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2. APONTAMENTOS ACERCA DO INSTITUTO DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.3 Elementos da Responsabilidade Civil

A aplicação da responsabilidade civil só será configurada quando estiver

presente a ação, o nexo causal e também o dano.

Assim, é necessário que exista ação que seja comissiva ou omissiva, lícita ou ilícita, para que seja caracterizada a responsabilidade, Diniz (2002, p. 37) ensina o seguinte:

A ação, elemento constitutivo da responsabilidade, vem a ser o ato humano, comissivo ou omissivo, ilícito ou lícito, voluntário e objetivamente imputável, do próprio agente ou de terceiro, ou o fato de animal ou coisa inanimada, que cause dano a outrem, gerando o dever de satisfazer os direitos do lesado.

A ação que gera uma indenização se baseia na ideia de culpa, enquanto a responsabilização que não está presente a culpa se funda no risco.

O comportamento de quem praticou a ação poderá ser uma comissão ou uma omissão. A comissão é realização de algo que não deveria ser realizado, já a omissão é a não observância de agir. (DINIZ, 2002).

Exclui-se da responsabilidade civil danos que ocorreram por meio de forças da natureza bem como os praticados em estado de inconsciência. (GONÇALVES, 2017). Exemplos de danos causados por força da natureza são as tempestades, terremotos e inundações.

Esta ação e omissão é gerada devido a um dever imposto a todas as pessoas da sociedade e que não é cumprido, este dever pode ser de origem contratual, social ou legal. Um exemplo de responsabilidade civil que ocorre a omissão é quando alguém deixa de prestar socorro em um acidente, tal atitude viola um dispositivo disposto em lei.

Segundo o ensinamento de Gonçalves (2017, p. 58) para se concretizar a responsabilidade por omissão, “[...] é necessário que exista o dever jurídico de praticar determinado fato (de não se omitir) e que se demonstre que, com a sua prática, o dano poderia ter sido evitado”.

O nexo causal é outro ponto importante no reconhecimento da responsabilidade civil. Para existir a responsabilidade, é necessário a presença do nexo causal entre o dano cometido e da conduta resultante. Segundo Gonçalves (2017, p. 413), “ um dos pressupostos da responsabilidade civil é a existência de um nexo causal entre o fato ilícito e o dano produzido. Sem essa relação de causalidade não se admite a obrigação de indenizar”.

Nesse sentido, Diniz (2002, p. 96) ensina o seguinte:

O vínculo entre o prejuízo e a ação designa-se “nexo causal”, de modo que o fato lesivo deverá ser oriundo da ação, diretamente ou como sua consequência previsível. Tal nexo representa, portanto, uma relação necessária entre o evento danoso e a ação que o produziu, de tal sorte que esta é considerada como sua causa. Todavia, não será necessário que o dano resulte apenas imediatamente do fato que o produziu. Bastará, que se verifique que o dano não ocorreria se o fato não tivesse acontecido. Este poderá não ser a causa imediata, mas, se for condição para a produção do dano, o agente responderá pela consequência.

Este nexo causal poderá ter efeito indireto e não será excluído pois tal efeito pode ser resultado do dano cometido.

Segundo a doutrina existem teorias que tentam explicar o nexo de causal, as duas principais são: a teoria da equivalência dos antecedentes e a teoria da causalidade adequada.

A teoria da equivalência dos antecedentes, não faz distinção entre causa e condição. As condições que concorrerem para o mesmo resultado tem o mesmo valor, ou seja, todas se equivalem. Causa é a ação ou a omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido, sem distinção de relevância de cada uma, por isso essa teoria é chamada também de conditio sine qua non. (CAVALIERI FILHO, 2012).

Já no caso da teoria da causalidade adequada, esta faz distinção entre causa e condição dos fatos antecedentes mais relevantes. Várias condições concorreram para o resultado, aqui será necessário verificar qual foi mais adequada, será desconsiderado aquelas que não forem determinantes. (CAVALIERI FILHO, 2012). Para se encontrar qual condição é mais adequada, será necessário avaliar o caso, e com bom senso se verificar qual é certa que gerou o dano, não existe uma regra específica para se detectar.

Para que haja indenização é necessário existir a ocorrência de um dano comprovado. Este dano pode ser de cunho material ou moral.

O autor Cavalieri Filho (2012, p. 76-77), conceitua o dano da seguinte forma:

O dano é, sem dúvida, o grande vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em ressarcimento, se não houvesse o dano. Pode haver responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem dano. A obrigação de indenizar só ocorre quando alguém pratica ato ilícito e causa dano a outrem. O dano encontra-se no centro da regra de responsabilidade civil. O dever de reparar pressupõe o dano e sem ele não há indenização devida.

Deste modo, é nítido que para que ocorra a indenização, não terá que ter apenas o risco do dano, mas uma conduta ilícita concreta consumada, que gerou dano patrimonial ou moral a outra pessoa.

Quando se fala em indenizar, significa reparar à vítima o dano que cometeu. Sendo possível, restaurando o statu quo ante, ou seja, devolvendo na mesma medida que se encontrava-se antes da ocorrência do dano. Porém, como em alguns casos, a restauração na mesma proporção que estava antes da ocorrência do ato não é capaz

de se fazer, se buscará uma compensação em forma de indenização monetária. (GONÇALVES, 2017).

