Capítulo III - OS CONCEITOS JURÍDICOS EM FACE DA TRANSITORIEDADE
3.2 Em busca de um conceito de vida
Do ponto de vista biológico, definir o que seja vida é uma questão complexa mesmo para os cientistas. Quando foi anunciado, no ano 2000, o seqüenciamento do genoma, o Instituto de Pesquisa Genômica deu início a um novo projeto, com o objetivo de descobrir quantos genes são necessários para produzir um organismo e, quem sabe, construí-lo, a partir do genoma mínimo (o menor conjunto de genes que permite a reprodução de um organismo em determinado ambiente). Os experimentos, nas palavras de Arthur Caplan, visam saber o que é
85 GUIBOURG, Ricardo A.; GHIGLIANI, Alejandro; GUARINONI, Ricardo. Introducción al conocimiento cientifico. Buenos Aires: Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1994. p.41.
86 ROXIN, Claus. Tratado de Derecho Penal: Parte General. Versión al español por Diego Manuel Luzón Peña et al. Madrid: Civitas Ediciones, 1997. v. 1. p. 251.
87 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro. 4. ed. São Paulo: RT, 2004. p. 298.
vida já que, apenas em certo sentido, significa alguma coisa capaz de metabolizar e de se reproduzir, mas que, sob outro ponto de vista, é muito mais do que isso.
Recentemente, Daniel Koshland Junior88, bioquímico da Universidade Berkeley, com boa repercussão, tratou de definir vida sustentando-a em funções às quais chamou de sete pilares.
Em artigo publicado na revista Science et Medicine, em sua edição do dia 22 de março de 2002, e no jornal Le Figaro, o referido autor afirma que, embora estejamos convencidos de que saibamos o que seja vida, a resposta não é simples, embora seja cada vez mais necessário, em face das busca de vida em outros planetas e da geração de vida em sistemas artificiais, procurar traçar as características de um sistema vivo.
Como anteriormente dito, essas características são chamadas de pilares da vida, princípios essenciais ao funcionamento de um sistema vivo em energia e de movimento. Refere-se, o autor, aos sete pilares cuja abordagem bem reflete a complexidade que existe na definição do substrato material vida.
O primeiro pilar trata de um programa organizado que, no planeta, é efetivado pelo ADN que codifica os genes e permite que sejam reproduzidos de geração em geração, com pequenas alterações que não afetam o plano geral.
O segundo pilar é a improvisação, que proporciona um ajustamento a mudanças ambientais às quais o organismo, pequena parcela do universo global, será exposto. Esta exposição vai tornar o programa menos eficaz; a improvisação é, portanto, a capacidade de modificação que permite sua sobrevivência.
O enclausuramento pelo qual todos os organismos vivos são confinados em volume limitado e envolvidos por uma superfície que se chama membrana ou pele, que mantém os ingredientes dentro de proporções definidas e impede que sejam atacados por elementos exteriores, constitui o terceiro pilar.
O quarto pilar é a capacidade, enquanto sistema aberto, de receber as energias de fontes exteriores, como o sol, por exemplo, e transformá-la em combustível para o organismo.
88 KOSHLAND JUNIOR, Daniel. Les sept pilliers de la vie. Sciences et Médicine, Paris, p. 15, 22 maio 2002 ; KOSHLAND JUNIOR, Daniel. Les sept pilliers de la vie. Le Figaro, Paris, p.12, 24 mars 2002.
O quinto pilar é a regeneração que equilibra os constantes reajustes a que os organismos têm que se submeter, compensando as perdas sofridas. Este é um processo no qual o organismo se vale dele mesmo para se recompor capacidade que diminui com o passar dos tempos; é o que se chama envelhecimento.
Trata ainda de adaptabilidade, que se faz pela retroação, atributo que impede a repetição de experiências dolorosas.
O sétimo pilar é o isolamento, que se faz necessário para um sistema metabólico, no qual se produzem múltiplas reações ao mesmo tempo, impedindo que os agentes químicos de um processo reativo sejam metabolizados pelos catalisadores de outra reação. Nosso sistema se utiliza, para esse fim, de uma propriedade fundamental da vida, a especificidade das enzimas, que só atuam sobre as moléculas pelas quais elas são reconhecidas e não são perturbadas pelas moléculas das diversas outras reações.
