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Assim como nos evidenciam a participação pessoal dos monitores nas pesquisas, os diários também evidenciam a participação dos pesquisadores, que acabaram se tornando personagens desse cotidiano de escrita, assim como são encarados como os interlocutores diretos para muitos dos escritores. É isso que será discutido aqui nesta última parte de interpretação dos diários.

Nos comentários feitos a seguir, nos debruçamos sobre alguns elementos que podemos relacionar às pesquisas e às intenções dos pesquisadores mais especificamente, como alguns trechos que nos falam sobre conservação da floresta. Muitos dos moradores também nos referem uma posição pessoal de apoio à conservação da área, que se relaciona com o uso sustentável dos recursos e a fiscalização desse uso para a manutenção da floresta. Esse tipo de posicionamento nos relembra inclusive a história de luta pela institucionalização da REAJ e de outras reservas por antigos seringueiros. Informações sobre este contexto aparecem ao longo das narrativas e acabam se misturando aos temas e conteúdos propostos e pensados pelos pesquisadores de uma maneira especial. Tocando nesses temas e falando diretamente com as pesquisas, no entanto, os diários nos dizem não somente sobre intenções de seus escritores: evidenciam-nos como a perspectiva das pesquisas acaba invadindo o texto e o cotidiano desses moradores.

O que notamos nos excertos selecionados a seguir, especificamente, é o diálogo que se estabelece ao longo dos anos entre intenções de pesquisas e as respostas dadas pelos moradores quando tocam nesses temas diretamente em seus diários. Ao longo das narrativas que nos informariam dados sobre atividades e espécies, encontramos opiniões e

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textos dissertando sobre o tema da preservação, sobre a associação de moradores, sobre os órgãos de fiscalização. A partir desse diálogo direto com os temas que foram caros às pesquisas desenvolvidas no Alto Juruá nesses anos de escrita de diários, tomamos esses excertos e tais diálogos como uma forma de ver pesquisadores e seus discursos.

Outros comentários são dedicados à interpretação e análise das capas dos cadernos e das primeiras folhas. Nos primeiros cadernos dos moradores, encontramos geralmente só as letras de seus escritores ou de pessoas da família e comunidade que às vezes também escrevem nos diários de amigos e parentes (como esposas escrevendo diários junto com os maridos). Eles já começavam com informações sobre os dias de atividades ou sobre tipos de atividades em especial. Encontrávamos intervenções dos pesquisadores somente quando esses se colocavam como corretores a pedido dos próprios monitores ou quando identificavam períodos e monitores em capas para facilitar o reconhecimento dos cadernos e folhas quando o material vinha para Campinas para ser lido e digitalizado.

Ao longo dos anos, no entanto, as informações requeridas nos treinamentos e visitas de pesquisadores começam a aparecer nas capas de diários e elas nos permitem não somente entender quem são os moradores com os quais os escritores se relacionam, suas idades e as atividades com as quais se sustentam e sustentam suas casas, mas também falam sobre aqueles elementos da atuação dos pesquisadores que evidenciam muito de suas intenções e preocupações. Nos diários mais novos, por exemplo, temos a preocupação com a ocupação dos demais moradores da comunidade dos escritores, mas não só isso: há uma preocupação com aspectos políticos dos relacionamentos, como os que encontramos nos novos “diários de comunidade”, que contém informações específicas sobre a dinâmica dos relacionamentos desses moradores entre si e com outros agentes. Essas informações já vinham aparecendo em diários de alguns ao longo dos anos, seguindo intenções próprias e distintas de

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cada escritor, como os que utilizam o espaço para expressarem opiniões ou dos que por si próprios tiveram a intenção de nos informar sobre mudanças, viagens, visitas ou sobre dados de reuniões. Nesses novos diários, no entanto, tais informações são também requeridas pelos pesquisadores, que ao longo dos anos vão também adequando suas intenções e questionamentos assim como o conteúdo e formato desse material vai se construindo.

Sendo assim, se os elementos que os escritores somam aos seus diários nos permitiram observar aspectos distintos e distintivos de suas práticas e desenham o processo de construção de um diálogo e dos próprios diários, esse tipo de informação que explicita intenções dos pesquisadores nas capas dos diários nos fala também sobre alguns processos intrínsecos aos relacionamentos entre moradores e entre o contexto dos anos de vigência da REAJ enquanto área de conservação. Notamos esses elementos de mudança não somente como elementos que explicitam novas preocupações de pesquisa e investigação e que explicitam uma história de construção de narrativas, mas elementos que partem de novas conjunturas que acabamos observando ao longo dos anos, sobretudo quando comparamos os primeiros diários que traziam informações sobre saldos de borracha e cantina e como a participação de outros trabalhos no quadro de atividades diárias se distancia desse contexto. Salientamos aqui como alguns elementos dentro dos diários nos dizem sobre essas mudanças. Outro aspecto para o qual queremos chamar atenção é o fato de que essas capas de diários falam sobre um processo muito próprio da relação entre alguns moradores que trabalharam na escrita desses diários e as pesquisas. Temos atualmente antigos seringueiros e moradores que assumiram o papel de pesquisadores e esse é um elemento que merece ser comentado, assim como é importante comentar sobre como alguns pesquisadores acabam se tornando personagens do cotidiano, das histórias e da vida local.

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