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Capítulo I – Revisão Bibliográfica

2. Hipertiroidismo

2.4. Diagnóstico

2.4.2.5. Eletrocardiograma (ECG) e ecocardiografia

A alteração mais comum no ECG de gatos hipertiroideus é a taquicardia sinusal, detetada em cerca de 34% dos casos. Outras alterações incluem o aumento da amplitude da onda R, consistente com a dilatação/hipertrofia do ventrículo esquerdo (8% dos pacientes), e o padrão de bloqueio fascicular anterior esquerdo ou o bloqueio do ramo direito (6% a 10% dos casos, respetivamente). Podem ser observadas arritmias, incluindo contrações atriais ou ventriculares prematuras e, menos frequentemente, bloqueios atrioventriculares ou taquicardia supraventricular ou ventricular. Apesar

Figuras 4 e 5. Radiografia latero-lateral esquerda (à esquerda) e dorsoventral (à direita) de um gato hipertiroideu com insuficiência cardíaca congestiva. Note-se a cardiomegália e o padrão pulmonar intersticial e alveolar, principalmente nos lobos pulmonares caudais (retirado de Sangster, Panciera & Abbott, 2013)

Figura 5 e 6. Radiografia latero-lateral esquerda (à esquerda) e dorsoventral (à direita) de um gato hipertiroideu com insuficiência cardíaca congestiva. Note-se a cardiomegália e o padrão pulmonar intersticial e alveolar, principalmente nos lobos pulmonares caudais (Retirado de Sangster, Panciera & Abbott, 2013)

Figura 5 e 6. Radiografia latero-lateral esquerda (à esquerda) e dorsoventral (à direita) de um gato hipertiroideu com insuficiência cardíaca congestiva. Note-se a cardiomegália e o padrão pulmonar intersticial e alveolar, principalmente nos lobos pulmonares caudais (Retirado de Sangster, Panciera & Abbott, 2013)

Figura 5 e 6. Radiografia latero-lateral esquerda (à esquerda) e dorsoventral (à direita) de um gato hipertiroideu com insuficiência cardíaca congestiva. Note-se a cardiomegália e o padrão pulmonar intersticial e alveolar, principalmente nos lobos pulmonares caudais (Retirado de Sangster, Panciera & Abbott, 2013)

de fracamente documentado, é expectável que a maioria destas alterações se resolvam com o tratamento bem-sucedido da tirotoxicose (Broussard et al., 1995; Sangster, Panciera & Abbott, 2013; Scott-Moncrieff, 2015a).

Na ecocardiografia de gatos hipertiroideus, é frequentemente observada hipertrofia da parede livre do ventrículo esquerdo (aproximadamente 70% dos pacientes) e hipertrofia do septo interventricular (em 40% dos pacientes). Outras alterações incluem o aumento do átrio e ventrículo esquerdos em 50% e 47% dos casos, respetivamente, e o aumento da fração de encurtamento em cerca de 22% dos gatos hipertiroideus, que pode justificar a hipercontratilidade do miocárdio já reportada. Estas alterações são normalmente reversíveis após retorno ao estado eutiroideu. Menos comum, cardiomiopatia dilata já foi observada. (Bond, Foz, Peterson & Skavaril, 1988; Feldman & Nelson, 2004; Scott-Moncrieff, 2015a).

Os factos anteriormente descritos relativos às alterações ecocardiográficas em gatos hipertiroideus vão de encontro com o encontrado num estudo com 91 gatos com hipertiroidismo realizado por Weichselbaum, Feeney e Jessen (2005), onde as alterações mais observadas foram também a hipertrofia da parede livre do ventrículo esquerdo bem como a do septo interventricular. No entanto, estas apenas se demonstraram clinicamente relevantes em menos de 10% dos pacientes. O aparecimento de novas alterações após o tratamento bem-sucedido do hipertiroidismo pode refletir a presença de doença cardíaca concomitante, lesões permanentes relacionadas com o hipertiroidismo ou a recuperação incompleta dos efeitos tirotóxicos. Estes autores concluem que não aparenta haver correlação significativa entre as concentrações plasmáticas de T4 total e a presença de alterações ecocardiográficas clinicamente relevantes.

