (i) distorção e incompreensão de materiais emprestados; (2) uso de informação, métodos, conceitos e teorias fora de contexto; (3) ilusão de

certeza sobre um fenômeno tratado com cautela e ceticismo na sua

disciplina original; (4) supervalorização de uma teoria ou perspectiva particular; e (5) uma tendência a descartar testes contraditórios, evidências e explanações adicionais.18 Todos estes são riscos que este estudo corre, e que, por mais que constantemente eu saneie-a, serão os olhares atentos dos leitores que poderão me auxiliar a testá-la e aperfeiçoá-la. Existe um grande fardo em trabalhar essa temática interdisciplinar. Assumo adiante o trabalho de iniciar o diálogo entre dois campos que avançaram sem comunicação durante anos, o debate ético ambiental e a mediação de conflitos ambientais.

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KLEIN, Julie Thompson. Interdisciplinarity, p. 85.

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