Quanto ao dano patrimonial, Miragem (2015, p. 169), tem o seguinte entendimento:

Os danos patrimoniais se caracterizam por um prejuízo econômico, decorrente de uma diminuição imediata do patrimônio da vítima ou o impedimento de obtenção de vantagem futura que, se não fosse a conduta antijurídica do agente, razoavelmente poderia esperar obter. O art. 402 do Código Civil estabelece que as perdas e danos devidos ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar.

Este dano deve ser analisado sob dois aspectos, o dano emergente e o os lucros cessantes.

O dano emergente corresponde ao que o indivíduo que sofreu o dano perdeu, o verdadeiro prejuízo sofrido por ela. “Os prejuízos econômicos que sofre a vítima diretamente, importando na diminuição de seu patrimônio devido a uma conduta antijurídica, denominam-se danos emergentes”. (MIRAGEM, 2015, p,169). Esse dano será calculado e demonstrado por quem sofreu o dano, baseando-se no valor dos bens que foram atingidos.

O lucro cessante é aquilo que quem sofreu o dano deixou de ganhar. “Os lucros cessantes consistem na vantagem econômica a qual a vítima deveria obter no curso normal de sua atividade, mas que, em razão da conduta antijurídica do agente, restou impedida”. (MIRAGEM, 2015, p. 170). Neste caso, os lucros cessantes também devem ser demonstrados pela vítima, para se calcular a indenização. Um exemplo a ser usado aqui é de um taxista, profissional liberal, que tem sua atividade interrompida devido a um acidente, o qual não teve culpa, podendo pleitear os lucros cessantes visto que esse período vai ficar sem trabalhar e consequentemente sem renda.

Já o dano moral, também conhecido como extrapatrimonial, atinge o ofendido como pessoa, significa uma lesão a dignidade e não de seu patrimônio, é a lesão de bem que integra os direitos da pessoa, de sua personalidade, ou seja, sua honra, dignidade, intimidade, imagem, o bom nome, e que acarreta ao lesado dor, sofrimento, tristeza, vexame e humilhação. (GONÇALVES, 2017).

Os autores Gagliano e Pamplona Filho (2011, p. 97), conceituam dano moral da seguinte maneira:

O dano moral consiste na lesão de direitos cujo conteúdo não é pecuniário, nem comercialmente redutível a dinheiro. Em outras palavras, podemos afirmar que o dano moral é aquele que lesiona a esfera personalíssima da pessoa (seus direitos da personalidade), violando, por exemplo, sua intimidade, vida privada, honra e imagem, bens jurídicos tutelados constitucionalmente.

Diante disso, se observa que o dano moral quando ocorre o fato lesivo não irá atingir os bens patrimoniais de pessoa física ou jurídica, mas sim irá ocorrer uma lesão a personalidade da pessoa que sofreu o dano.

O dano moral pode ser dividido em direto e indireto, quanto ao dano direto Diniz (2002, p. 83), ensina o seguinte:

O dano moral direto consiste na lesão a um interesse que visa a satisfação ou gozo de um bem jurídico extrapatrimonial contidos no direito da personalidade (como a vida, a integridade corporal, a liberdade, a honra, o decoro, a intimidade, os sentimentos afetivos, a própria imagem), ou nos atributos da pessoa (como o nome, a capacidade, o estado de família).

Esse dano apresenta um resultado imediato ao dano que cometeu o ato lesivo, e sua lesão será especificamente a um dano extrapatrimonial. Já quanto ao dano indireto, Gagliano e Pamplona Filho (2011, p. 109), tem o seguinte entendimento:

Já o dano moral indireto ocorre quando há uma lesão específica a um bem ou interesse de natureza patrimonial, mas que, de modo reflexo, produz um prejuízo na esfera extrapatrimonial, como é o caso, por exemplo, do furto de um bem com valor afetivo ou, no âmbito do direito do trabalho, o rebaixamento funcional ilícito do empregado, que, além do prejuízo financeiro, traz efeitos morais lesivos ao trabalhador.

O dano moral indireto pode ser dividido entre ele e o dano moral em ricochete. No dano moral em ricochete, “tem-se um dano moral sofrido por um sujeito, em função de um dano (material ou moral, pouco importa) de que foi vítima um outro indivíduo ligado a ele”. (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2011, p. 109).

Neste sentido, “decidiu o Superior Tribunal de Justiça que incômodos ou dissabores limitados à indignação da pessoa e sem qualquer repercussão no mundo exterior não configuram dano moral”. (GONÇALVES, 2017, p. 449). Deste modo, entende-se que o dano moral será configurado pelo não respeito de um direito que afeta a personalidade da pessoa, é aquele que causa danos à dignidade de alguém, e não qualquer dor ou aborrecimento que as pessoas passam durante a sua convivência em sociedade.

Conclui-se que a responsabilidade civil preenche um papel muito importante na sociedade brasileira, pois com ela há um equilíbrio na punição dos atos praticados pelas pessoas em sociedade, não permitindo que haja qualquer responsabilização injusta. Assim, irá se adentrar no próximo capítulo que abordará sobre como vai ser a responsabilidade do pai socioafetivo no caso de abandono afetivo, se vai ser igual ou diferente da responsabilidade do pai biológico.

3. RESPONSABILIZAÇÃO PELO ABANDONO AFETIVO NA FILIAÇÃO