6.2 Análise das entrevistas
6.2.3 Estado de flow durante a prática da corrida de rua
6.2.3.1 Elementos que podem dificultar a vivência do estado de
FLOW
Os dois pensamentos que poderiam representar obstáculos para a ocorrência do estado de flow, ou experiência máxima (Csikszentmihalyi utiliza os dois termos), identificados nas entrevistas foram: o de querer terminar logo a corrida, treino ou prova (citado por três sujeitos); e a cobrança exagerada por resultados. Esses dois pensamentos podem interferir negativamente na ocorrência do estado de flow. O primeiro deles porque já indica a ausência de um envolvimento total na atividade; e o segundo, porque é um fator gerador de um estado de ansiedade.
Então, se sabe que eu tenho uma amiga que começou a correr... e ela falou: ‘Que coisa chata, porque eu já começo a correr pensando na hora que eu tenho que parar.’ Então eu vou correr e penso: ‘Aí meu Deus do céu, quando é que isso vai parar? Quando vai acabar?’. E outro dia eu corri pensando nisso. Eu não penso nisso!
Como é uma prova de revezamento (a volta da Ilha de Florianópolis), você tem aquela obrigação. Assim, não vou dizer obrigação, mas você se sente na obrigação de fazer um tempo bom. Por que o seu colega tá te esperando. A equipe depende do seu tempo, e você não quer ser a pessoa que vai fazer um tempo ruim pra equipe, né?
Os sentimentos mais apontados pelos corredores foram preocupação e ansiedade. O sentimento de preocupação foi apontado por dois praticantes: um revelou uma preocupação em sentir dores durante a corrida, porque isso implicaria ter que parar de praticar a atividade; outro revelou um medo de desmaiar durante as provas pelo esforço exigido e não poder ser socorrido:
Mas eu só fico preocupada quando eu sinto alguma dor, por que se não, eu começo a correr e esqueço do mundo, é um prazer muito grande, é um bem-estar, é um sentimento... é uma coisa gostosa dentro de mim.
Então, eu fico com medo de desmaiar (numa prova). Por que tipo assim, parece que o único problema é esse né, (...) cair dura ali na calçada, não tem jeito de te socorrer. Então eu fico com medo, né? Então, eu vou sempre tentando não forçar muito.
Esses pensamentos e sentimentos poderiam atrapalhar a vivência de um estado de envolvimento mais profundo e gratificante com a atividade, como o flow:
Sempre que a informação compromete a consciência ao ameaçar nossas metas, temos uma condição de desordem interior, ou entropia psíquica, uma desorganização do self que prejudica sua eficiência. (CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p. 63).
O estado mental flow é justamente o oposto da entropia psíquica (CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p. 66).
O problema desses elementos apontados – querer terminar logo a corrida; cobrança exagerada por resultados, preocupação e ansiedade – é que eles impedem que a energia psíquica (ou a atenção, como define Csikszentmihalyi (1992, p. 55)) seja canalizada eficientemente para a atividade que os praticantes estão desempenhando, impedindo que mergulhem completamente na experiência:
(experiência máxima) trata-se de situações nas quais a atenção pode ser livremente investida para alcançar metas pessoais, porque não existe desordem a ser corrigida, nem ameaça contra a qual o self precise defender-se. Chamamos a esse estado de experiência do fluir (...) (CSIKSZENTMIHALYI, 1992, p. 67)
Não podemos e não devemos ignorar os problemas e os riscos envolvidos, mas para que possamos viver intensa e plenamente o momento presente, devemos tomar medidas para resolver o problema que nos angustia, sempre que for possível. Por exemplo, no caso da dor, o praticante poderia tratá-la até resolver o problema e livrar-se dessa preocupação; o outro sujeito poderia tomar medidas para amenizar a preocupação de desmaiar durante as provas, como se sentir mais seguro quanto à sua aptidão física para aquela prova, seu estado de saúde favorável, manter em mente que são poucos os casos em que alguém desmaia durante uma prova e que se
isso ocorrer, na maioria das provas há profissionais para o pronto atendimento, ambulância para socorro imediato, etc.
Quanto à ansiedade, outro sentimento desfavorável à ocorrência do flow, citado por quatro dos dez entrevistados, ela se refere essencialmente à prova, e mais precisamente ao seu início ou a largada:
A ansiedade em dia de prova é... é aquela vontade de você sair e passar todo mundo, entendeu?
Então na largada fica todo mundo ansioso. Nossa, fica num estado nervoso na largada, pra correr que (...)
Mas esse é um sentimento que a maior parte dos praticantes parece também conseguir administrar relativamente bem durante o decorrer da prova:
(...) a minha musculatura tava solta, mas meu psicológico não tava indo, tava tremendo, tava suando frio. Foi o tempo de dar a largada e eu comecei a pensar meio pra mim, passou o primeiro quilômetro eu comecei a me soltar, o meu psicológico começou a acalmar de novo, comecei a visualizar a prova, fui mantendo aquele ritmo nos 3min30s, 3min25s ali (...)
(...) é só na hora da largada, no começo é que é... aí você vê o pessoal passando, você vai passando o pessoal. A sensação mesmo de ansiedade muito forte é só na largada.
Outro sentimento que pode interferir negativamente para a ocorrência do flow, apontado por três entrevistados, foi a solidão. Um praticante mencionou ter tido esse sentimento durante algumas provas, em especial as mais longas, onde as pessoas não conversam tanto umas com as outras durante o percurso. Outro citou uma prova de revezamento, na qual realmente correu um percurso sem ninguém por perto. Um sujeito citou a questão dos treinos mais longos, mas citou em especial questões referentes ao desgaste físico decorrente da dificuldade de hidratação, não do sentimento de solidão em si. Mas, segundo CSIKSZENTMIHALYI (1992, p. 235), devemos aprender a suportar e a ter satisfação também quando estamos sós, isso é necessário para realizarmos tarefas que exigem concentração total.
Um dos entrevistados mencionou não apreciar competições, não gosta do tumulto que há nas provas e gosta de ser uma pessoa mais reservada. Parece que o praticante não percebe as provas da mesma forma que a maioria dos corredores entrevistados, como um desafio
pessoal e não necessariamente uma competição com outras pessoas. Todavia, isso não é um impedimento para que o praticante vivencie um estado mental como o flow. Segundo Csikszentmihalyi (1992, p.144), “mesmo a ação física mais simples pode causar satisfação quando se converte numa fonte geradora do flow”.