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A zona fronteiriça localizada no conjunto do extremo-oeste de Santa Catarina, extremo sudoeste do Paraná e nordeste de Misiones emerge da instituição da fronteira linear. Antes disso, tal espaço não poderia ser caracterizado como tal, pois era território de grupos indígenas, área que fazia parte do imaginado projeto para a criação da República Guaranítica (XVII e XVIII). A linearidade desse segmento de fronteira é relativamente recente – data de 1895 – e como todas as linhas limites, essa também só tem materialidade corpórea na cartografia. No terreno ela se distingue pelo curso dos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, entre os quais se encontra a linha seca que se estende por aproximadamente 22 quilômetros de terras

compreendidas exatamente entre as cidades gêmeas de Dionísio Cerqueira (Santa Catarina, BR) \Barracão (Paraná, BR) e Bernardo de Irigoyen (Misiones, ARG) até as proximidades das cidades gêmeas de Santo Antônio do Sudoeste (Paraná, BR) e San Antonio (Misiones., ARG.). Portanto, a linha limite é ali formada por dois “fios” de água corrente mais uma linha seca, diferentemente de outros segmentos fronteiriços entre Brasil e Argentina, que são constituídas por apenas um rio, como, o Uruguai e o Paraná. Embora a linha seca já figurasse em mapas desde 1895, no terreno ela seria demarcada somente em 1903, com traçado representado por marcos de fronteira (ver Figura 13).

Esse traçado se realizou conforme o caimento das águas das chuvas e, em alguns pontos, chega a ser motivo de riso entre os fronteiriços, como brinca um morador de Barracão: “aqui soltaram uma cobra e o povo atrás correndo pra marcar a fronteira”. Se Jacques Ancel pudesse ponderar a respeito dessa linha fronteiriça, ele

provavelmente diria que ela não deve nada ao conceito de fronteira natural. Seu álibi encontra-se exatamente na política, exemplo clássico do que ele chamou no começo do século XX de “isóbara política”. Portanto, se estabelecermos um paralelo de referência entre os demais segmentos da fronteira Brasil-Argentina desde o oeste do Paraná até o sul do Rio Grande do Sul, constatar-se-á que essa zona fronteiriça se diferencia totalmente das demais. Seu diferencial não está apenas na singularidade da linha fronteiriça que permite fácil acesso entre os territórios vizinhos, mas também porque nela encontra-se a única passagem seca entre Brasil e Argentina, onde o território brasileiro em continuidade com o argentino não apresenta ali rupturas físicas naturais. Além disso, ela não surge de frontes militares e nem mesmo de frente pioneiro ou frente de expansão; seu trunfo reside inicialmente nas relações tecidas entre a população tornada fronteiriça.

Outra característica que distingue essa zona fronteiriça são as cidades gêmeas conurbadas, inexistentes nos demais segmentos ao longo da zona de fronteira Brasil-Argentina. Como já esclarecemos, cidades gêmeas são pares ou trios de cidades instituídas na confluência do limite entre dois ou mais países e que se caracterizam por interações transfronteiriças. Entretanto, é preciso assinalar que existem diferenças entre elas e que dizem respeito tanto a sua configuração espacial quanto a sua história e a própria natureza das interações. Por exemplo: quando a linha é instituída por acidente físico natural expressivo, não ocorre junção das malhas urbanas, como é o caso das cidades de Puerto Iguazu (MNES)/Foz do Iguaçu (PR), cidades gêmeas com as malhas urbanas separadas pelo rio Iguaçu, mas ligadas por ponte internacional onde se verificam interações; já quando a linha é seca ou marcada por acidente físico natural inexpressivo, como os rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, pode ocorrer a junção das malhas urbanas e favorecer a frequência cotidiana das interações entre os fronteiriços. É o caso das pequenas cidades gêmeas de Dionísio Cerqueira (SC), Barracão (PR)/ Bernardo de Irigoyen (MNES) e San Antonio (MNES)/Santo Antônio do Sudoeste (PR) cujas malhas urbanas formam hoje uma conurbação.

Portanto, se aceitarmos que cidades gêmeas são pares de cidades e que se caracterizam por interações transfronteiriças, pode- se dizer que no conjunto do extremo oeste de Santa Catarina,

sudoeste do Paraná e nordeste de Misiones formaram-se quatro pares de cidades gêmeas (ver Figura 14). No entanto, como ocorre em todas as cidades gêmeas de maneira geral, lá também se verificam diferenças entre elas. Por exemplo: enquanto as cidades de Andresito\Capanema e San Pedro\Paraíso possuem suas sedes urbanas separadas, Dionísio Cerqueira\Barracão\Bernardo de Irigoyen e Santo Antônio do Sudoeste\San Antonio são cidades gêmeas onde as malhas urbanas se unem sobre o limite, formando verdadeira conurbação. Como evoluíram tais cidades gêmeas? Como se deu a integração físico-social e qual a natureza das interações? Essas são questões que devem ser aqui analisadas.

