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1.2 O PARANÁ PROVINCIAL

1.2.1 Elites e Poder: Ervateiros versus Elites Agrárias

O Paraná do século XIX contava com duas elites econômicas que detinham o poder político do estado, formando uma configuração composta pelas elites rurais dos Campos Gerais e a burguesia ervateira de Curitiba e do litoral. Esta tomava cada vez mais o espaço daquela, principalmente após a Guerra do Paraguai, quando a produção da erva-mate se expandiu para atender ao mercado platino, aumentando seu capital econômico e político, que viabilizou uma série de investimentos que alteraram a cidade e as redes de sociabilidade local. No entanto, mesmo após a emancipação e com a consolidação de uma burguesia exportadora local, as elites continuavam marginalizadas em nível nacional:

A luta contra as dificuldades geográficas, o isolamento e a pobreza oferecem uma trajetória singular para a economia do Paraná. Diferente de outras regiões do país, uma vez que o mercado interno e os mercados platinos são centrais para o tropeirismo e para a economia ervateira do Paraná.43

As primeiras elites paranaenses foram agrárias, e se constituíram durante o século XVIII com o comércio de gado via Campos Gerais para as feiras de Sorocaba, dando origem a uma sociedade pastoril fundada em grandes fazendas, na criação de animais e na escravidão. Seu capital econômico provinha da criação de gado e do tropeirismo, que entrou em decadência em meados do século XIX. Esta atividade dava à região um aspecto de local de passagem, e um permanente contato com gaúchos e paulistas, que influenciaram os paranaenses com a aliança política de alguns com os paulistas e a identificação de outros com os maragatos durante a Revolução Federalista.44

O tropeirismo propiciou o surgimento de uma classe de proprietários, que formavam a elite política e econômica da 5.a Comarca de São Paulo e nascente Província do Paraná, pois constituía o "negocio mais rendoso da época, de compra e

43OLIVEIRA, op. cit., p.64.

44SEGA, op. cit., p.145.

venda de tropas muares que, adquiridas no extremo Sul, vinham ser engordadas nos campos da zona paranaense, para, vendidas nas feiras de Sorocaba, irem por fim abastecer os mercados de S. Paulo, Minas, Rio de Janeiro e Minas".45 Entre os principais representantes dessa elite tradicional encontravam-se o Barão de Antonina, o Barão de Tibagi46, seu filho Conselheiro Jesuíno Marcondes47 e o Barão dos Campos Gerais48, todos com seus devidos títulos de nobreza concedidos pela coroa a fim de cooptar os grandes proprietários.

45NEGRÃO, Francisco. Genealogia paranaense. Curityba: Impressora Paranaense, 1926.

v.1. p.361.

46José Caetano de Oliveira nasceu em Sorocaba em 1794 e faleceu em Palmeira em 1863.

Casou-se com Querubina Rosa Marcondes de Sá, filha dos fundadores da nova povoação da Palmeira. José Caetano muito cedo engajou-se com o comércio de tropas muares, conduzindo-as do Rio Grande do Sul às feiras de Sorocaba, de onde adquiriu patrimônio. Teve propriedades pastoris em Palmeira, Castro e Rio Grande do Sul. Liberal, auxiliou a fuga de alguns chefes do partido quando da Revolução Liberal de Sorocaba. Recebeu as comendas da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo, bem como o título de Barão do Tibagi, por decreto de 4 de agosto de 1858 (Cf. WESTPHALEN, op. cit., p.324-325).

47Nasceu em 1827 na freguesia de Palmeira e faleceu em Genebra em 1903. Filho do Barão e da Viscondessa do Tibagi, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Academia de Olinda em 1849. Foi deputado na Assembléia Provincial nos biênios 1854-55, 1856-57 e 1860-61, deputado geral por diversas legislaturas e 2.o vice-presidente da Câmara dos Deputados. Foi diversas vezes vice-presidente da província, assumindo a presidência algumas vezes, inclusive em 1889 quando a República foi proclamada. Foi o chefe do Partido Liberal no Paraná entre 1853 e 1889 (Cf. WESTPHALEN, op. cit., p.422-423).

48David dos Santos Pacheco nasceu em 1810 e morreu em 1893 na Lapa. Casou-se com sua prima Ana Francisca de Carvalho. Ambos descendiam diretamente dos primeiros moradores da Freguesia de Santo Antônio da Lapa. David Pacheco foi um dos maiores vultos da história social, econômica e política dos Campos Gerais do século XIX. Muito jovem foi iniciado nas lides do comércio de tropas muares pelo seu padrinho João da Silva Machado, futuro Barão de Antonina, com o qual manteve sociedade de 1834 a 1846. A partir de então, associou-se com irmãos, cunhados, sobrinhos e primos (suas duas filhas casaram-se com o Conselheiro Manuel Alves de Araújo e com o Comendador Joaquim Alves de Araújo), tornando-se um dos maiores comerciantes de tropas do Paraná. Teve fazenda em Passo Fundo, de onde encaminhava os animais para as invernadas da Lapa e às feiras de Sorocaba, onde os revendia. Dada sua posição como tropeiro e comerciante de gado, próspero homem de negócios, de prestígio social e político na sua comunidade, ocupou altas posições na vida da 5.a Comarca, depois Província do Paraná. Foi deputado provincial, Comandante Superior da Guarda Nacional e 1.o vice-presidente da Província do Paraná e um dos líderes do Partido Liberal do Paraná, aliado a Jesuíno Marcondes. Em 1880 recebeu em sua casa na Lapa o Imperador D. Pedro II e Dona Tereza Cristina, quando alforriou todos os escravos de suas três fazendas no Paraná e na de Passo Fundo. Nesse ano recebeu o título de Barão dos Campos Gerais (Cf. WESTPHALEN, op. cit., p.328-329).