Assim, os parâmetros ecocardiográficos mais utilizados na avaliação do ventrículo esquerdo são o diâmetro interno ventricular no final da diástole (DVEd) ou sístole (DVEs) e a espessura do septo interventricular bem como da parede livre do ventrículo, que à semelhança do parâmetro anterior, podem também ser determinados no final da diástole (SIV d e PLVEd, respetivamente) ou da sístole (SIVs e PLVEs, respetivamente) (Madron, 2016). Jacobs e Knight (1985) e Moise e Dietze (1986) descrevem que se considera a existência de cardiomiopatia hipertrófica do ventrículo esquerdo em gatos quando a parede livre do ventrículo e/ou do septo interventricular em diástole apresenta valores iguais ou superiores a 6 mm. Não obstante, outros autores consideram a existência desta patologia quando estes valores são iguais ou superiores a 5,5 mm (Wagner, Fuentes, Payne, Mcdermott & Brodbelt, 2010). É importante ter em consideração, na avaliação do ventrículo esquerdo, que a frequência cardíaca é um fator que provoca variabilidade nas medições, nomeadamente nos parâmetros DVEd e DVEs, uma vez que frequências cardíacas elevadas estão

associadas a valores mais baixos destes parâmetros (Madron, 2016). O intervalo de referência para estes dois parâmetros é de [10,8–21,4] e [4,0–11,2] mm, respetivamente (Boon, 2016).

Para além do ventrículo esquerdo, como descrito anteriormente, o estudo do átrio esquerdo é outro parâmetro ecocardiográfico que deve ser avaliado. Este estudo é realizado com base na comparação entre o diâmetro do átrio esquerdo e o diâmetro da aorta (Madron, 2016). Segundo alguns autores, deve considerar-se a existência de dilatação atrial sempre que o rácio AE/Ao seja superior a 1,5. Tal é um indicador de mau prognóstico, uma vez que a alteração deste parâmetro cardíaco pode ser considerada um marcador da progressão da patologia e da gravidade da cardiomiopatia (Spalla, Locatelli, Riscazzi, Santagostino, Cremaschi & Brambilla, 2016). Sempre que existam valores compatíveis com o aumento do átrio é de extrema importância avaliar a presença de indicadores de tromboembolismo (Bonagura, 2000).

A fração de encurtamento do ventrículo esquerdo é outro parâmetro ecocardiográfico que pode ser realizado e avalia a função sistólica. Pode ser calculada através dos valores de DVEd e DVEs e corresponde à percentagem de encurtamento desse diâmetro em sístole. Os valores de referência para este parâmetro variam entre [40–67]% e este valor vai aumentar com o aumento da contratilidade, aumento da pré-carga ou diminuição da pós carga (Madron, 2016; Fuentes, 2018).

O stresse sistólico e a insuficiência do miocárdio estão na base da causa de outras alterações que, podem levar ao desenvolvimento de insuficiência cardíaca congestiva e apenas podem serem revertidas até certo grau. Assim, e corroborado pelo descrito anteriormente, apesar de pouco frequentes, os gatos hipertiroideus podem apresentar outras alterações ecocardiográficas, sendo que tipicamente se caracterizam pela apresentação de dilatação ventricular e atrial esquerdas, associada a uma espessura normal da parede livre e com a fração de encurtamento reduzida. (Jacobs et al., 1986).

Uma vez que as cardiomiopatias secundárias apresentam, na maioria dos casos, um melhor prognóstico do que as primárias, caso a afeção primária seja controlada, a esperança média de vida dos gatos, relativamente às alterações cardíacas, vai depender do grau e gravidade da lesão no miocárdio. Os casos que apresentarem remodelação cardíaca grave e/ou sinais clínicos de insuficiência cardíaca congestiva, apresentam um prognóstico mais reservado. A presença de dilatação atrial esquerda, arritmias, ruídos de galope, sinal de smoke no átrio esquerdo e fração de encurtamento reduzida são também indicadores de pior prognostico (Ferasin, 2012; Spalla et al., 2016).

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