O autor conclui afirmando que a capacidade de adaptação pode ser melhorada, mas que isso implicaria a perda da improvisação já que morte e nascimento permitem a deflagração deste processo (através da mutação do DNA), que constitui um dos pilares da vida.
Ainda que, com esse dados, possa ser alcançada uma compreensão dos elementos essenciais do conceito em exame, isto não exaure as questões relativas à vida humana, porque, sendo esta um estado, quando posto em relação a um indivíduo, ela tem começo e fim (característica que permite a determinação da individualidade). Desta forma, apenas enquanto existe com relação a um ser especifico, é que se constitui em objeto de tutela penal. Surge, assim, nova necessidade, a de precisar seu início e fim.
Quando começa a vida, com a fecundação, com o anidamento, com a instalação da alma ou do sulco primitivo?
Podem-se apontar pelo menos 12 critérios de identificação do início da existência de uma pessoa humana, com base em argumentos que variam desde a convicção de que basta a presença de um único código de DNA para transformar um ovo em uma pessoa humana em formação, até outros, menos científicos, que são centrados na aparência de humanidade, o que só ocorreria por volta dos três meses.
Propõem os bioeticistas que, antes de se lidar satisfatoriamente com tais indagações, é necessário que se tenha respondido a outras: quais sejam, as que se
referem a indivíduo e a indivíduo humano89, noções que antecedem a uma outra, a de pessoa.
A atribuição de uma conseqüência jurídica aos atos praticados sobre o produto da concepção humana, desta forma, faz-se preceder de uma investigação sobre sua natureza; ele é uma pessoa ou uma simples materialidade biológica, um conglomerado de células, uma substância humana ainda não individuada?
Trafegar pelo argumento biológico, como disse João Carlos Loureiro90, tem um papel relevante em temas de Bioética, uma vez que é o único capaz de responder se estamos perante um ser que pertence à espécie humana ou não, distinção que seria desnecessária, caso se defendesse uma paridade axiológica dos seres vivos.
O Conselho da Europa91 antecipou-se nessa orientação, recomendando, no que tange ao embrião, a necessidade de definir-se seu status jurídico previamente à regulamentação das práticas que se fazem sobre ele. Desde 1982, na verdade, a Assembléia Parlamentar da Europa manifesta essa inquietude com a precisão normativa e conceitual, buscando estabelecer, através de convenção, um acordo sobre o uso das técnicas de engenharia genética, a partir dessa deliberação.
Vincent Bourguet92 diz que a resposta à pergunta acima formulada implica conhecer o zigoto no mundo dos fenômenos e constatar sua individualidade em geral e também biológica.
A idéia de individuação no mundo real assenta-se em dois pressupostos - distinção e autonomia - que significam, respectivamente, ser destacado do todo, reconhecível, e manter organizada, em unidade, a pluralidade de elementos que lhe compõem, a despeito do transcurso de tempo. Há, porém, os que definem como indivíduo o que não é dividido em si, o que é verdadeiramente uno93 e, portanto,
89 BOURGUET, Vincent. O ser em gestação: reflexões Bioéticas sobre o embrião humano. São Paulo:
Loyola. 2002. p. 49 e ss; p. 109 e ss. O trabalho foi apresentado como tese de doutorado na Universidade de Marne-la-Vallé, em janeiro de 1996.
90 LOUREIRO, João Carlos. Protocolo Adicional: comentários finais. In: DIREITOS do homem e biomedicina. Porto: Instituto de Bioética da Universidade Católica do Porto. 2003. p. 171-203.
91 Vide recomendação 1.046, de 1986. Em 1997, após diversos projetos, foi assinada a Convenção Européia de Bioética e dos Direitos Humanos.
92 BOURGUET, Vincent. O ser em gestação. São Paulo: Loyola, 2002. (p.18).
93 Cf. BOURGUET. O ser em gestação, op. cit., p.23, quando se refere ao conceito de G.W. Leibniz.
insuscetível de decomposição. A moderna ciência mostra, porém, que é possível que esta unidade não exista porque, além de uma célula, estão as moléculas, além destas, os átomos, os elétrons, aquém dos quais está uma quantidade aparentemente contínua e não quantificada, a energia. Um indivíduo, como tal entendido como o exemplar de uma espécie, orgânica ou não, pode ser composto e, ainda assim, constituir uma unidade, porque esta se estabelece à medida que partes, mesmo diferentes, mantêm tal relação entre si, de modo a constituir um todo.
