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Elementos propiciadores da verosimilhança n’ “A Inaudita Guerra”

3. Verosimilhança do Inverosímil

3.2 Verosimilhança / Inverosimilhança

3.2.1 Elementos propiciadores da verosimilhança n’ “A Inaudita Guerra”

Os acontecimentos narrados n‟ “A inaudita Guerra” foram construídos a partir de um acontecimento fantástico e, portanto, inverosímil – o cruzamento de duas épocas distantes no tempo.

Para incrementar a verosimilhança e apagar possíveis marcas de inverosimilhança, o autor recorreu a diversas estratégias para simular acções, personagens e espaços em conformidade com as referências que o leitor actual tem da realidade empírica.

No domínio da res factae, o acontecimento histórico recuperado - a tomada de Lisboa aos árabes por D. Afonso Henriques, em 1147 - é facilmente comprovado pela História canónica oficial, assim como os aspectos da cultura árabe aludidos99.

As referências espaciais onde decorre a acção propriamente dita – a Avenida Gago Coutinho, a Rotunda do Areeiro e áreas limítrofes – são perfeitamente reconhecidas pelo leitor contemporâneo. São identificáveis o quartel de Belém, o parque de estacionamento do Areeiro, “o terreiro da estação de serviço do lado contrário” (Carvalho, 1992: 30), “a placa central relvada” (Carvalho, 1992: 30), o “valado, quase à beira do esteiro de rio” (Carvalho, 1992: 28), a Rotunda da Encarnação (Carvalho, 1992: 28), o “Bairro dos Actores (Carvalho, 1992: 31), a Cervejaria Munique (Carvalho, 1992: 32), o “Vává, na Avenida dos Estados Unidos” (Carvalho, 1992: 33) e o “cruzamento com a Avenida Gago Coutinho” (Carvalho, 1992: 33).

É verosímil a descrição do trânsito caótico durante uma manhã, na Avenida Gago Coutinho, já que nela conflui o trânsito que se dirige a Lisboa vindo de vários pontos da cidade. Se juntarmos a tanta confusão o exército árabe “de berberes, azenegues e árabes” que eram “para cima de dez mil”, não será difícil ao leitor tomar como crível o relato do confronto entre os dois grupos de personagens tão heterogéneos. A confusão gerada é transmitida pelo

99 Remetemos para o ponto 1.3 do primeiro capítulo.

Vergílio Ferreira alerta para o facto de que a conformidade que nós estabelecemos com o passado é feita retrospectivamente, “de hoje para ontem” (Ferreira, 1972: 10). De facto, como mais à frente acrescenta, “É inconcebível que uma obra de arte exista à margem do seu tempo e que arbitrariamente a integração necessária que a define se imponha a esse tempo. Porque é integrado nesse tempo que o leitor a há-de ver e entender – como foi partindo desse tempo que um autor a realizou – e só Deus cria do nada…” (Ferreira, 1972: 10). Além disso, vivendo o homem imerso na sua historicidade de determinados “jogos de linguagem”, a sua recepção do passado nunca é totalmente ingénua ou exterior a esse contexto no qual ele se situa: o seu ponto de vista é sempre condicionado por uma tradição – ele depende da sua “enciclopédia”, das suas expectativas, dos seus pré-

narrador de forma realista, com recurso a sensações auditivas, visuais e a um conjunto de expressões lexicais que nos permitem imaginar e quase visualizar a situação:

“ (…) e, por instantes, foi, em toda aquela área, um estridente rumor de motores desmultiplicados, travões aplicados a fundo, e uma sarabanda de buzinas ensurdecedora. Tudo isto de mistura com retinir de metais, relinchos de cavalos e imprecações guturais em alta grita”.

(Carvalho, 1992: 27-28)

As reacções das personagens, quer do lado do exército árabe, quer dos agentes da PSP e dos automobilistas, aquando da ocorrência meta-empírica, são também plausíveis.

O exército árabe, ao ver-se “envolvido por milhares de carros de metal, de cores faiscantes, no meio de um fragor estrondoso (…) e flanqueado por paredes descomunais que por toda a parte se erguiam, cobertas de janelas brilhantes”, como seria de esperar, assustou- se. Ali-ben-Yussuf, “homem piedoso e temente a Deus”, quis, logo ali mesmo, pedir protecção divina. Ao invés, Ibn-el-Muftar, o chefe do exército, homem mais prático, instintivo, perspicaz e cauteloso (aliás como convém aos chefes), avaliou a situação e deu ordens no sentido de se manterem quedos: “- Que ninguém se mexesse!” (Carvalho, 1992: 28). No entanto, perante o “pandemónio em volta” (Carvalho, 1992: 28-29), este ficou intrigado e confuso, e colocou a si próprio uma série de interrogações perfeitamente verosímeis, tendo em conta a situação, a sua cultura e as suas crenças:

“Teriam tombado todos no inferno corânico? Teriam feito algum agravo a Alá? Seriam antes vítimas de um passe de feitiçaria cristã? Ou tratar-se-ia de uma partida de jinns encabriolados?”

