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2. FATORES DE ANÁLISE DO TEXTO DE PARTIDA

2.1 FATORES EXTRATEXTUAIS

2.2.8 Elementos suprassegmentais

Este é o último fator levantado por Nord (1991), o qual retoma características do léxico e sintaxe e cujos aspectos viriam a contribuir no texto. Os elementos suprassegmentais abrangem as alterações nos sons de vogais e consoantes no discurso (NÖTH, 1995). Entre estas modificações estariam a entonação, a acentuação e a duração.

Quando em texto escrito, os elementos suprassegmentais são postos em evidência, por meio de realces como “negrito e itálico, aspas, controle da informação através de travessão e parênteses”190 (NORD, 1991, p. 137). Neste grupo, poderíamos incluir ainda o tipo e tamanho da fonte, o sublinhado e as pontuações (ponto final, de exclamação e de interrogação) que indicam a elevação ou linearidade da entonação.

Como vimos no item 2.2.6.5, várias interjeições na versão alemã estavam em caixa alta e acompanhadas de ponto exclamativo, sugerindo a oralização do estado emotivo das personagens. Por intermédio de algumas interjeições fica registrado também o tempo de duração da oralização, como em “Fffffff POFF!”. A caixa alta em frases como “DU SOLLST KEINE HÜHNER KLAUEN!” mostra a maneira como ela foi pronunciada: gritando. Já a caixa alta e o prolongamento de vogais e consoantes em palavras parecem repreender a personagem da história, como em:

»ICH hatte mal eine gaaaanz lange Leine. ICH hab sie ordentlich aufgerollt. ICH hab sie auf

DEN Nagel da gehängt. Und da hängt jetzt eine GEIGE! Hast du gezaubert, Findus?« (NORDQVIST, 1987, p. 12).

– EU tinha uma corda beeeem cumprida. EU a enrolei bem certinho. EU a pendurei ali

190 “[…] Sperr- oder Kursivdruck, Anführungszeichen, Informationssteuerung durch

NAQUELE prego. Mas agora tem um VIOLINO

pendurado ali! Findus?! Você fez mágica? Pausas são introduzidas por reticências em dois momentos:

Jetzt entdeckte der Fuchs das Ballonhuhn, das da ganz allein auf dem Hof stand. Langsam, langsam schlich er näher… (NORDQVIST, 1987, p. 18). Então a raposa descobriu a galinha balão sozinha lá no pátio. Devagarzinho, bem devagarzinho, ela se aproximou...

No exemplo acima, as reticências acompanham a aproximação lenta da raposa e ao mesmo tempo criam expectativa sobre sua próxima atitude. Já a seguir:

»So ein verflixter Fuchs«, sagte Findus.

»Aber… den Pudding können wir ihm ja gönnen. Du machst sicher einen neuen, oder, Pettersson?« (NORDQVIST, 1987, p. 22).

– Que raposa danada! – disse Findus. – Ah! Mas... o pudim podemos dar para ela! Você vai fazer um outro, né Pettersson?

As reticências remetem igualmente à pausa na fala do gato, de modo que a separação entre “Aber” e o resto da frase sugere deliberação e conclusão por parte do gato.

Em algumas passagens do texto brasileiro acrescentamos ou aumentamos o número de pontos exclamativos. O objetivo era garantir a entonação, conforme a ação na narrativa ou o estado afetivo e expressivo da personagem. Vejamos:

»Nein, nein, ich verspreche, daß ich niemals mehr einen Fuchs jage. Hör auf! Laß mich gehen!« (NORDQVIST, 1987, p. 20).

– Não!! Não!! Prometo que nunca mais vou caçar uma raposa. Pare! Me deixe ir para casa!

Por meio da pontuação direciona-se o sentido da frase, isto é, se é um “não” irônico ou de desespero, por exemplo. Neste caso, a trama verbal e visual de Ein Feuerwerk für den Fuchs colaboram na interpretação. Assim, mediante os elementos suprassegmentais é possível se notar a posição do falante com relação ao seu discurso (NORD, 1991).

