A Foto 5 apresenta um momento de planejamento, no qual os professores e a direção discutiam a elaboração de um simulado preparatório para os exames de avaliação estadual e nacional para os alunos do 9º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio. A grande maioria dos encontros para planejamento acontece na sala dos professores, como é apresentado na Foto 5. Esse ambiente evidencia momentos de interação entre elementos humanos (professores, gestor, vice-gestor) e não-humanos (cadernetas, armários, mesas, cadeiras, celulares). A presença dos elementos não humanos nesse contexto de planejamento pode, em certos momentos, ajudar ou atrapalhar na ação de planejar dos atores. Por exemplo, a disposição das mesas e cadeiras da maneira como acontece (formando um círculo), permite se estabelecer e fortalecer os vínculos e as relações entres os atores, caracterizando esse espaço como um ambiente de diálogo e mediação (SOARES, BISPO, 2013). Dessa forma, isso possibilita que todos se sintam em um espaço em que podem interagir de maneira direta e participativa com os outros atores, o que se torna bastante positivo em um encontro de planejamento. Por outro lado, a presença de outros elementos não-humanos, como celulares, bolsas e cadernetas, podem comprometer a participação dos atores humanos nesse processo desviando o foco de atenção deles e os conectando a outras atividades (atender celular, mensagens, registro de notas ou de aulas, dentre outras).
Além das ações de planejamento, a prática da gestão pedagógica também preocupa-se com a gestão dos resultados educacionais (índices de qualidade da educação), que também são elementos abordados na construção do PPP.
Os resultados em exames de avaliação do desempenho escolar no ensino básico, tanto a nível local (IDEPB) como em nível nacional (Prova Brasil, Provinha Brasil e ENEM), exercem em certo ponto, influência no planejamento pedagógico das escolas públicas. Ademais, as escolas e os gestores são exigidos, principalmente por parte da secretaria de educação estadual, no sentido de prepararem os alunos para terem um bom desempenho nesses exames, o que faz com o que o PPP de cada escola leve em consideração os resultados obtidos em anos anteriores, bem como a elaboração de metas para o ano vigente. Esse fato fica evidente na fala da vice-gestora:
“Foi renovado também o PPP, no aspecto dos IDEBs de 2011, 2012, 2013 e
2014 [...] os resultados desses índices e o que é esperado como meta. [...] Nós temos a meta do estado e existe a meta da escola que comunga com a meta da secretaria (de educação) [...] pra gente tentar ficar a nível de estado”
Esses exames de avaliação funcionam como uma espécie de “monitoramento” ou “prestação de contas” da qualidade da educação escolar promovida (FERREIRA, 2015).
Nesse sentido, há uma grande importância dada a esses índices por parte principalmente dos órgãos que compõem a gestão educacional (Gerência Regional Ensino e Secretaria de Educação do Estado). Ademais, um bom desempenho nesses exames influencia diretamente na ideia de uma escola de qualidade, e consequentemente de uma boa gestão.
Para Fenwick, Edwards e Sawchuk (2011) a prática educacional é produzida em contextos de complexidade e incerteza, o que também pode ser aplicado à gestão escolar. Nesse sentido, adotar índices de desempenho como principal parâmetro para avaliar a eficácia da gestão de uma escola, é refutar a complexidade e a incerteza presentes nas práticas que envolvem a gestão escolar.
A proposta dessa discussão não é condenar a utilização de mecanismos de mensuração da educação, mas procurar discutir que o julgamento de uma gestão como boa ou ruim vai além de uma “nota” maior ou menor. Ademais, a educação é constituída por múltiplas interações e atravessa diversas relações visíveis, opacas ou até mesmo invisíveis (FENWICK; EDWARDS; SAWCHUCK, 2012) e a gestão escolar acompanha a complexidade e a incerteza desse contexto, o que dificulta a mensuração da sua qualidade por meio de notas ou escalas padronizadas. Esse contexto de complexidade e incerteza fica evidenciado na escola estudada em aspectos como: turmas com muitos alunos (principalmente no ensino fundamental), a maioria dos alunos possuem um perfil socioeconômico variando de “baixo” a “muito baixo”, má estrutura física, indisciplina dos alunos, violência, drogas, conflitos de interesses entre funcionários, pouca participação dos pais, dentre outros aspectos que caracterizam a gestão da escola como uma prática situada (NOTAS DE CAMPO, AGOSTO, 2015).
A busca por melhores números nos exames de avaliação da educação básica faz com que os gestores se preocupem em se adequar aos parâmetros exigidos pelos exames (conteúdos, competências e habilidades do estudante), principalmente pelo Enem e o IDEB.
Landri (2014) ao estudar o desenvolvimento de uma política educacional no sul da Itália, destacou a influência de textos e documentos institucionais para o estabelecimento de relação entre regulações nacionais e locais. No contexto estudado, no que tange o seu aspecto pedagógico, a gestão escolar recebe influência dos padrões de conteúdos e provas adotados para a avaliação do ensino básico, que acabam alinhando as estratégias de ensino de acordo com o exigido nos exames na busca de um melhor desempenho. Um exemplo disso é a utilização de simulados, que na escola estudada é a principal estratégia adotada no que diz respeito a preparação dos alunos para os exames de avaliação nacionais e estaduais.
Ao elaborar o simulado, os professores buscam desenvolver uma prova no formato semelhante aos dos principais exames que os alunos serão submetidos. Segundo a gestora da escola, o principal objetivo do simulado é fazer com que os alunos possam vivenciar como acontece um exame desse porte e prepará-los. Nesse sentido, o exame busca de fato simular um ambiente semelhante com horário de início e término de provas, tempo mínimo de entrega de prova, resolução de questões objetivas de múltipla escolha. Além disso, na elaboração, os professores buscam ao máximo aproximar o estilo das questões com o perfil de questão que é utilizado principalmente na Prova Brasil e no ENEM.
A Foto 6 apresenta o caderno de provas utilizado durante o simulado aplicado.