(Carvalho, 1992: 29).

Perante o ruído que faziam as sirenes no quartel de Belém, dos carros da Polícia de Intervenção e dos automobilistas, Ibn-el-Muftar “optou por manobrar cautelosamente no pouco espaço ao dispor” (Carvalho, 1992: 30), até porque todo aquele aparato não lhe pareceu ameaçador. O árabe bem via “os trejeitos pouco amistosos que lhe vinham de dentro dos objectos metálicos com rodas que havia por toda a parte (Carvalho, 1992: 30) e “as caras que o fitavam por detrás de um estranho material transparente” (Carvalho, 1992: 30), mas “Decidiu não se deixar impressionar” (Carvalho, 1992: 30). O chefe árabe só reagiu com alguma violência quando se sentiu verdadeiramente ameaçado, ou seja, quando Manuel da

Silva Lopes atirou um calhau que atingiu o broquel do beduíno Mamud Beshewer e, depois, quando já cansado “por todos os rumores e confusões em torno, e em especial, pela zipada de água que alguém havia deixado cair de uma das janelas e que lhe impregnara o manto e a cota de malha” (Carvalho, 1992: 32).

No que concerne às atitudes e comportamentos das personagens (colectivas e individuais) portuguesas, parecem-nos também verosímeis.

Os automobilistas “começaram por apanhar um grande susto” (Carvalho, 1992: 27), mas depois, rapidamente actuaram de acordo com o expectável numa situação similar. Ouviram-se os motores, os travões e as buzinas e os condutores saíram das suas viaturas para observarem melhor o “espectáculo”. Até a atitude irreflectida de Manuel da Silva Lopes, um camionista, não nos causa estranheza.

A explicação racionalista encontrada pelos automobilistas para o fenómeno meta- empírico está em conformidade com a mentalidade do Homem moderno, dominado pela razão e pelo conhecimento científico:

“Que devia ser um reclame, diziam uns; que era mas era para um filme, diziam outros”. (Carvalho, 1992: 30).

As operações desenvolvidas pelos agentes da PSP e a morosidade em aplicar as medidas adequadas para controlar a situação gerada pela disjunção temporal são, também, verosímeis. O agente da PSP Manuel Tobias informou, pelo intercomunicador, o posto de comando, no sentido de saber como actuar, e para pedir reforços, uma vez que se lhe “afigurava existir insegurança para a circulação de pessoas e bens na via pública” (Carvalho, 1992: 29). Entretanto, o agente recebeu instruções para não intervir naquele momento e, após uma série de formalidades (“Um imediato telefonema para o governador civil e deste para o ministro”), foram tomadas uma série de medidas características de um país desorganizado e sem estratégias para lidar com as multidões, como era Portugal nos anos oitenta do século XX.

A actuação prepotente do comissário Nunes e a linguagem usada para fazer executar as suas ordens podem ser reconhecidas como verosímeis pelo leitor actual, pois o período conturbado do pós 25 de Abril permanece na memória colectiva100:

100

O desgaste político (provocado por sucessivos governos) e o desgaste económico dos anos 80 provocaram grande instabilidade a nível social. Daí surgirem muitas movimentações de rua, difíceis de controlar pelas forças

“-Toca a varrer isto tudo até ao Areeiro – disse. E, puxando do apito, pôs a equipa em acção, à bastonada, a eito, por aqui e por além”.

(Carvalho, 1992: 31).

Como se pode constatar, o mito explica um acontecimento inverosímil – o amalgamento de duas épocas – mas os factos consequentes são narrados com contornos de verosimilhança. No dizer de Filipe Furtado,

“ A narrativa fantástica serve-se de aparências de conformidade ao real e de pequenas verdades descontínuas para mais facilmente introduzir e tornar admissível a grande mentira: o carácter alegadamente sobrenatural das figuras ou ocorrências que encena”.

(Furtado, 1980: 53)

Eis, pois, o que sucede n‟ “A Inaudita Guerra”, onde se pode falar de verosimilhança do inverosímil. Na verdade, verosimilhança e inverosimilhança tocam-se e cruzam-se.