Segundo Nord (1991), através destes elementos, o tradutor pode chegar a algumas conclusões sobre o conteúdo, a temática, a pressuposição e a estrutura textual. O conteúdo poderia ser mais facilmente deduzido do objeto de estudo, se retomássemos as funções do texto visual (ver item 2.2.5.1). Por exemplo, pela sua função representativa e expressiva das personagens é possível se identificar intenções do autor: moral instrutiva, afeto, entretenimento etc.

O emprego de caixa alta em alguns elementos do léxico como em “ICH hatte mal eine gaaaanz lange Leine” (NORDQVIST, 1987, p. 12), retoma a questão da lição que permeia todo o livro (tema). Já por meio da pressuposição, por exemplo, espera-se que o leitor entenda a ironia presente na caixa alta do exemplo citado, ou seja, que o campo semântico de “ich” e “ICH” se diferencia. Através das pausas e entonações expressa-se a dúvida, a reflexão (qual armadilha montar?), sendo que ambas constituem a estrutura textual (frases longas, curtas).

Em se tratando de fatores externos, Nord (1991) acredita que para os elementos suprassegmentais são relevantes a intenção do emissor, o lugar, o propósito e a função textual. Como vimos anteriormente, através da inversão do objeto direto preposicionado para o começo da frase, o personagem Pettersson estaria sugerindo repressão, o que reforçaria a intenção instrutiva do texto. Com relação ao local de produção do texto, é intrincado deduzi-lo com base apenas nos elementos suprassegmentais do TP.

O propósito, como visto em 2.1.6, indica o motivo pelo qual um texto é produzido e traduzido. No caso da produção, Nordqvist pretendia representar a relação entre adulto e crianças, algo que, por diferença entre gerações, está carregado de assimetria. Logo, isto acaba se refletindo nos diálogos com frases invertidas para expressar receio, interjeições e caixa alta para chamar a atenção do ouvinte. Já a tradução observou o objetivo de ser acessível ao público, tentando retomar também as características do TP, seja a nível lexical, sintático e da trama.

Por último, dentre as funções comunicativas encontramos a referencial (remissão à relação entre o adulto e a criança no dia a dia), a expressiva (emprego de interjeições e partículas modais para expressar ponto de vista e emoção), a apelativa (pela voz do narrador ou dos próprios personagens se tenciona influenciar o comportamento com uma moral instrutiva) e a fática (estabelecimento de contato nos diálogos).

A fim de manter estas funções (como sugerido no item 1.3.1.8), assim como tornar o texto coeso e coerente para que funcionasse junto à recepção, apresentamos ao longo do item 2.2 alguns pontos do texto que foram levados em conta na tradução e que trouxessem estas funções comunicativas.

Dentro do léxico, por exemplo, o nome da galinha foi traduzido retomando o carinho e respeito que seu nome expressa em alemão. As partículas modais e as interjeições foram estudadas no TP com o intuito de delimitar o seu campo semântico e, desta forma, poder reproduzi-lo no TC. Esta análise foi importante para recuperar no TC as características comportamentais das próprias personagens: um tenta impor moral (Pettersson) e o outro a desconstrói (Findus).

A informalidade expressa no TP alemão por meio da supressão da vogal no final de verbos foi retomada na forma de tempo verbal na versão em português. Assim, uma das características do TP pôde ser mantida.

A isto se acresce que, por se tratar de uma obra com diálogos, o estudo da prosódia seria relevante, o que fizemos conforme proposto por Nord. Aqui pudemos notar que ela varia de uma língua para outra, ou melhor, é um aspecto cultural, além disso sugere a posição do locutor frente aos interlocutores. Analisar a prosódia é sem dúvida essencial em textos com características da oralidade, já que outros fatores (tanto extra quanto intratextuais) podem estar contribuindo para isto e, consequentemente, a caracterização do texto.