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Elsa e Anna: do medo e a ingenuidade à sororidade entre as mulheres

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CAPÍTULO III – OS CONTOS CONTADOS PELA DISNEY – UMA GENEALOGIA

4. Princesas em transição: a “terceira mulher” e seu dilema

4.3. Elsa e Anna: do medo e a ingenuidade à sororidade entre as mulheres

A mais recente animação relacionada às princesas da Disney foi realizada em 2014: Frozen – Uma aventura congelante é baseada no conto A Rainha da Neve, de Hans Christian Andersen; porém, assim como em Malévola, a narrativa é uma releitura e aborda outra perspectiva do conto original. A animação traz novamente a relação entre a “primeira mulher” poderosa e demonizada e a “segunda mulher”, a princípio, sonhadora e ingênua. O tema principal de Frozen é a negação do poder mágico de Elsa e a superação de uma maldição através do amor verdadeiro entre as irmãs.

Elsa é a mais velha das irmãs. Ela tem o poder de produzir e manipular o gelo, criando inclusive formas e seres a partir de dele. Após um acidente em que fere quase que mortalmente sua irmã Anna, Elsa é isolada do mundo para que aprendesse a controlar seu dom. Seus pais morrem num acidente e as irmãs crescem separadas uma da outra; porém, enquanto Elsa vive trancada num quarto, Anna possui uma vida comum, apesar de também viver dentro dos limites do castelo.

Quando Elsa tenta controlar sua natureza, escondendo seu poder – ao invés de buscar compreender e aceitá-lo – ela vai se tornando retraída e com medo de si mesma. Ao completar a maioridade, a princesa é coroada rainha e demonstra que, apesar de suas inseguranças, está preparada para desempenhar seu papel de soberana – ainda que para tanto precise adequar-se, ou seja, continuar ocultando seu dom, por assim dizer, diferente. Mostrar-se diferente do que

é esperado denota vulnerabilidade, algo que não é positivo aos olhos da moralidade androcentrada; pelo mesmo princípio, aquilo que é diferente ou exótico – ex-ótico, fora do que se deseja ver – não é algo identificado ao poder pelo prisma patriarcalista. Ironicamente, Elsa, ao ocultar seu poder, cria uma persona fria para que pudesse se manter numa alta posição hierárquica. Aqui encontramos outro eco cristalino do arquétipo helenizado da Hera supracitada – a Rainha do Olimpo, esposa de Zeus e guardiã da tradição.

Já Anna possui características das princesas clássicas, pois é ingênua e acredita no amor romântico. Como é também impulsiva, não por acaso se apaixona e decide se casar com um príncipe que acabara de conhecer na festa da coroação. Após a negação da benção de sua irmã, que não acredita que o amor verdadeiro aconteça desta forma, elas discutem e Elsa acaba se descontrolando: revelando seu poder secreto, congela seu reino, Arendelle. A rainha é acusada de feitiçaria e foge para as montanhas onde, sozinha, percebe que não precisa se esconder ou “ser uma boa menina”, como diz a canção tema de Elsa, “Livre estou44”. Porém,

ela só se sente segura quando está sozinha.

Ao mesmo tempo, Anna abandona Arendelle para tentar resgatar a irmã: a princesa mais nova, apesar de ingênua, é corajosa e decidida. Ela acaba ferida por Elsa, que a atinge no coração, congelando-o. Somente um ato de amor verdadeiro poderia fazer com que a maldição fosse quebrada.

Um dos elementos mais interessantes de Frozen é que o príncipe revela-se o verdadeiro vilão. Hans45 é o décimo-terceiro na ordem sucessória de seu reino e seduz Anna: mentindo que a amava, na verdade pretendia tomar o reino para si depois do casamento. Quando Anna é levada até ele para que ele a beijasse, ele diz a Anna que não a ama realmente. A fala de Hans é praticamente uma confissão de que o patriarcado foi responsável pela demonização da rainha e a consequente dicotomia que envolve o feminino nos contos. O desfecho se dá quando Anna demonstra o amor verdadeiro por Elsa ao sacrificar-se para salvar sua irmã, impedindo que fosse atingida pela espada de Hans, que se parte nas mãos congeladas de Anna. A atitude de Anna faz com que Elsa finalmente compreenda o amor verdadeiro. É a aceitação da diversidade e o resgate da união das tão diferentes irmãs que fazem com que a princesa-heroína, ou a antes “donzela” ingênua, ressuscite e amadureça e

44 Tradução para o português do título original “Let it go”. A canção foi uma das mais tocadas no ano de 2014 e

ganhou o Oscar de melhor canção no mesmo ano.

45 Hans representa o masculino sombrio que discutiremos no capítulo III ao abordarmos os antagonistas de

que a rainha-bruxa perca o medo de si mesma e a aprenda a usar harmoniosamente o seu poder assumindo a face geradora do arquétipo do Grande Feminino. A união entre Ana e Elsa (Figura 22) recupera o Reino de Arendelle.

Figura 22 – A união entre Ana e Elsa

Fonte: http://migre.me/t83sU

Frozen é uma história que fala do resgate e do poder da sororidade. O conceito de sororidade foi inspirado nas ordens religiosas formadas por mulheres que se diferenciam das fraternidades ou ordens masculinas. Tal conceito é questionado por algumas vertentes do feminismo como sendo simplista quando iguala todas as mulheres e ignora as diferenças de classe e de etnia (COSTA, 2009, p. 4). Contudo, decidimos usar o termo aqui, pois as personagens da narrativa possuem uma relação que agrega a interdependência e o respeito à diversidade e, a nosso ver, representam elementos importantes para que a sororidade se manifeste verdadeiramente. Assim – elas têm consciência de serem diferentes, sem deixarem de ser irmãs – juntas, estas mulheres se tornaram mais fortes!

Ao ser indagado em 2013 sobre a possibilidade do advento de uma “quarta-mulher”, Gilles Lipovetsky respondeu que ainda não via sinais desta possibilidade no contexto histórico e, mesmo com um progresso rápido, ele não enxergava esta possibilidade (REIF, 2013, s.d.). Porém, gostaríamos de levantar uma hipótese de que isso pode ser possível conforme as dimensões do feminino vão se aproximando e integrando-se.

No próximo capítulo adentraremos no mundo daquela que não é rainha ou princesa. Refletirmos sobre o universo que compõe a narrativa de Malévola, analisaremos dois momentos do filme, objeto de nossa dissertação, e que estabelecem o corpus de nosso trabalho em busca do avanço que nos leve até a mulher além do bem e do mal.

CAPÍTULO IV – MALÉVOLA: A MULHER ALÉM DO BEM E

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