A partir da década de 1870, estas elites entraram num processo de decadência econômica49 devido ao advento das ferrovias, que tornavam as mulas desnecessárias: "A diminuição do tropeirismo é diretamente proporcional ao crescimento ferroviário nas décadas de 1870 e 1880".50 Com isso, desestruturou-se a base econômica de sustentação dos Campos Gerais, e seus representantes tiveram que buscar alternativas de sobrevivência, que se concentraram principalmente no Estado e no exercício do poder político, contribuindo para o crescimento dos centros urbanos, dado o êxodo provocado pela crise do comércio de mulas. Outra opção foi a atividade madeireira, que refletia uma posição subordinada aos ervateiros (que também se envolveram nesta atividade), afinal produziam as barricas que serviam para armazenar e exportar o mate. A perda do capital econômico refletia-se cada vez mais no campo político e mesmo no meio cultural, pois tinham cada vez menos possibilidade de investir em jornais, comprometendo de forma crescente a sua posição dominante no campo do poder provincial.

Neste ínterim, a produção de mate no Paraná, que se iniciou em torno dos anos 1820 no litoral e na década seguinte em Curitiba, já na década de 1850 correspondia a 85% das exportações da província.51 A produção e a comercialização da erva-mate rendiam bons frutos até chegar ao seu apogeu52, que viabilizou uma série de investimentos na modernização da capital. Enquanto na cena nacional o

49A trajetória de Jesuíno Marcondes simboliza bem o enfraquecimento das elites agrárias, de quem era comandante político por via da chefia do Partido Liberal. Em seu inventário, processado em 1904, o Conselheiro, que era de uma família de fazendeiros e de tropeiros dos áureos tempos dessa atividade, descreve seus bens inventariados. Chama desde logo a atenção a insignificância dos imóveis rurais, e sua renda provinha de investimentos em títulos da dívida pública (MACHADO, Brasil. Apud SÊGA, op. cit., p.212).

50OLIVEIRA, op. cit., p.100.

51BELOTO, op. cit.

52Para se ter idéia da proporção a que chegou a produção, segundo o relatório de João Jose Pedrosa, presidente da província em 1881, o Paraná fornecia aproximadamente 3/5 do mate consumido na América do Sul. (Cf. OLIVEIRA, op. cit., p.93).

principal produto era o café, os paranaenses exploravam o mate, nicho econômico alternativo, que lhes proporcionou uma atividade comercial intensa principalmente com o mercado platino, impulsionado pela Guerra do Paraguai, que os livrou de seu principal concorrente. Este campo econômico estava centrado em uma indústria ao mesmo tempo mecanizada, de mão-de-obra livre e extrativista, e encontrava-se em expansão, embora fosse periférica em termos nacionais.

Os engenhos proliferaram pela cidade, e o crescimento dos investimentos permitiu um salto tecnológico na produção, elevada a uma fase industrial e ao quase completo desaparecimento do trabalho escravo, peculiar em relação ao restante do país. Três motivos contribuíram para este fator: a sazonalidade da erva-mate, que era colhida anualmente; o direcionamento da maior parte da mão-de-obra escrava para a crescente indústria do café em São Paulo e, não menos importante, o controle burguês do processo produtivo.53 O campo econômico comandado por tal burguesia seria determinante na modernização da cidade e numa série de investimentos que dariam origem a um campo de produção cultural no Paraná. Além disso, a produção da erva-mate criou uma série de outras atividades derivadas, como o setor madeireiro, de transportes, a modernização dos portos, entre outros.

Aqueceu a economia, até então travada pela crise das elites tropeiras, constituindo uma nova elite local, "influentes atores no poder político do Paraná Imperial".54 Dois dos representantes mais típicos dessa burguesia foram o Visconde de Nácar55 e o Barão do Serro Azul56.

53Cf. PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. Semeando iras rumo ao progresso:

ordenamento jurídico e econômico da Sociedade Paranaense, 1829-1889. Curitiba: Editora da UFPR, 1996. p.52-62-64; 52-60.

54OLIVEIRA, op. cit., p.55.

55Manoel Antonio Guimarães nasceu em Paranaguá em 1813 e lá morreu em 1893. Seus filhos e filhas tiveram todos casamentos dentro das elites locais. Manoel foi um dos maiores comerciantes exportadores de erva-mate paranaense, bem como proprietário da maior casa importadora de Paranaguá e de fazendas e sítios no litoral, além de inúmeros imóveis na sua terra natal. Foi chefe do Partido Conservador entre os anos de 1850 e 1889, rodeado por filhos, sogro,

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