A organização, desse modo, é o segredo da singularidade e esta se dá de tal forma, que os elementos que compõem o todo são funcionalizados, isto é, postos a seu serviço, tal como ocorre com um tecido ou parte do corpo.
A compreensão da individualidade dos seres vivos é mais complexa e, sendo assim, impõe-se que a ela se somem outros “motivos” específicos, dos quais o principal é certa maneira de ser no tempo94. O ser vivo ganha sua individualidade a partir de um processo, o de individuação, sendo impossível determinar um início exato de sua existência, porque ele não surge por geração espontânea. Dessa forma, destaca-se a continuidade como uma característica essencial do ser vivo, que, embora lhe seja fundamental, é preciso encontrar um limite temporal – começo e fim –, de forma a se poder assinalar a própria existência de uma individualidade (singularidade).
A noção de continuidade e a dificuldade de identificar o começo de um ser vivo, que decorre do processo de reprodução sexuada, dificultam, de certa forma, sua distinção em relação ao que veio antes. Uma vez, porém, que surge com forma diferenciada dos seus genitores e se constitui em alteridade com relação a estes, que continuam a existir, o ser vivo tem o seu começo determinado e, por tanto, identificável. É bem verdade que, no curso desse processo, como explicam alguns, o novo ser vivo apresenta-se dotado de características próprias, mas é exatamente essa distinção que lhe marca a individualidade, que o faz singular.
No que diz respeito à espécie humana, essa forma de reprodução, em que as etapas se sobrepõem e se concatenam, permite que alguns entendam que o embrião não passa de óvulo ativado, reduzindo a geração a uma alteração, por não ser possível identificar, com segurança, um “início absoluto no tempo”95. Bourguet
94 BOURGUET, Vincent. O ser em gestação, op. cit., p. 27 e ss.
95 Id., Ibid, p. 32.
mostra o equívoco dessa compreensão, na medida em que se toma, como modelo da individualização do ser vivo, o que ocorre na geração de seres unicelulares (uma bactéria, por exemplo, não morre, ela se passa inteira para os descendentes que, em suma, são ela mesma). A “reprodução sexuada não gera nem um outro absoluto nem o mesmo absoluto. Por meio dela, os seres gerados são outros em relação aos genitores: eles começam a ser em um dado momento de tempo”96. Essas propriedades permitem que se possa identificar a formação de uma singularidade no ser humano, muito antes do seu nascimento.
Todavia, ainda que se admita que o ser humano, no processo de desenvolvimento intra-uterino, seja como pré-embrião (denominação que alguns atribuem aos embriões nos primeiros estágios de desenvolvimento, como se verá no capítulo subseqüente), embrião ou feto, constitui uma individualidade que integra a espécie humana, persistem outras exigências para que a tutela penal lhes seja prestada de forma absoluta, como ao adulto, ou seja, exige-se que seja pessoa.
Elucidar, no entanto, o sentido e alcance dos termos pessoa e ser humano, demanda, segundo Maria do Céu Patrão Neves97, a participação da filosofia, já que à biologia compete apenas dar a noção de vida. Por isso, a autora atribui à expressão pessoa o sentido de ser humano capaz de consciência de si mesmo, e, conseqüentemente, do mundo onde se insere. Ser pessoa, em suas palavras consiste em um processo continuo e infinito de realização de si, na criação de si próprio.
Tal posição, como se vê, reflete um juízo que se sustenta em um valor, num julgamento que pode ser distinto do de outros autores, já que a matéria ainda não dispõe de elementos suficientes para o estabelecimento de conceito unânime.
Nesse aspecto, a título de exemplo, deve-se lembrar que a expressão pessoa, do grego prósopon, já foi definida, nas teorias cristãs, como a singularização da criação de Deus.
96 BOURGUET, Vincent. O ser em gestação, op. cit., p. 30.
97 NEVES, Maria do Céu Patrão. O começo da vida humana. In: ARCHER, Luis, BISCAIA, Jorge e OSSWALD, Walter. (Coords.). Bioética. Lisboa: São Paulo: Verbo, 1996. p.175-183.