Ponderar sobre a integração físico-social e de interações num segmento de fronteira entre Brasil e Argentina remete imediatamente a uma velha questão, a das rivalidades, levando a crer que entre brasileiros e argentinos as interações são mais conflitivas,

pensamento difundido, em parte, pelas ideologias políticas plasmadas entre os dois países. Mas é interessante notar que, para os fronteiriços, notadamente aqueles das cidades gêmeas conurbadas, tal espaço é concebido como “lugar muito especial que não se encontra em nenhum outro ponto da fronteira Brasil/Argentina”. No entanto, isso não significa ausência de conflitos, pois como qualquer outra zona fronteiriça internacional, aquela também apresenta conflitos, tanto entre escalas nacionais e locais quanto entre os próprios fronteiriços. Aliás, “conflito é uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que implica choques para o acesso e a distribuição de recursos [...]”, (BOBBIO, 2004, p. 225). Entretanto, a percepção dos fronteiriços de “lugar especial” se explica pelo compartilhamento cotidiano da vida na fronteira, o que não se constata em outro ponto da fronteira Brasil- Argentina.

Dionísio Cerqueira\Barracão\Bernardo de Irigoyen e San Antonio\Santo Antônio do Sudoeste são exemplos de cidades fronteiriças que favorecem esse compartilhamento e numerosas interações, pois não há como fugir: as próprias malhas urbanas conurbadas, impõem o contato diário entre os fronteiriços. Tais cidades permitem pensar, ainda, que as interações são tecidas antes de tudo entre sujeitos fronteiriços com interesses diversos e múltiplas identidades e não meramente entre brasileiros e argentinos. Revelam, igualmente, que as interações transfronteiriças não se resumem apenas a relações econômico-comerciais, embora essas sejam sempre mais densas, pois como muitos autores já concluíram, cidades gêmeas mantêm fortes relações de interdependência econômica entre si, (PÉBAYLE, 1994; MACHADO, 2005), mais evidente pelas variações cambiais, fator que pode até determinar a direção dos seus fluxos recíprocos, notadamente os comerciais de bens e produtos de consumo corrente. Porém, no cotidiano fronteiriço e ao lado das interações materiais tecem-se igualmente interações com valores imateriais, como as sociais de amizade, compadrio, apadrinhamento, parentesco e outras.

Assim, ainda que cada zona fronteiriça apresente singularidades, de maneira geral podemos tomá-las como produto e condição de um conjunto de interações materiais e imateriais estabelecidas entre os fronteiriços, e compreendê-las significa ir além da visão dos sujeitos com identidades diferenciadas de simples

brasileiros e argentinos: é preciso ir ao encontro dos sujeitos fronteiriços com múltiplas identidades. Desse modo, as zonas fronteiriças podem ser concebidas também como o produto de relações tecidas antes de tudo entre sujeitos fronteiriços. O exemplo mais claro é o das cidades gêmeas, que podem ser vistas, em parte, como o resultado de aglomerados populacionais difusos organizados pela própria racionalidade dos fronteiriços, que foram concentrando comércio, serviços, moradias e outros equipamentos próximos ou junto à fronteira linear.

Nesses lugares, as práticas e as representações quotidianas, podem opor-se a todo um ideário político nacional sobre fronteira. Na visão dos poderes, localizados nos centros das escalas nacionais, essas práticas transgridem as normas territoriais. Sob tal ponto de vista, as zonas fronteiriças seguem sendo marginalizadas pelos Estados nacionais. Por essa razão, analisando as zonas fronteiriças brasileiras, Machado (2005) indica a necessidade de se pensar em políticas públicas diferenciadas para tais espaços, já que, em muitos aspectos, as normas gerais dos Estados nacionais não se aplicam, ou seja, não são condizentes com a realidade local dos fronteiriços. Além disso, as interações imateriais nem sempre são consideradas pelos organismos de poder e decisão, localizados nos centros das escalas nacionais, e em muitos aspectos, tais relações são ainda vistas como transgressivas ou ilegais.

Deste modo, evidencia-se a importância de conhecer como evoluíram e como se organizaram e se organizam as zonas fronteiriças, notadamente aquelas constituídas por cidades gêmeas, até para mostrar que as interações transfronteiriças não são apenas de ordem econômico-comerciais, elas são também sociais e culturais, estabelecidas pelos contatos e pela comunicação, nutridos por valores imateriais, como sentimentos de solidariedade, laços de amizade, parentesco, apadrinhamento etc., formados no convívio cotidiano da fronteira. E isso faz parte da própria história do lugar e dos fronteiriços. Nesse entendimento, podemos pensar que as zonas fronteiriças, notadamente aquelas formadas por conjuntos de cidades gêmeas, são lugares que “não são formados apenas pela racionalidade funcional e econômica, eles estão carregados de sentido para aqueles que os habitam ou que os frequentam” (CLAVAL, 2007, p.55).

4.3. Princípios de interações transfronteiriças e da integração